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O drama dos estrangeiros presos longe dos seus países de origem

Manuel Fontoura | Ndalatando

A reportagem do Jornal de Angola visitou as cadeias em Ndalatando e conversou com reclusos sobre a sua situação. Entre os condenados encontrámos dois cidadãos da República Democrática do Congo.

Os reclusos têm um campo de futebol e aprendem cursos profissionais de serralharia, corte e costura, pedreiro e alfabetização
Fotografia: Nilo Mateus

A reportagem do Jornal de Angola visitou as cadeias em Ndalatando e conversou com reclusos sobre a sua situação. Entre os condenados encontrámos dois cidadãos da República Democrática do Congo.

O dia 20 de Março é consagrado aos Serviços Prisionais.
Para assinalar a data decidimos contar a história destes reclusos estrangeiros, condenados a pesadas penas que os vão deixar durante muito tempo longe do seu país e das suas famílias.

 Presos no estrangeiro

Jean Pierre Kindudi, barbeiro de profissão e diminuído físico, foi condenado a oito anos prisão. De 38 anos, natural da RDC, conta que foi acusado pela esposa, de nacionalidade angolana, de ter violado a sua irmã de 14 anos. Explica que desde que chegou a Angola em 2007, sempre se dedicou ao trabalho na província do Zaire, onde residia com a esposa.
Revelou que a esposa inventou tudo para poder ficar com todas as coisas adquiridas enquanto estavam juntos. Jean Pierre Kindudi disse que sempre esteve legal em Angola, mas desde que foi preso, nunca mais teve contacto com a sua documentação.
Luindula Charles, de 33 anos, está preso desde 2006 e foi condenado a 20 anos de cadeia por homicídio voluntário, praticado igualmente na província do Zaire.
Carpinteiro de profissão, Luindula Charles conta que matou uma mulher numa briga no bairro onde residiam. Sem contar detalhadamente os motivos, disse que em resultado dos golpes que desferiu na mulher, ela ficou em coma alguns dias, acabando por falecer. “Eu não queria matar a senhora. Pensei que aquela briga fosse uma coisa simples. Não sabia que ela morreria e nunca mais voltaria para a sua casa”, disse a chorar. Está muito triste, ainda assim prefere continuar a falar. Conta que no mesmo dia foi levado para uma esquadra da polícia e de lá para a cadeia.
Sente a falta dos três filhos e da esposa que não vê desde o dia da prisão. “A minha família toda está no Congo, esposa filhos, meus pais e meus irmãos”.
Os familiares nunca vieram a Angola, ficaram na RDC. Ninguém o visita. Não tem família em Angola, não tem notícias dos pais e dos irmãos e acredita que não saibam que está preso. Não tem advogado, nem sabe quando vai sair da cadeia. Sente-se sozinho e abandonado embora tenha a companhia do compatriota. “Quero escrever uma carta a pedir apoio à embaixada do meu país, mas não tenho um portador que a leve porque não recebo visitas de ninguém”, diz.
Não consegue travar as lágrimas. Só uma pergunta consegue arrancar-lhe um sorriso dos lábios: Qual é o seu sonho? Ele responde sorridente: “quando sair da cadeia, já estarei velho, mas vou continuar a trabalhar para conseguir dinheiro e voltar ao meu país. É um sonho que me dá forças para aguentar a cadeia. Se pudesse voltar atrás, nunca lutaria com alguém tão frágil como a mulher matei. Isso não me sai do pensamento”.
 
Actividades produtivas
 
Actualmente com 378 reclusos, a cadeia tem 305 condenados. Os Serviços Prisionais têm secções de reeducação penal, controlo penal, produção, logística, recursos humanos, posto médico e finanças.
Para ocupar os reclusos em actividades produtivas, a unidade prisional tem uma área extensa para actividades agrícolas, para além do campo de produção na localidade de Camuaxi, da Polícia Nacional do Kwanza-Norte.
Os reclusos têm ainda um campo de futebol e aprendem cursos profissionais de serralharia, corte e costura, pedreiro e alfabetização. Brevemente têm à disposição um curso de informática.
A segurança do Complexo Prisional de Ndalatando está a cargo do corpo da Guarda Prisional. A cadeia dispõe ainda de postos de sentinela em sistema de guaritas montadas ao longo dos seus muros.

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