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Arte dos alfaiates está em extinção

Manuel Tomás| Sumbe

A profissão de alfaiate sempre foi exercida por mestres idóneos que executavam obras com perfeição porque o mercado dispunha de material apropriado como máquinas de costura, agulhas, tesouras linhas de qualidade, botões.

O maior mercado informal do Sumbe é um dos últimos grandes redutos dos profissionais da alfaiataria e da sapataria
Fotografia: Manuel Tomás|Sumbe

 
 A profissão de alfaiate sempre foi exercida por mestres idóneos que executavam obras com perfeição porque o mercado dispunha de material apropriado como máquinas de costura, agulhas, tesouras linhas de qualidade, botões. Os clientes procuravam o mestre ideal para a confecção de uma peça de vestuário que prendia a atenção por ser bonita e bem confeccionada.
 Os alfaiates eram profissionais respeitados no meio onde residiam. Muitos criavam alfaiatarias onde os clientes afluíam para estarem vestidos sempre segundo o último grito da moda.
 No populoso bairro do Chingo, arredores da cidade do Sumbe, está localizado o principal mercado informal, conhecido por “mercado da feira” onde se vende tudo e há muitas barracas especializadas na venda de roupa usada. Os clientes aproveitam para comprar a preços baixos peças de roupa que se fossem compradas a um alfaiate eram muito mais caras. 
 
Profissão de alfaiate está a perder o valor

Manuel Eduardo Panguila, de 67 anos disse ao Jornal de Angola que exerce a profissão de alfaiate desde 1961 e é considerado no Sumbe o alfaiate mais antigo. A sua casa noutros tempos registou muita afluência de clientes devido à perfeição das obras que executa. O mestre não tinha mãos a medir e muitos clientes ficam pacientemente à espera da sua vez porque queriam uma peça de roupa confeccionada com cuidado e gosto.
 O mestre Panguila disse que no passado granjeou respeito junto da sociedade e tinha entre os seus clientes entidades públicas, funcionários, famílias inteiras. No tempo das calças “ boca-de-sino” centenas de jovens procuravam a sua alfaiataria porque em Angola ninguém confeccionava aquele modelo como ele. Na época das calças “cintura baixa” a juventude do Sumbe desfilou pela sua loja para lhe encomendar peças bem recortadas e bem confeccionadas.
No tempo colonial, cada comerciante tinha um alfaiate que confeccionava calças, camisas, quimonos e outras peças com o tecido adquirido na loja. Mas nos tempos que correm isso acabou. Os balões de roupa usada, outrora chamados “fardos”, invadiram o mercado e os mestres alfaiates ficaram sem trabalho.
Mestre Panguila assegurou que actualmente ser alfaiate é difícil, porque o que se ganha mal chega para a alimentação da família, visto que a maioria da população prefere usar peças pronto-a-vestir e roupa de fardo.
A alternativa é arranjar roupa. “Às vezes vem um cliente que me encomenda um fato para homem ou senhora. Por cada fato cobro dez mil kwanzas.
 
Batas e aventais

Emília Manico, portadora de deficiência física em serviço no centro da terceira idade do Sumbe, exerce desde 1978 a profissão de modista e antigamente fazia batas para os utentes do centro infantil, trabalhadores de diferentes instituições, toalhas, cortinas, aventais e outros trabalhos.
 Alfaiates e modistas do Sumbe trabalham bem, são mesmo mestres, artistas de verdade, mas estão em vias de extinção porque têm poucos clientes. O pouco que ganham vem de pequenos arranjos e raramente aparece alguém a encomendar um fato, um vestido ou uma camisa de corte à italiana. As confecções industriais mataram o estilo exclusivo das modistas e dos alfaiates.
“Todos os dias são injectados no mercado mais balões de roupa usada. O fardo está mesmo a matar a nossa profissão. Hoje já é uma arte pouco rentável porque os clientes preferem adquirir roupa pronto-a-vestir e de fardo”, disse Emília Manico.
 Amélia Cassova, uma das clientes assíduas do “mercado da feira” disse que prefere comprar roupa de fardo porque as peças das boutiques são muito caras e nem sequer têm mais qualidade.
 Na ronda efectuada pelos os alfaiates e costureiras do Sumbe, todos apontam como principais dificuldades a falta de máquinas de costura, linhas de qualidade e agulhas. Sem bons materiais é impossível fazer uma obra perfeita de alfaiataria. 
 
Sapateiros sem obras
 
À semelhança dos alfaiates e modistas, os profissionais de sapataria que se encontram nos mercados locais registam falta de clientes por causa das grandes quantidades de sapatos no mercado nacional. Hoje é possível encontrar em qualquer mercado um par de sapatos a preços mais baixos do que custa um remendo ou umas solas num par de sapatos usados.
 Paulino Joaquim, desmobilizado, portador de deficiência física, disse que optou pela arte de sapateiro para não permanecer em casa “sem fazer nada”. 
O seu dia-a-dia no mercado onde partilha a barraca com outros três companheiros, também desmobilizados, resume-se a pequenos arranjos do calçado dos clientes. Fazer sapatos à mão é a sua arte, mas Paulino Joaquim diz que “no mercado falta sola, cabedal, tacões, linhas e protectores, por essa razão tem registado poucos pedidos para confeccionar calçado à mão.
“Só fazemos pequenos arranjos no calçado, por isso os nossos rendimentos são muito baixos”, afirma Paulino Joaquim. Mas ficou satisfeito quando a Direcção Provincial de Assistência e Reinserção Social lhe ofereceu ferramentas e materiais para montar a sua oficina de sapateiro.

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