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Pescadores artesanais reclamam meios para modernizar o trabalho de captura

Isidoro Natalício | Kiombe

Depois do cumprimento do serviço militar obrigatório, em 1985, Manuel dos Santos, 57 anos, fixou residência na aldeia de Kiombe, a 20 quilómetros da sede comunal de Massangano (Cambambe), província do Kwanza-Norte, para começar uma nova vida, em que a pesca interior seria a fonte de rendimento.

Depois do cumprimento do serviço militar obrigatório, em 1985, Manuel dos Santos, 57 anos, fixou residência na aldeia de Kiombe, a 20 quilómetros da sede comunal de Massangano (Cambambe), província do Kwanza-Norte, para começar uma nova vida, em que a pesca interior seria a fonte de rendimento.
Manuel dos Santos vive do rendimento de 250 a 350 cacussos que captura numa lagoa. “A centena de cacussos custa 800 kwanzas”, revela. Ele faz parte de um grupo de 23 pescadores que todos os dias trabalha na lagoa. Daniel Alberto, 30 anos, e Artur Arlindo, 17, fazem parte do grupo.
Daniel Alberto disse que os rendimentos da pesca, apesar de baixos, dão para sustentar a família, apesar da receita se dividir pelo tripulante da canoa e o pescador, além da reserva monetária para aquisição de ferramentas e pagamento do aluguer da rede e da canoa. Artur Arlindo começou aos seis anos. Com o conhecimento adquirido, revela que os instrumentos de trabalho duram três meses, devido à acção dos jacarés.
“O jacaré come o peixe que encontra na rede. Às vezes tem tendência de engolir a própria rede, assim rasga-a ou nos obriga a cortá-la onde for possível”, referiu.
Manuel dos Santos, soba e coordenador do grupo de pescadores, disse que seria preferível utilizarem canoas modernas, que permitem levar seis pescadores.
Na margem leste da lagoa, encravado em montanhas, situa-se a aldeia Kiombe 4, habitada por 45 pescadores, com respectivas famílias. A pesca dá emprego a outras pessoas, que se ocupam da salga e da conservação do peixe. Enquanto António Sebastião se encarrega da pesca, a esposa, Santa Domingos, prepara e salga o peixe. “Em condições normais, a seca do cacusso escalado demora um dia e do picado três”, explicou. Cem peixes escalados custam mil kwanzas. A mesma quantidade de picado e de fumado custa 900 e 1.200 kwanzas, respectivamente.
O bagre é outra variedade existente no Kiombe e com aceitação na gastronomia angolana. Segundo Daniel Alberto, a captura é reduzida, porque anda quase isolado, ao contrário do cacusso que se junta em cardumes. A principal forma de conservação desta variedade é produzida por lume.
O soba Manuel António disse que a melhoria da captura depende também do cumprimento rigoroso de rituais. “Em Maio realiza-se um pequeno banquete numa ilha em que parte da comida e bebida deixa-se no leito e o Kitome, o mais velho indicado para o efeito, roga às sereias para melhorar o rendimento da pesca”, disse o soba.
Manuel António disse que na ilha há um ritual de dança tradicional, que prossegue na aldeia por três horas, com comes e bebes. A cerimónia também marca a abertura da época piscatória, depois do interregno que se regista entre Janeiro e Abril.
Um técnico do Departamento Provincial de Pesca disse que a interrupção é necessária para permitir a reprodução dos cardumes e manifestou preocupação pelo uso de redes com malhas que capturam peixe miúdo. “A ganância pela quantidade torna rara a captura de espécies como a choupa”, acrescentou. 
Os pescadores querem melhorar a actividade e por isso reclamam apoios materiais em termos de segurança na navegação, captura e conservação. 
O soba de Kiombe 4, Manuel António, quer boas redes, bóias, chumbo e coletes, sobretudo para as crianças, que na época escolar atravessam diariamente a lagoa para estudar.
Os produtos da lagoa chegam ao Dondo, a cidade mais próxima, por intermédio de motociclistas, ao triplo do preço de origem.
Na época chuvosa, a circulação rodoviária fica complicada nos cerca de três quilómetros de picada entre Kiombe 4 e a estrada principal, devido aos buracos, charcos e solos movediços.
As dificuldades de circulação afectam a actividade piscatória em outras lagoas do Kwanza-Norte, com realce para a do Ngolome, a maior do município de Cambambe, com 15 quilómetros de comprimento e 10 de largura.
Seiscentos pescadores estão registados nos serviços do Governo provincial do Kwanza-Norte.

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