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Produtores esperam colher 600 toneladas de café robusta

Isidoro Natalício | Ndalatando

Produtores de café robusta no Cuanza-Norte esperam colher 600 toneladas, menos 200 em relação ao ano passado, colocando a província no terceiro lugar no contex-to nacional, superada pelo Cuanza-Sul e Uíge, com 3.500 e 1.600 toneladas.

A idade dos cafeicultores, a maioria acima dos 65 anos, começa a tornar-se um obstáculo à prática da cafeicultura
Fotografia: Nilo Mateus| Edições Novembro

A colheita do corrente ano, aberta ontem na fazenda Paiva Castro, em Cacanga, Golungo Alto, acontece num momento de cepticismo, a julgar pela recusa dos comerciantes em comprar o café ao produtor no valor de 200 kwanzas o quilo.
“Recusamos porque não temos capacidade para comprar a 200 kwanzas, mas sim a 120”, disse o representante da empresa Mafecom, Félix Nunda.
Por falta de entendimento em torno dos preços, alguns cafeicultores preferem manter o produto em armazém, a exemplo de Maurício Pedro, que cultiva na região do Bumba, Golungo Alto. “As 2.500 toneladas do ano transacto continuam à espera de comercialização e este ano prevejo produzir mais 3.000 toneladas”, disse.
Além da redução da produção, a retracção na comercialização do bago vermelho reduziu de 719 para 600 o número de produtores, no dizer do chefe do Departamento do Cuanza-Norte do Instituto Nacional do Café, Costa Neto.
Os problemas na produção de café são uma constante desde 1974, quando os portugueses abandonaram as fazendas que foram nacionalizadas, o que resultou na criação de 33 empresas estatais, que tinham como principal função a gestão das plantações.
As empresas territoriais de café então criadas tiveram debilidades de gestão, por inexperiência do pessoal e insuficiência de matéria-prima. A crise produtiva atingiu o clímax entre 1985 e 2002, devido à guerra civil que provocou um novo abandono das fazendas, ausência de capina e outros procedimentos agrotécnicos, destruição e avaria dos sistemas de descasque, máquinas agrícolas, bem como das infra-estruturas de apoio, como hos-
pitais, lojas, sistemas de água e estradas.
Com produção residual e valor comercial nulo, vastas extensões de café começam a ser substituídas por culturas de subsistência, como a banana e a mandioca. “ Era a luta pela sobrevivência, devido á perda de valor comercial do café”, disse Cândida José, uma camponesa de 74 anos.
A idade dos cafeicultores, a maioria acima dos 65 anos, começa a  tornar-se   um obstáculo à prática da cafeicultura. Por isso, numa mensa-
gem lida na cerimónia solene de abertura da campanha de colheita, Maurício Pedro pe-diu ao Governo para adoptar medidas que incentivam a juventude a envolver-se na produção de café.
As cifra actuais de produção no Cuanza-Norte e no país em geral são baixíssimas, se comparadas com as da década de setenta, quando Angola tinha 525 mil hectares plantados, rendimento de 400 quilos por hectare e uma produção de 220 mil toneladas, convertendo-se no maior produtor de África e o terceiro do mundo, só superado pelas Repúblicas do Brasil e Colômbia.
O café robusta tinha em 1973 uma área global de 496.300 hectares, com rendimento de 407 quilos por hectare, hoje reduzidos a cin-co por cento, estando abandonados noventa e cinco de área de cultivo.

Relançamento da produção

O relançamento da produção tarda a chegar, mas algumas iniciativas acontecem nas regiões tradicionais de cultivo de café robusta, como  Bengo, Cabinda, Cuanza-Norte, Cuanza-Sul e  Uíge.
Por exemplo no Cuanza-Norte, os cafeicultores Paiva Castro e Maurício Pedro estão a substituir o cafezal velho com a produção em média de duas mil mudas por ano no último quinquénio. Maurício Pedro disse que 65 hectares, nos seus 100 em produção, já são cafeeiros com dois anos de idade.
O governador do Cuanza-Norte, José Maria dos Santos, anunciou que o Governo Provincial, em colaboração com o Ministério da Agricultura, levará a cabo um programa na região, que visa a promoção do cultivo de café, tradu-zido em apoios práticos.
Segundo o governador, está em projecção a produção de 500.000 mudas de cacau, café e palmar.
Na Gabela, Cuanza-Sul, há o projecto-piloto “Reabilitação das plantações de café abandonadas em pequenas unidades de produção familiar em Angola”, no valor de oito milhões e meio de dólares, financiados pelo Governo de Angola e a Common Fund for Comodities (CFC) da Holanda. Atribuíram-se parcelas de dois a cinco hectares a quatro mil agricultores, que receberam crédito bancário (dos quais 50 por cento não reembolsou). Mais de dois mil produtores, extensionistas e cientistas foram forma-dos em vários aspectos da produção de café, processamento e marketing, espelha um relatório da multinacional Nestlé.
“Foi adquirido equipamento, incluindo kits de prova de café, de amostra de terra, tractores e outros veículos. O projecto-piloto terminou em 2013 e o alcance foi muito limitado, relativamente ao resto das áreas de cultivo, e não foi ampliado para um programa maior de desenvolvimento do café.”, lê-se no documento.
Em relação ao café arábica cultivado no Huambo, Bié, Huíla e em Cassongue  (Cuan-za-Sul) salienta-se a entrega recente de 300 mil mudas, que podem atingir 150 hectares. Os maiores entraves centram-se na existência de solos ácidos e ausência de fertilizantes.

Previsões para a colheita
As previsões para a presente campanha de colheitas no país cifram-se em 5.840 toneladas, sendo 5.680 toneladas de robusta repartidas pelas províncias do Uíge, Cabinda, Cuanza-Norte, Bengo e Cuan-za-Sul e 160 toneladas de arábica no Bié e Huambo.
A província do Cuanza-Sul pode ter novamente a maior colheita (3.510 toneladas) e na base de um preço médio de 300 kwanzas por quilo esperaram-se receitas globais no valor de um bilião 752 milhões de kwanzas.
O rendimento médio por hectare fixado para as famílias camponesas da região é 280 quilos.
 “O ideal seria uma tonelada por hectare”, no dizer do agrónomo Pedro João.
O relatório de balanço do Instituto Nacional do Café (IINCA) referente à campanha passada o país arrecadou um milhão 289 mil e 909 dólares, resultante da exportação de 714.300 quilos.
Especialistas estimam que o país necessitou de 985 to-neladas e meia para o consumo interno. A Organização Internacional do Café (OIC) revela que em África só um por cento da população consome café.

  Industrialização está aquém do desejado

Além de bebida, o café tem utilização no fabrico de medicamentos, refrigerantes, creme, chocolates e rebuçados. Presentemente Angola só produz café moído e em grão, através das empresas Artesanal, Angonabeiro e Cafangol (Luanda), Socafé (Uíge), JMV (Cuanza-Sul) e Café Cazengo (Quiculungo, Cuanza-Norte).
Estudos feitos por técnicos do Instituto Nacional do Café apontam o café moído feito na Gabela (Cuanza-Sul), pela empresa Artesanal, como o mais acessível, ao custar 700 mil kwanzas a tonelada.
A tonelada do café em grão custa no mínimo um milhão e 64 mil (Ginga, da Angonabeiro) e no máximo quatro milhões 680 mil (café Cazengo). Na cadeia de produção do bago vermelho o produtor é o elo mais fraco, porque vende o quilo de café mabuba a 360 kwanzas segundo o IINCA.
O café financiou maioritariamente a construção de cidades como Luanda, Uíge, Ndalatando e Waco-Cungo (Cuanza-Sul). É uma variante para gerar receitas, empregos, assentar pessoas no campo e diversificar a economia, por via do relançamento da produção e industrialização.

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