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População reforça acções de combate à malária

Manuel Fontoura | Ndalatando

O projecto “Fazer recuar o paludismo”, financiado pelo Programa Nacional de Controlo da Malária, gerido pela PSI e ADPP, e incrementado pela organização Consaude e pelo Governo Provincial do Cuanza Norte está a atingir os objectivos pretendidos.

Técnicos da Saúde aconselham a população a usar o mosquiteiro e a procurar os hospitais logo após os primeiros sintomas da doença
Fotografia: José Soares

A estratégia visa a aplicação de biolarvicidas nos charcos e em pântanos e queima de pneus velhos, um trabalho levado a cabo por uma equipa de técnicos angolanos e cubanos, com o objectivo de melhorar o saneamento básico e a drenagem das valas em todos os municípios.
Várias outras acções de acompanhamento, como o uso correcto de mosquiteiros, sensibilização e mobilização da população para a mudança de comportamento e práticas estão a ser desenvolvidas pelo Gabinete de Promoção da Saúde.
O projecto contempla ainda a componente de formação, o que beneficiou, durante o ano passado, cerca de 189 técnicos em vários municípios e comunas da província, em matérias como a nova política de diagnóstico e tratamento da doença, supervisão, monitorização, avaliação e formação (no serviço), com apoio do Governo Provincial do Cuanza Norte e financiamentos da PSD e World Vision.
Filomena Antunes, de 28 anos, vive com o marido, duas filhas e mais dois irmãos, no bairro Posse, arredores de Ndalatando, onde há uns meses se registavam muitos casos de malária. Desde que passou a usar mosquiteiros tratados com insecticida e a pôr redes nas janelas de casa, as queixas em relação aos efeitos do paludismo diminuíram significativamente entre os membros da família.
Há alguns anos, recorda, era quase impossível ficar pelo menos 15 dias sem que alguém apresentasse sinais ou sintomas de paludismo em sua casa. Uma realidade que passou a fazer parte do passado, desde que as crianças e os adultos da família passaram a adoptar medidas de prevenção contra a doença. Além dos mosquiteiros, diz que têm estado a ler as cartilhas que abordam assuntos sobre a malária e cumprem rigorosamente as medidas de segurança, muitas delas transmitidas pelos técnicos de saúde.
Ultimamente, tem verificado que os mesmos procedimentos que usam em casa são adoptados também pelos vizinhos, o que tem contribuído para a diminuição de casos na comunidade.
Filomena Antunes realça que as viaturas, que fazem fumigação nos bairros e no centro da cidade de Ndalatando, têm igualmente ajudado a diminuir os níveis de propagação do vector da doença.
O funcionário público João Marcolino, morador do mesmo bairro, também reconheceu que, apesar de a doença ainda ser uma das principais enfermidades registadas na zona, os casos diminuíram em grande escala. Na sua opinião, isso é fruto, em parte, das pessoas estarem a acatar cada vez mais os conselhos dos técnicos sanitários e a acorrer aos hospitais para tratar a doença de forma atempada.
Antigamente, salienta, as pessoas tinham poucas informações sobre os cuidados a ter com a doença. Há uns cinco anos João Marcolino perdeu a mãe, devido à ignorância dos familiares que, em vez de a terem levado ao hospital, recorreram primeiro ao tratamento caseiro, o que lhe foi fatal. Para ele, foi uma grande lição de vida. Agora, garante que nunca mais vai cumprir, em caso de doença, os rituais da família, que obrigam que “nenhum sobrinho possa contrariar a posição dos tios ou dos mais velhos em qualquer que seja a situação”.
Por isso, aconselhou as pessoas uma mudança imediata de comportamento em relação à malária, pois as formas mais viáveis de combater a doença é recorrer à prevenção e ao tratamento imediato, para ajudar as autoridades sanitárias a desenvolver o projecto “Fazer recuar o paludismo”.

Situação actual

O supervisor provincial do programa de combate à malária, Gonçalo João Tandala, adiantou que os municípios de Cazengo, Cambambe, Lucala, Golungo Alto, Lucala e Ambaca são as áreas mais preocupantes por serem hiper-endémicas, seguidas de Ngonguembo, Banga, Quiculungo e Samba Caju.
Esta questão, explica a médica Evalina Zangui, é resultado da situação ecológica, que permite o aumento da população de mosquitos e, com a probabilidade de procriação do agente transmissor da doença, toda a população corre o risco de ser infectada com paludismo.
O supervisor provincial da malária, Gonçalo Tandala, refere que os fabricantes de adobes em alguns bairros da periferia da cidade, assim como os exploradores de inertes em distintos lugares da província, também são grandes promotores de criadores temporários de mosquitos, facilitando a procriação do agente transmissor, particularmente na época chuvosa.
O Rio Muembeji, explicou o técnico, também é tido como um dos principais focos transmissores de várias doenças, com relevância para a malária, uma vez que corta o centro da cidade de Ndalatando ao meio. No passado era tido como um dos postais ilustrados daquela parcela do país, um cenário actualmente diferente, porque o lixo estreitou o seu canal e impossibilitou o curso normal das águas.

Medidas de prevenção

Para a prevenção da doença, realizou-se, durante o ano passado, uma campanha de distribuição massiva de 186.700 mosquiteiros tratados com insecticida de longa duração, um número que superior aos dos anos anteriores.
A médica Evalina Zangui refere que, com estas medidas, notam-se agora avanços significativos na redução de casos de malária e de óbitos, sobretudo as mortes maternas e infantis a nível da província.
Apesar dos avanços, a malária continua a ser a principal causa de morte. Em 2013, foram notificados 77.438 casos confirmados laboratorialmente, com 184 óbitos institucionais, enquanto em 2012 morreram cerca de 214 pessoas dos 64.­985 casos registados.
O reduzido número de casos de malária, assim como de óbitos, obrigam a acções integradas, desde a prevenção até ao manuseio de casos. Por isso, o coordenador disse que, este ano, o programa de malária na província vai alargar os serviços de controlo e combate à endemia.
O projecto do Fundo Global permitiu igualmente a expansão do uso do coartem para o tratamento simples da malária nas unidades sanitárias, que resultou positivamente no manejo de casos.
Dada a alta eficácia terapêutica, o coartem contribui, em grande medida, para a redução das complicações e a consequente diminuição de casos graves nos hospitais. Outros fármacos, como o ASAQ, artemeter, artesumato e quinino são igualmente usados para o tratamento grave da malária.

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