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Fabrico de adobes à beira-rio prejudica a natureza

Marcelo Manuel | Ndalatando

O fabrico de adobes ao longo do rio Muembeje, que no passado era tido como um dos principais cartões postais da cidade de Ndalatando, no Kwanza-Norte, ganhou contornos alarmantes.

Apesar dos trabalhos de sensibilização feitos pela Administração Municipal a população insiste em fabricar adobes perto dos rios
Fotografia: Nilo Mateus| Ndalatando

A actividade junto àquelas águas, nos últimos 15 anos, tornou-se a principal fonte de sustento de dezenas de famílias. As zonas próximas à entrada do Centro de Investigação Agronómica do Quilombo e do bairro Sassa são as mais prejudicadas pelos jovens fabricantes de adobes, na sua maioria desempregados e sem apoio familiar.
Os jovens dizem que a actividade, apesar de árdua e desgastante, pode ser considerada rentável e honesta. É o que defende José Adão, de 20 anos, que vende o produto ao preço de 25 a 30 kwanzas, dependendo do seu tamanho.
O jovem disse à nossa reportagem que os adobes normalmente são comprados em grandes quantidades, podem ultrapassar mil peças, tendo em conta a envergadura das obras em que são aplicados.
O negócio é apenas realizável no tempo seco, uma vez que na época chuvosa os adobes são constantemente desfeitos, referiu.
“Temos muitos compradores, o que torna rentável o negócio, daí que haja sempre vontade de continuarmos a fazer mais blocos de a­dobe, apesar do esforço que exige”, confessou José Adão. Francisco Duarte, 19 anos, outro fabricante de adobes, disse que esta prática é a sua primeira actividade laboral e apesar do pouco tempo em que está envolvido no negócio, fabricou até agora mais de 1.200 peças.
Com a venda dos adobes ganhou mais de 30 mil kwanzas, que investiu na compra de chapas de zinco, materiais escolares e no sustento da família, composta por ele, pela mãe e irmãos menores.
Francisco conta que o negócio permite-lhe estudar e ajudou-o numa formação profissional na área de alvenaria. Diz que quando tiver um nível de escolaridade aceitável vai largar os adobes, para evitar problemas de saúde.

Combate das autoridades

Quanto ao combate das autoridades administrativas, o jovem é a favor. “Não deploro a atitude coerciva da administração municipal em retirar-nos deste local em prol da protecção do ambiente.”
Apesar de defender esse combate, o jovem Francisco apela às autoridades para indicarem outro espaço em que possam continuar a trabalhar, uma actividade que garante o sustento de dezenas de famílias.
“Com este trabalho, ficamos a vida toda ocupados e sem tempo para cair nas bebedeiras e nos roubos, como acontece com muitos outros jovens”, disse.
O chefe de departamento do Ambiente da direcção provincial do Urbanismo, Gaspar João de Barros, referiu que a problemática do fabrico de adobes em locais impróprios é antiga e que, apesar dos vários trabalhos de sensibilização feitos pela administração municipal e o seu departamento, a população da região insiste nesta prática.

Consequências da prática

O responsável referiu que o Governo Provincial está a desenvolver acções em vários domínios para a devolução do cenário que o rio apresentava antes, pois actualmente constata-se a morte de várias espécies animais aquáticas e terrestres, como os pequenos peixes, sapos, lagartos, cobras, gafanhotos, ratos, dentre outros.
A situação pode contribuir para a origem de vários problemas ligados à diminuição da matéria orgânica dos solos, que leva ao seu enfraquecimento, além do desaparecimento das várias espécies vegetais mais a­bundantes, disse.
A actividade pode também retirar a qualidade da água usada para a irrigação dos vários produtos existentes a nível do Centro de Investigação Agronómica do Kilombo.
O chefe de departamento advogou a necessidade dos vários jovens se enquadrarem nos programas de formação profissional, ministrados pelo INEFOP, de forma a adquirirem uma profissão e serem inseridos no mercado do emprego ou optarem pelo empreendedorismo.
O chefe de secção dos Serviços Comunitários da Administração Municipal de Cazengo, Manuel Macongo, frisou que com a ajuda de efectivos do Comando da Polícia Nacional se tem tentado dissuadir os jovens de continuarem tal prática.
“Retiramos, por várias vezes, os jovens das áreas mais críticas utilizadas para o fabrico de adobe, mas com a ausência da polícia eles voltam ao local”, disse.

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