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Jovens com poucas opções para ouvir boa música e dançar

Manuel Fontoura | Ndalatando

A adopção de políticas e projectos que incentivem os empresários e gestores a reabrirem os centros recreativos e salões de dança e discotecas deve ser, segundo a camada juvenil de Ndalatando, uma das prioridades das instituições culturais, porque esses espaços ajudam a promover e a divulgar a música e as danças angolanas e não só.

Muitos estão a optar por festas de quintal, com o consumo excessivo de bebidas alcoólicas
Fotografia: José Cola | Edições Novembro

Em declarações ao Jornal de Angola, os interlocutores são de opinião que se houvesse mais salões de festas, centros recreativos e discotecas em Ndalatando, o movimento cultural e artístico seria bem mais atractivo.

O munícipe Manuel Tomé referiu que actualmente a cidade de Ndalatando não tem espaços de diversão, nem mesmo casas nocturnas para os jovens passarem a se divertir. Para ele, de 1990 a 2000, a província, e em particular a cidade de Ndalatando, tinha mais espaços de diversão e parecia mais movimentada do ponto de vista de actividades culturais.
“Lembro-me que naquela altura, mesmo com a situação de guerra que vivíamos, ainda era possível ver discotecas abertas, como Paladar, Cristal, e Muembejito, esta última reaberta recentemente, mas sem a mesma vivacidade”.
Manuel Tomé referiu, por outro lado, que, apesar do marasmo registado neste sector, existem vários grupos de jovens que, com algum talento e criatividade, têm organizado festas em Ndalatando e no Dondo, com a participação não só de músicos locais, mas também com muitos da praça nacional, como Ary, Nerú Americano, Kyaku Kyadaff, Jai Oliver, o grupo Força Suprema, Cef, Ana Joyc e tantos outros.
Além das discotecas, disse Manuel Tomé, havia igualmente dancings espalhados pela periferia, que conseguiam reunir, aos finais-de-semana, o pessoal da circunscrição, com muito boa música e dança à mistura. Salientou igualmente que, além destes locais, o Governo realizava maratonas músico/culturais aos finais-de-semana, com a participação de artistas locais e outros vindos de Luanda e demais províncias.
Já na visão de Moisés Guilherme, outro jovem que se predispôs a falar para a nossa reportagem, era notório ver naquela altura muitas pessoas interessadas a ir às discotecas, maratonas ou mesmo ao pavilhão gimnodesportivo de Ndalatando, para ver os grupos de dança a apresentarem variados estilos.
“Não tem comparação com o momento actual. Hoje, depois da escola ou do trabalho, não temos nada para fazer. Algumas vezes, o Governo organiza espectáculos musicais e maratonas, mas isso só acontece em altura de comemorar uma data festiva”, frisou. Moisés Guilherme apela ao Governo no sentido de apoiar os empresários do ramo, de modo a fazerem com que as discotecas e outros locais de recreação sejam reavivados.

Festas de quintal
A maioria dos entrevistados é de opinião que, se nada for feito do ponto de vista da criação de espaços para a diversão dos jovens e não só, muitos vão preferir fazer festas de quintal, com o consumo excessivo de bebidas alcoólicas, drogas e talvez práticas não salutares para a boa convivência dos participantes.
Para Xavier Júnior, de 57 anos, antigamente, nos meados dos anos 70 e 80, os primeiros salões e centros culturais de Ndalatando, como é o caso do Kudissanga, tinham o objectivo de levar os convivas a dançar ao ritmo da música popular urbana. “Os bailes naquela altura eram autorizados e controlados pelas entidades culturais”, lembrou.
Outro aspecto no crescimento da música popular urbana da época está relacionado com a divulgação de mensagens políticas, particularmente nas suas letras, transformando-as numa arma de combate à guerra que assolava o país.
Xavier Júnior explicou que uma das razões que contribuiu para o surgimento do movimento artístico em Ndalatando e um pouco em toda a província do Cuanza-Norte foi a actividade comercial, que na época era muito intensa, com a produção do café, óleo de palma, madeira e outros produtos.
Referiu que as festas e espectáculos da região arrastavam gente de todo o país, como Luanda, Malanje, Bengo e Uíge. “Os convivas animavam-se com muita dança nas festas de quintal, que se prolongavam até à madrugada”. Explicou igualmente que os Centros Culturais e Recreativos, como Kudissanga, Jacaré, Cine Ndalatando, Lusitano e do Miradouro da Lua, muitos pertencentes ao Estado na altura, ajudaram a impulsionar os fazedores de cultura nacional e a música urbana.

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