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Saber ler torna as pessoas diferentes

Kátia Ramos | Ndalatando

O Programa de Alfabetização e Aceleração Escolar (PAEE) já alfabetizou 35.632 pessoas na província do Kwanza-Norte, revelou, em Ndalatando, o chefe de Departamento Provincial da Educação, Velhinho de Barros.

O desejo de aprender a ler e escrever está a ser realizado por milhares de pessoas principalmente mulheres de várias idades
Fotografia: Jornal de Angola

 

O Programa de Alfabetização e Aceleração Escolar (PAEE) já alfabetizou 35.632 pessoas na província do Kwanza-Norte, revelou, em Ndalatando, o chefe de Departamento Provincial da Educação, Velhinho de Barros.
Falando durante a cerimónia de outorga de diplomas a 23 mulheres, das 90 inseridas em Março passado no projecto de alfabetização ministrado pelas escolas “Dom Bosco e São José ”, Velhinho de Barros explicou que do total de alfabetizados, 24.866 são mulheres.
Falando em representação do director provincial da Educação do Kwanza-Norte, referiu ainda que a educação, enquanto direito humano fundamental, é a chave para um desenvolvimento sustentável da paz e da estabilidade social. “Onde não há educação não há estabilidade e onde não há esta, falta desenvolvimento sustentável”, frisou, referindo que, em 2007, a província começou a implementar o programa de alfabetização e aceleração escolar (PAEE). Aprovado pelo Conselho de Ministros, o programa tem por objectivo a recuperação escolar das pessoas que, no tempo próprio, não conseguiram um nível de escolaridade aceitável, por várias razões.
“Não se pode falar de desenvolvimento comunitário sem educação. Falando da alfabetização, permito-me afirmar que ela tem de ir além do simplesmente ensinar a ler, escrever e fazer contas”, disse, acrescentando que a educação tem de estar ligada a todos os aspectos da vida, devendo ser um processo integrado, identificando as necessidade para vincular os seu programas aos conteúdos estabelecidos pelos alfabetizandos nas comunidades.
“A tarefa de educar não é apenas uma tarefa do Estado, mas de todos nós”, sublinhou Velhinho de Barros, frisando que o desenvolvimento traz liberdade, desde que seja para o bem do povo. “O povo, para ser desenvolvido, tem de se desenvolver a si mesmo. É possível que o Estado possa construir casas, mas nenhum Estado poderá dar-nos a auto estima e confiança por sermos humanos”, considerou.
Ganhar o respeito

Margarida Paulo, 42 anos de idade, a frequentar a sexta classe, disse que hoje se sente uma pessoa diferente por saber ler e escrever. “Agora leio todos os cartazes publicitários que encontro na rua” explica, acrescentando: “Hoje sou uma pessoa diferente e mais respeitada no bairro”.
Tal como Margarida, também Francisca André, de 54 anos e mãe de oito filhos, se sente feliz por ter terminado o segundo módulo de alfabetização, em apenas seis meses. “Sinto-me orgulhosa, pois o desejo de aprender a ler e escrever está a ser realizado. Hoje sento-me à mesa com os meus netos e ajudo-os a fazer os deveres da escola e acabo aprendendo mais com eles”, revelou.
Vendedora ambulante no mercado do Catome há mais de cinco anos, Francisca conta que a delegação da alfabetização a encontrou em plena actividade e então recebeu o convite para aprender a ler e escrever. “Eu tinha vontade, mais nunca pude imaginar, com a idade que tenho, ir a uma escola. Valeu a pena. Era só uma hora de ensino, das seis às sete da manhã, mas neste curto tempo aprendemos muito, dado o carinho, vontade e paciência que os professores têm por nós.” Serafina da Conceição, de 32, e Cristina Gaspar, de 38, frequentam o segundo ano da iniciação. Hoje inseridas no programa “Sim eu posso”, carregam consigo uma enorme vontade de aprender. Começam por elogiar os professores, que têm demonstrado muita paciência e cuidado com os alunos que têm problemas audiovisuais e não só. “Os professores tratam-nos muito bem, são como pais para nós” diz Serafina.
Domingas Fortunato, de 48 anos, vai mais longe e dirige um convite a todas as mulheres da província, especialmente as das zonas rurais, para aderirem ao estudo, sem no entanto esquecerem as suas obrigações, como mães, esposas e responsáveis de um lar.
Com ela estão igualmente outras vizinhas do bairro, a estudarem na mesma escola, e são unânimes em afirmar que actualmente são pessoas diferentes, novas mulheres, apesar da idade, e são mais respeitadas do que antes.
A escola de alfabetização Dom Bosco tem vindo a mudar a vida de muitas cidadãs, porque são elas que se inscrevem e se obstinam em aprender, mesmo sendo a sua vida mais atarefada do que as dos homens.
São elas que vão dando passos longos para ajudar na mudança de mentalidade e do país, em especial na província do Kwanza-Norte, graças à sua adesão às acções formativas pedagógicas de alfabetização, do método de ensino primário e secundário do sistema vigente para os alfabetizandos.

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