Províncias

Investimentos públicos reforçam rede sanitária

Manuel Fontoura | Ndalatando

O Programa de Investimentos Públicos permitiu, no Kwanza-Norte, a construção e reabilitação de hospitais, centros e postos médicos em todos os municípios.

Director da Saúde Manuel Varela
Fotografia: Manuel Fontoura|Ndalatando

O Programa de Investimentos Públicos permitiu, no Kwanza-Norte, a construção e reabilitação de hospitais, centros e postos médicos em todos os municípios. A rede sanitária da província vai ser reforçada, no primeiro trimestre de 2011, com a inauguração de mais um hospital  no município de Ambaca. Em entrevista ao Jornal de Angola, o director provincial da Saúde, Manuel Varela, revela os avanços que o sector registou nos últimos oito anos.

Jornal de Angola – Quais os avanços que o sector da saúde obteve na província, desde 2002, ano da conquista da paz?

Manuel Duarte Varela –
Construímos várias infra-estruturas entre 2002 e 2010. Antes, só tínhamos cinco hospitais em toda a província, hoje já temos com oito, além de duas maternidades, que nunca tivemos, uma no Cazengo e outra no Golungo-Alto. A província possuía ainda seis centros de saúde e agora conta com 17, assim como 73 postos de saúde contra os anteriores 62. Em 2002 a província tinha, ao todo, 73 unidades sanitárias e agora, 105. São avanços bastante significativos, superiores a 120 por cento.

JA – Em 2002 havia cerca de 200 camas hospitalares em toda a província. Com a entrada em funcionamento das novas unidades, qual é o número?

MDV
– Subiu de 215, em 2002, para 884. Em 2007, havia 402, o que significa um aumento de mais de 220 por cento.

JA – Em termos de serviços médico-hospitalares prestados à população, quais as novidades?

MDV
– Temos as especialidades de oftalmologia, otorrinolaringologia, serviços de ortopedia, o núcleo de rastreio do cancro, programas como o de integração de serviços, com directrizes a partir do Ministério da Saúde, como o da Atenção Integrada da Doença na Infância (AIDI). São requisitos importantes já implementados nas nossas unidades. Temos ainda os serviços de saúde reprodutiva e os centros de testagem e aconselhamento voluntário, que começaram a funcionar a partir de 2006. Com a paz e as vias normalizadas, o acesso aos testes aumentou e conseguimos não só desenvolvê-los, como consolidar e estender esses serviços a toda província. Ainda temos falta de alguns serviços de cardiologia, na vertente interventiva, e todos os cardiovasculares, de neurologia e psiquiatria.

JA - Com o surgimento de novas unidades sanitárias, houve a necessidade de se aumentar, obviamente, o número de enfermeiros e médicos. Qual é o actual quadro, neste aspecto, da província?

MDV
– Em termos de recursos humanos estamos no bom caminho. Em 2002, a província tinha apenas quatro médicos, hoje temos 63. Se tivermos em conta que devem existir três médicos para cerca de dez mil pessoas, pelo número de habitantes que a província possui, aproximadamente 450 mil, são necessários, pelo menos, mais 87 médicos das mais distintas especialidades. No passado tínhamos apenas um técnico superior de enfermagem contra os 32 actuais, além de 728 enfermeiros. Em 2002 tínhamos 35 técnicos de análises clínicas e agora temos 61. Já o número de técnicos de apoio hospitalar cresceu de 188 para 606.

JA - A parte administrativa acompanhou todo o processo?

MDV
– O sistema de recrutamento da função pública foi normalizado. Agora, a única via de recrutamento do pessoal é a do concurso público. Estamos sujeitos a uma quota que varia de ano para ano. Por exemplo, em 2008 tivemos cerca de 191 lugares, mas em 2010 houve 161, enquanto que nos anos 2004 e 2005 tivemos um número maior de vagas. Com esta forma de funcionamento da função pública temos absorvido alguns quadros, mas face às inaugurações de novas unidades sanitárias aumenta a necessidade de recursos humanos especializados, principalmente médicos, enfermeiros e técnicos de análises clínicas. Ainda na vertente recursos humanos, particularmente do pessoal angolano, a Direcção Nacional dos Recursos Humanos do Ministério da Saúde tem um plano de desenvolvimento, que visa a formação continuada em que se faz o levantamento das necessidade pontuais e depois dá-se formação de especialização ao pessoal dentro do local de trabalho.

JA – Dentro da vertente de formação continuada, que tipo de formação é que os técnicos locais já beneficiaram?

MDV
- Antes não tínhamos nenhuma parteira especializada. Desde 2004, temos e podemos cobrir os municípios de Cazengo, Cambambe, Ambaca, Golungo-Alto e Kikulungo. Em Fevereiro, mais cinco senhoras vão a Malanje para frequentarem o mesmo curso e podemos então, futuramente, cobrir todos os municípios com, pelo menos, uma parteira especializada. Temos um outro plano, o da especialização de médicos. A província tem três que estão a espera de defender as monografias em gestão hospitalar, além de um técnico superior a concluir o mesmo curso em Luanda e dois técnicos especialistas em pediatria, chegados este ano. Como vê, o desenvolvimento dos recursos humanos também é um desafio e não deixa de ser uma prioridade do sector da saúde na província.

JA - Como é que a província se encontra em termos de meios hospitalares?

MDV
– Temos alguns equipamentos hospitalares, como ecógrafos, incubadoras, electro-cardiógrafos, tocógrafos e monitores para detenção dos sinais vitais em todas as camas do hospital municipal de Cazengo. A nível de laboratório, há espectro-fotómetros e outros meios modernos. Apesar de não estarem ainda a funcionar, temos equipamentos novos e já montados, como cadeira completa de estomatologia, equipamentos de otorrinolaringologia e diantoscopia. Quando estes aparelhos entrarem em funcionamento, vamos evitar muitas transferências de doentes para Luanda.

JA – E em termos de viaturas e medicamentos?

MDV
- Em relação a viaturas temos muitas dificuldades. A maior parte dos municípios não têm ambulância. Já as tiveram, mas a maioria está inoperante e apenas as há nos municípios de Cazengo, Cambambe, Ambaca e Golungo-Alto. É um número bastante pequeno para as necessidades da população alvo. Quanto aos fármacos, não temos tido problemas, porque há apoio do governo provincial e da Direcção Nacional dos Medicamentos Essenciais, além da aquisição que é feita pelas próprias instituições com as verbas alocadas para este fim. Há quatro ou cinco anos que não há rotura de medicamentos essenciais na província, as unidades têm tido o essencial para o atendimento diário.

JA – Até que ponto a entrada em funcionamento de novas unidades sanitárias, em vários pontos da província, diminuiu o afluxo de doentes ao Hospital Provincial?

MDV
– Em Ndalatando, com a entrada em funcionamento do Hospital Municipal de Cazengo e do Centro de Saúde do bairro Sassa, muita gente, que vive nos arredores dessas unidades, deixou de afluir ao Hospital Provincial, porque passaram a dispor do mesmo tipo de serviços que o hospital central oferece. Com o esforço do governo da província colocamos em cada unidade um médico angolano. Desde a abertura do centro médico do Sassa, em Março, o número de pacientes diários subiu de 50 para 150. O Hospital Municipal de Cazengo tem uma frequência diária de cem pacientes, razão que fez com que diminuísse o afluxo ao Hospital Provincial do Kwanza-Norte. O hospital provincial ainda vai ficar mais desafogado, quando começarmos a fazer internamentos naqueles dois centros médicos.
JA – Como está a ser equacionada a assistência médica às populações que vivem distante das novas unidades sanitárias?

MDV
- Para as pessoas cujo acesso ainda é um bocado difícil em termos de distância, com o pessoal disponível, vamos criar equipas móveis para se deslocarem às aldeias com aproximadamente cem famílias. Como se sabe, o regulamento sanitário nacional não prevê a construção de uma unidade sanitária para cem famílias. Prevê, sim, que as repartições de saúde criem equipas móveis de assistência médica integradas, que vão aconselhar e tratar a população e levar os serviços de prevenção, vacinação, monitorização do peso, os cuidados com a alimentação, o aconselhamento aos sinais de perigo e consultas às grávidas. Isto tudo deve ser realizado de forma integrada pelas equipas móveis, particularmente nos casos em que o número de habitantes não justifique a construção de uma nova unidade de saúde.

JA – O hospital central de Ndalatando, com os novos desenvolvimentos, passa a atender apenas as situações mais complicadas?

MDV
- Como unidade de referência da província, atende todos os casos que não são atendidos nos centros da periferia. Este hospital já carece de uma intervenção. Tivemos conhecimento, em 2009, que este ano o hospital ia beneficiar de obras de reabilitação, ampliação e modernização, mas, tal não aconteceu. Vamos manter o contacto com o Ministério da Saúde para ver se, em 2011, as obras podem começar. É um hospital com cerca de 130 camas, o que é pouco para a população de Ndalatando. Tem problemas devido ao elevado número de pacientes, de atendimento e falta de pessoal. Não dispõe de especialistas em determinadas áreas e precisa de ser potenciado com outras valências.

JA – A área dos cuidados intensivos está em pleno funcionamento?

MDV
- Não temos cuidados intensivos, mas uma enfermaria onde as pessoas são melhor cuidadas, pelo facto da enfermeira estar ali permanentemente. Quando se fala em cuidados intensivos a impressão que temos é de uma estrutura com equipamentos de ponta e pessoal treinado permanentemente.

JA - Como têm lidado com as situações que o Hospital Provincial não pode dar resposta, por falta de médicos especialistas, como é o
caso da área de cardiologia?

MDV
– Apesar de não termos um médico especialista em cardiologia, os doentes com problemas cardiovasculares, como hipertensão e outros, são tratados pelo médico interno geral ou clínico. Mas quando se fala em cardiologia interventiva, em que se precisa de caracterização cardíaca, colocação de bypass, válvulas e outras, temos estado a enviar os doentes para Luanda. Os casos de infartos não são frequentes entre nós, mas os acidentes vasculares cerebrais, a que chamamos vulgarmente trombose, assistimos localmente até ao nosso limite e, dependendo da gravidade, transferimos os doentes.

JA – Actualmente quais são as doenças que mais preocupam a Direcção da Saúde do Kwanza-Norte?

MDV
- Há algumas décadas, tínhamos como referência a tripanossomíase, malária e as doenças respiratórias e diarreicas agudas, que eram o grupo que, frequentemente, davam entrada nos nossos hospitais e centros de saúde, mas ultimamente temos recebido doentes diabéticos em números cada vez maiores, hipertensos ou com traumatismo por acidente de viação. O nosso desafio não é só as doenças infecciosas, também as do desenvolvimento, das mudanças climáticas, derivadas de comportamentos alimentares e que antes só se ouviam falar na Europa ocidental. Essas doenças hoje já fazem parte do nosso dia-a-dia. Já temos necessidade de constituir um núcleo dos diabéticos, de pacientes cardiovasculares e hipertensos e fazer programas dirigidos, pelo menos, uma vez por mês e discutir as várias formas de combate às doenças e detectar outros possíveis casos, com efectivação de novos rastreios em pessoas interessadas.

Tempo

Multimédia