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Um ganha-pão entre brigas e empurrões

André Brandão | Ndalatando

Um grande número de jovens desempregados em Ndalatando, e um pouco por todo o Kwanza-Norte, ganham a vida a lotar as viaturas de passageiros que fazem o percurso Ndalatando/Luanda/ Dondo/Malange, e para os restantes municípios da província.

Um grande número de jovens desempregados em Ndalatando, e um pouco por todo o Kwanza-Norte, ganham a vida a lotar as viaturas de passageiros que fazem o percurso Ndalatando/Luanda/ Dondo/Malange, e para os restantes municípios da província. Um lotador ou chamador é o indivíduo que nas paragens de autocarro e de táxi ajudam a encher as viaturas de passageiros, chamando as pessoas para esta ou aquela viatura, utilizando muitas vezes técnicas de elaborado marketing, alegando que este carro é mais seguro e que o outro é perigoso, criando no passageiro razões para escolher um e não outro.
Para os chamadores, o importante é lotar o mais rápido possível o carro, algo que lhe vai dar uma compensação financeira, que pode variar entre os mil e os 2.500 kwanzas, dependendo do destino.
A nossa reportagem deslocou-se até ao ponto de embarque de passageiros para as diferentes localidades e constatou no local como os lotadores trabalham diariamente para levar alguns trocados para casa. 
Eram cerca de seis horas da manhã quando chegámos ao local, um pouco tarde segundo um passageiro, porque o movimento ali começa muito mais cedo, por volta das quatro da madrugada, altura em que muitas Toyotas Hyaces já tinham partido para Luanda. Ainda assim, foi possível “flagrar” alguns lotadores em plena actividade. 
Eram vozes ensurdecedoras chamando para Luanda, Dondo, Cacuso (Malange) e para os demais municípios da província, deixando perceber que não é fácil o trabalho destes jovens. Para conseguir um passageiro, muitas vezes só com brigas e troca de insultos. Muitos disseram à nossa reportagem que o seu trabalho, apesar de ser cansativo, devido à hora a que se levantam todas as manhãs, é como qualquer outro, que dá para ir levando a vida, embora o stress faça parte do seu dia-a-dia. O Jornal de Angola constatou que muitos lotadores, além desse trabalho, são estudantes que esperam no futuro melhores oportunidades de emprego.

Discriminação

Interpelados pela equipa do Jornal de Angola, todos foram unânimes em manifestar o seu desagrado pela discriminação que sofrem, devido ao facto de muitos cidadãos serem incapazes de compreender que as diferenças sociais não deviam servir para maltratar as pessoas. “Nem todos nós temos as mesmas oportunidades, por isso este trabalho é o que temos e tem servido para pagar os nossos estudos e ajudar a família em casa”, disse Gaspar Manuel.
Embora tenha reconhecido alguns excessos por parte dos lotadores, Gaspar Manuel disse que têm uma função social útil. “Somos nós que ajudamos a lotar o carro e a chamar a atenção do viajante para o destino de uma viatura, ajudá-lo a transportar a bagagem, orientar os motoristas no parque de lotação e organizar os viajantes nos seus devidos lugares, para que não haja desordem à hora da partida”, disse.  
Gaspar Manuel, de 20 anos, conta que é lotador, ou chamador, há mais de três anos, e explica que com aquilo que ganha sustenta a família, composta por dois filhos e esposa, e os seus estudos. Gasparito, como é conhecido entre os seus pares, acorda geralmente às quatro horas da manhã para “ajudar os passageiros a viajar bem”.
“Antes chamava os passageiros para qualquer carro que aparecesse, mas hoje estou associado a uma empresa privada de transportes públicos com sede em Ndalatando, o que me permite ter um salário mensal capaz de sustentar a família e os meus compromissos adicionais”, disse.

Associação na forja

Apesar de gostar do seu trabalho, Gaspar continua a exercer essa actividade porque não há outro melhor e fixo. Anunciou o desejo de convidar os seus colegas para constituir uma associação de lotadores no Kwanza-Norte, para uma maior e melhor organização, que permita saber quantos são e poderem ser reconhecidos pelas instituições oficiais do Estado. Pediu também que haja uma interpretação honesta sobre o exercício desta tarefa, sem quaisquer preconceitos ou estigma.
O seu colega Isaac Luís Bundi, de 25 anos, disse que exerce esta actividade há quatro anos. Acha que é uma profissão igual às outras e não se pode daí tirar a ideia preconceituosa de que é um trabalho praticado por bandidos e drogados. “Somos maltratados e discriminados por várias pessoas como se fossemos seres inúteis. A sociedade deve olhar-nos como seres humanas, com as mesmas necessidades de sobrevivência de muitas outras”, desabafou, num modo de falar que denunciou alguns estudos.
Também corrobora a ideia do seu colega Gasparito sobre a criação de uma associação de lotadores para melhor defenderem os seus direitos e estabelecer vínculos laborais oficiais com as demais instituições do Estado. Uma associação, segundo Issac Bundi, ajuda a melhorar a organização e a controlar o número de pessoas que exercem este tipo de trabalho.
Na mesma senda está Domingos André, de 26 anos e há cinco como lotador. Explicou que só faz este trabalho porque não encontrou outro emprego melhor. Ganha cerca de quatro mil kwanzas por dia e com esse dinheiro sustenta a família e os estudos, “para poder ser alguém amanhã”.
“Muitas vezes somos confundidos com bandidos ou gatunos, mas na verdade somos pessoas trabalhadoras que ao ajudar a lotar uma viatura conseguimos o nosso ganha-pão. Às vezes, por causa de um passageiro, chegamos a brigar entre nós, mas depois tudo passa e a vida continua, porque a vida que levamos obriga-nos a ser fortes, pois caso contrário não se consegue encher um carro e voltamos para casa de mãos a abanar”, disse Domingos André. De acordo com o taxista José de Almeida, a relação entre motoristas de táxi e lotadores é de grande cumplicidade. Existe uma simbiose que garante confiança mútua. Conta que nunca teve problemas de reclamações relativamente ao comportamento de um lotador, aos quais deseja sucessos na empreitada da criação de uma associação para defesa dos seus direitos laborais.
A passageira Conceição Martins de Andrade garantiu que já foi ajudada muitas vezes por lotadores no transporte da bagagem e uma vez durante um assalto, deixando a mensagem que em todas as profissões há pessoas honestas e desonestas. “Muitos de nós ficamos com certa desconfiança desses homens e geralmente tratamo-los mal. O que devemos fazer é dar mais apoio e atenção a esses nossos compatriotas que levam a sua vida de forma honesta, e com o seu trabalho evitam enveredar pelo crime”, rematou.

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