Províncias

Município de Samba Caju sai da letargia

ADALBERTO CEITA | Samba-Caju

Com a entrada na rota da reconstrução e desenvolvimento, meses depois da conquista da paz, em 2002, a população e as autoridades do município de Samba-Caju abandonaram a letargia para abraçar o caminho do trabalho. As feridas da guerra estão cicatrizadas e os seus traumas fazem parte de um passado que ninguém quer reviver.

Administrador João António Leitão
Fotografia: Dombele Bernardo

 

Com a entrada na rota da reconstrução e desenvolvimento, meses depois da conquista da paz, em 2002, a população e as autoridades do município de Samba-Caju abandonaram a letargia para abraçar o caminho do trabalho. As feridas da guerra estão cicatrizadas e os seus traumas fazem parte de um passado que ninguém quer reviver. Para os habitantes de Samba-Caju, que comemoraram em Agosto último 100 anos de existência do município, o momento agora é de colocar mãos à obra em busca de um futuro melhor.
“Esta é uma batalha para vencer”. A convicção do administrador João António Leitão, mais do que o desabafo pelo tempo perdido com a guerra, revela a ambição de um homem comprometido com a reconstrução e desenvolvimento do município de Samba-Caju.
O caminho a percorrer é do progresso e todos que desejam contribuir são bem-vindos. Aliás, esta é a principal divisa da população, estimada em 30.489 habitantes, e que se prolonga até Samba-Lucala, a única comuna do município.
“Estamos a dirigir este município há menos de um ano. Temos a consciência que a missão é difícil, mas estamos optimistas que o desenvolvimento é feito com competência e persistência”, disse o administrador.
Com uma superfície de 2.485 quilómetros quadrados, Samba-Caju é uma região essencialmente rural, onde predomina a agricultura de subsistência. A produção de mandioca é a referência e a revitalização deste sector vital na vida da população está agora intrinsecamente ligada ao Programa Municipal Integrado de Desenvolvimento Rural e Combate à Pobreza. Com o apoio deste programa as colheitas agrícolas melhoraram substancialmente e o escoamento de produtos deixou de ser problema. Para a fluidez na circulação de pessoas e bens, tem contribuído a reabilitação da via rodoviária entre as localidades de Cuso e Samba-Lucala, e a ponte sobre o rio Kissado. João António Leitão adianta que foram preparados 80 hectares de terra para distribuir aos camponeses organizados em associações e cooperativas.
“A implementação do Programa Municipal Integrado de Desenvolvimento e Combate à Pobreza tem vindo a melhorar as condições de vida da população de Samba-Caju”, destaca.
Os constrangimentos no abastecimento de água potável ficaram reduzidos. A capacidade de produção foi ampliada de 50 metros cúbicos para o dobro no quadro do programa comunitário “Água para todos”, o que veio melhorar a distribuição de água da rede pública aos bairros mais próximos.
Quanto aos bairros periféricos, os projectos circunscrevem-se a construção de chafarizes. Apesar dos avanços registados, existe o reconhecimento de que muito trabalho há ainda por fazer neste domínio.
A juventude está no foco das preocupações das autoridades administrativas e o centro de formação que facilita a obtenção de emprego tem merecido atenção especial. João António Leitão confirma que no início do ano dezenas de jovens foram admitidos nos sectores de ensino e da saúde na base do concurso público.
O sector da banca ainda caminha a passo tímido. O município só dispõe de uma instituição bancária, os projectos de expansão encontram-se em estudo e contam-se os dias para a implantação de uma nova instituição bancária.

Insuficiências na saúde

Um centro municipal e seis postos de saúde compõem a rede sanitária do município. Associam-se às estruturas um médico e 24 técnicos de saúde que se esforçam para atender os pedidos de ajuda dos pacientes. Longe de satisfazerem a demanda, uma das alternativas passa por cuidados primários de saúde junto das comunidades com recurso a postos móveis.
Em Samba-Caju, o número reduzido de pessoal faz parte de uma preocupação antiga e o administrador João António Leitão anuncia que tem tudo devidamente acertado para a vinda de novos médicos.
“Há esforços do governo provincial para solucionar essa situação e da nossa parte temos a casa dos médicos reabilitada e pronta para acomodá-los”, disse.
No espaço de um ano e meio foram criados e estão em reabilitação mais postos de saúde, particularmente nas zonas que distam entre 20 a 25 quilómetros da sede municipal. Dois postos de saúde nos sectores de Mussabo e Quidulo, que se encontravam abandonados, possuem agora uma melhor imagem. A intenção é alargar a rede sanitária e encurtar a distância que existe entre as diferentes zonas populacionais.
João António Leitão assegura que a proximidade de cuidados primários fez reduzir as mortes por malária e aquelas decorrentes de complicações materno-infantis. O paludismo e as doenças diarreicas são as princípais fontes de preocupações.
“Em termos de atendimento não temos tido grandes problemas e os nossos postos funcionam com normalidade”, disse.
Zacarias Kitala, 29 anos, é natural do município e elogia a construção dos novos centros de saúde e o trabalho que é prestado pelos profissionais desta área. Ele, que padece de hipertensão, reconhece que nada se compara com o passado difícil e que são visíveis melhorias no estilo de vida dos habitantes.
“Já tivemos épocas difíceis em que para se fazer uma consulta o processo era demorado e desgastante. Hoje essa situação foi ultrapassada”, disse.

Melhorias no ensino

A rede escolar tem 57 estabelecimentos de ensino que perfazem 129 salas de aulas e, para o próximo ano, está prevista a construção de mais cinco escolas. Para o ano lectivo em curso, da iniciação à 13ª classe, a população estudantil totaliza 6.295 alunos para um universo de 273 professores, enquanto o programa de alfabetização conta com 861 pessoas e seis alfabetizadores.
O chefe de secretaria da repartição municipal de Educação, António Domingos, ressalta que em oito anos, o sector registou melhorias substanciais.
“Quando cheguei ao município, em 2003, os alunos assistiam as aulas sentados em bancos de bordões. Essa imagem há muito que deixou de existir e a qualidade do ensino deve muito à aposta dos professores na formação contínua”. Daquele tempo António Domingos reafirma que muita coisa mudou. Aponta entre os ganhos o aumento gradual da população estudantil, a extensão do ensino no período nocturno e a reforma no sistema de ensino.
Cristina João nasceu, cresceu e sempre morou em Samba-Caju. De lá apenas saiu na fase mais crítica do conflito pós-eleitoral, situação que motivou o seu divórcio temporário com a escola. Conhecedora da importância social dos estudos, no período da manhã dedica-se à venda no mercado municipal e à noite assiste às aulas do programa de alfabetização. Cristina João recorda com nostalgia das coisas boas vividas na adolescência e que a guerra interrompeu. Confiante num futuro de tranquilidade, espera que a paz nunca mais seja perturbada e constitua motivo de reconciliação e orgulho para os angolanos.

Energia eléctrica de Capanda

Desde Novembro do ano passado que o centro do município beneficia de energia eléctrica proveniente da barragem de Capanda. Trata-se da primeira fase que abrange também os arredores da cidade. Optimista com o passo dado, o administrador João António Leitão recorda que Samba-Caju ficou privada de energia eléctrica durante dezoito anos.
“A energia que recebemos ainda não é suficiente para atender toda população, existem reclamações, mas esta é apenas a primeira fase, e as outras que vêem a seguir terão maior abrangência”, explicou.
O certo é que mais de 247 habitantes já beneficiam de energia em resultado das ligações domiciliares. A melhoria da iluminação pública e a redução do índice de criminalidade no período nocturno são os ganhos imediatos.
Para os habitantes, as alternativas nem sempre proporcionavam o benefício desejado. À guisa de exemplo, Graciano David, que vive há dois anos em Samba-Caju, disse que as avarias dos geradores constituíam a parte mais dolorosa. Em jeito de balanço conta que o fim do gerador pôs ponto final às despesas com o combustível, o constante risco de acidentes e o barulho irritante e permanente.
“Para quem ficou vários anos privado de energia eléctrica é uma grande satisfação. É um bem primordial, sobretudo para nós que, por falta dela deixamos tantas coisas por fazer”, acrescentou Graciano David.

Tempo

Multimédia