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Grupo de elefantes estraga as culturas

Adalberto Ceita | Cêrca

Os camponeses da comuna da Cêrca, no município do Golungo Alto, confrontam-se com a permanente invasão das áreas de cultivo por pequenos grupos de elefantes.

Camponesa desolada mostra marcas da destruição provocada pelos elefantes na sua lavra
Fotografia: Dombele Bernardo

A labutar numa região agrícola fértil e com potencial para gerar riqueza, os camponeses da comuna da Cêrca, no município do Golungo Alto, província do Kwanza-Norte, vivem dias amargos. A culpa é da permanente invasão de pequenos grupos de elefantes às áreas de cultivo, que deixam, por onde passam, a marca da devastação. 
“Este é mais um ano agrícola para esquecer”. O desabafo da camponesa Doroteia João, mais do que ilustrar o prejuízo que tem sido causado pela invasão de elefantes às lavras na aldeia da Quibila, traz consigo o sentimento de impotência diante da devastação. Com 54 anos, nasceu e sempre viveu na aldeia da Quibila, que dista 15 quilómetros da comuna da Cêrca. Sem poder conter o desconsolo, recorda o tempo em que a acalmia predominava entre os camponeses e a época da colheita era um motivo de extrema satisfação. Só que essa fase foi interrompida pela proliferação de elefantes e pelos estragos causados por estes paquidermes. 
A produção de mandioca constitui a base do sustento da população da Quibila. Além desta cultura, produz-se banana, ginguba, laranja e limão. Doroteia João revela que os estragos dos elefantes obrigaram à mudança da dieta alimentar da população. O funge de bombó, que era muito consumido, foi substituído pelo de milho. É que os elefantes preferem a mandioca. “A chegada dos elefantes, há quatro anos, trouxe a fome e veio alterar o modo de vida não só daqui, da Quibila, como também das aldeias vizinhas”, diz Doroteia João.
E como se não bastasse, também a falta de chuva não ajuda.Manuel Paulo, camponês há trinta anos, possui trinta lavras, todas elas reduzidas a terra, no início deste ano, pelos elefantes. Confessa que nunca viu nada igual.
“Quando não comem as plantações, talvez atraídos pelo instinto, os elefantes destroem o que encontram pela frente. Na ânsia de saciar a fome e matar a sede, nem mesmo os poços de água escapam à sua acção, o que aumenta as dificuldades de regadio”, afirma.
Manuel Paulo acrescenta que os elefantes não se limitam a beber a água das reservas. Ainda se deliciam com a água que resta das cacimbas, sujando-a por completo.
“Um só elefante já provoca muitos estragos, mas eles geralmente andam em grupos. A nossa sorte é que os estragos estão confinados aos campos de cultivo, senão nem sei o que seria de nós”, confessa, apreensivo.

Encontro de alto risco

Acostumada à vida do campo, Lurdes António já passou por situações embaraçosas envolvendo armadilhas e, inclusive, minas anti-pessoais, mas diz que nada se assemelhou ao encontro acidental que teve, há mês e meio, com um elefante. Aos 41 anos, a camponesa tem todos os contornos do episódio bem guardados na memória. “Deviam ser 16 horas e qualquer coisa. Eu estava sozinha no campo, a trabalhar, quando encontrei um elefante a comer uma mandioqueira. Fiquei estática, cheia de medo, e depois pus-me a correr em direcção à aldeia”, lembra. “São animais complexos e por vezes violentamente defensivos. Mas o que me deixou impressionada foi a elevada estatura do animal, quase semelhante à estrutura de uma casa”, diz.

“Estamos mal com a situação”

Respondendo pelo sustento de três filhos, ela segue, com impaciência, o evoluir da devastação das lavras, conforme se vão agudizando as dificuldades de alimentação. Se as coisas se mantiverem inalteráveis, pensa em ir viver noutra região do Kwanza-Norte.
“Estamos mal com esta situação. No mês passado perdi boa parte das plantações de mandioca, milho e ginguba. E o pior é que não podemos fazer nada, pois existe a proibição de abater os elefantes”, lamenta Lurdes António.
A acção dos elefantes acarreta a carência alimentar da comunidade. Sempre que possível, a situação é minimizada pelo apoio que os camponeses recebem da Direcção Provincial do Ministério da Assistência e Reinserção Social. A iniciativa está no programa do Governo de apoio às pessoas com elevado grau de vulnerabilidade.
De acordo com o relatório anual daquela Direcção, referente ao ano passado, 150 famílias que viram as suas lavras destruídas pela acção dos elefantes, nas comunidades de Cambondo e Cêrca, foram beneficiadas de bens alimentares e materiais de construção. No mesmo período, o órgão do MINARS no Kwanza-Norte efectuou visitas domiciliárias e constatou que a maioria dos idosos, quase todos camponeses, vive em situação de pobreza.

Setenta lavras afectadas

O ataque dos elefantes não se circunscreve apenas às comunidades da Cêrca e Cambondo. Tal como o relatório descreve, os elefantes colocam também em risco a agricultura que é desenvolvida pelas comunidades de Caboco, Quibaca e Quizundo, no município da Banga.
O “insólito” fenómeno da invasão dos elefantes tem tirado o sono aos habitantes da Cêrca. O administrador comunal António Neto refere que os animais já destruíram acima de 70 lavras e esclareceu que os maiores estragos foram verificados nos palmares e nos mandiocais. As aldeias mais atingidas são Quibila, Pentamidina, Catetesalacabanga e, mais recentemente, Caleba. “Temos procurado ajuda junto das instâncias superiores, de maneira a encontrar mecanismos de intervenção para reduzir o sofrimento da população”, diz.
As técnicas sugeridas pela direcção provincial do Ministério da Agricultura, Desenvolvimento Rural e Pescas orientam para a queima de pneus e o toque frequente de sinos na área envolvente das lavras para afugentar os invasores.
 António Neto confirma o efeito positivo obtido até aqui pela medida, mas avança que a sua continuidade carece de apoios, particularmente na obtenção de pneus. A participação da população é igualmente indispensável.
Presume-se que os elefantes venham do Parque Nacional da Quissama, mas a verdade é que a proveniência exacta dos animais ainda é desconhecida. António Neto adianta que, anteriormente, os elefantes rondavam em grupos de três e quatro, mas agora a composição dos grupos subiu para sete a oito indivíduos. Fontes locais dizem que a situação “indicia que estamos em presença de forte reprodução” e acrescentam que, “seja como for, existe uma lei que proíbe o abate desta espécie animal”.
Este assunto tem criado pontos de vista divergentes entre os responsáveis administrativos e os camponeses da Cêrca. “Recebemos apelos no sentido do abate. Temos estado a passar a mensagem, em encontros com as autoridades tradicionais e com os camponeses lesados. Aconselhamos a ter paciência, porque as autoridades estão empenhadas em solucionar o problema”, garante.

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