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Número de crianças pedintes com tendência a aumentar

André Brandão | Ndalatando

Em vários pontos das ruas da cidade de Ndalatando, Cuanza-Norte, é comum nos dias de hoje ver um número considerável de crianças pedintes, na sua maioria entre cinco e os 13 anos, algumas delas sujas, descalças e com aspecto de má nutrição.

Em muitas artérias da cidade de Ndalatando é notória a presença de crianças a mendigar
Fotografia: Nilo Mateus| Edições Novembro

As crianças, muitas delas com pais e familiares nos bairros da periferia da cidade, permanecem frequentemente nas maiores superfícies comerciais de Ndalatando, como a Shoprite, Nosso-Super e mercados dos bairros Catome de Cima e Tala Hady, com o intuito de conseguirem algum dinheiro ou mesmo comida para o seu sustento e dos seus.
Numa ronda efectuada pela reportagem do Jornal de Angola em diferentes pontos da cidade, onde há maior aglomeração de crianças pedintes, apurou-se que muitas delas são filhos de funcionários públicos e pedem dinheiro nas ruas para ajudar nas despesas de casa, muitas vezes obrigadas pelos pais e/ou familiares mais próximos.
Joaquim Miguel, de dez anos (nome fictício), é filho de um funcionário público (agente da Polícia Nacional). Contou que ele e mais três irmãos estão fora do sistema de ensino, alegando falta de recursos financeiros por parte da sua mãe. Disse que a mãe é camponesa e nem sempre tem dinheiro para o sustento da casa, pois foram abandonados pelo pai, que tem duas esposas.
Por sua vez, Joãozinho, um rapaz franzino, meio tímido, com calções sujos e descalço, disse que tem oito anos e que estava a pedinchar porque perdeu os chinelos e a sua mãe prometeu castiga-lo caso não os encontre. "Estou a pedir dinheiro para comprar um par novo."
Muitas crianças que deambulam pelas ruas de Ndalatando foram abandonadas pelas suas famílias, por falta de condições mínimas para os sustentar. Outras têm os pais inclinados no álcool, o que faz com que passem maior tempo nas ruas mendigando para sobreviverem.
De acordo com dados do departamento da Família e Igualdade do Género, desde 2018 até o mês de Fevereiro deste ano, foram registados 1.338 casos de abandono de lar, dos quais 175 de progenitores pertencentes aos órgãos de segurança, Polícia Nacional e Forças Armadas Angolanas.
O chefe de departamento da Família e Igualdade do Género, Eliseu Ângelo Bento, confirmou haver muitos casos de denúncia de agentes da Polícia que não cumprem com os seus deveres em relação aos filhos.
Acrescentou que os casos de fuga à paternidade envolvendo agentes da Polícia e não só estão a ser estudados, para se encontrar as melhores formas de actuação para disciplinar os infractores.
Para reduzir o crescente número de casos de violência doméstica, acrescentou, o departamento da Família e Igualdade do Género tem estado a realizar periodicamente palestras e aconselhamento nas unidades policiais e militares e não só, com temas sobre regras de boa conduta e deveres de um pai.
Segundo o Serviço Provincial do Instituto Nacional da Criança (Inac), no ano passado foram registados 629 casos de falta de prestação de alimentos e 58 de fuga à paternidade.
A directora do Inac no Cuanza-Norte, Angélica André Cudiongina, informou que, no domínio da assistência social, 80 crianças abandonadas pelos pais foram acolhidas pelos centros privados. A maternidade local, acrescentou, atendeu no ano passado 17.331 casos de adolescentes grávidas.

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