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Jovens gestores dirigem fazendas

Domingos dos Santos |

“Em sete anos quero ser uma empresária agrícola de sucesso”, disse à nossa reportagem Maria Joana Antunes, uma das 40 seleccionadas pelo Projecto Terra do Futuro, avaliado em nove milhões de dólares e financiado pelo Banco de Desenvolvimento de Angola (BDA), para a formação de jovens empresários capazes de gerir fazendas de 250 hectares.

Fazendas de 250 hectares vão ser distribuídas a estudantes finalistas do curso de agronomia para se tornarem grandes agricultores
Fotografia: José Soares

“Em sete anos quero ser uma empresária agrícola de sucesso”, disse à nossa reportagem Maria Joana Antunes, uma das 40 seleccionadas pelo Projecto Terra do Futuro, avaliado em nove milhões de dólares e financiado pelo Banco de Desenvolvimento de Angola (BDA), para a formação de jovens empresários capazes de gerir fazendas de 250 hectares.
Maria Antunes faz parte de um grupo de dez jovens, com idades entre os 21 e os 27 anos, estudantes do curso de agronomia nos Instituto Superior Politécnico do Kwanza-Sul e Faculdade de Ciências Agrárias do Huambo, que se juntaram no Projecto Terra do Futuro para a formação de novos empresários agrícolas, que está a ser desenvolido no município da Quibala, Kwanza-Sul.
Maria Antunes fez a sua formação média em agronomia no Huambo e está a estudar no Instituto Superior Politécnico do Kwanza-Sul. Ingressou no Terra do Futuro através da parceria existente entre a sua instituição de ensino e os gestores do projecto.
“Participei num concurso público, fui apurada e cá estou”, explicou, acrescentando que “temos seis meses de formação para aperfeiçoar mais o nosso curso, principalmente na área de gestão de empresas e de solos, para mais tarde gerirmos as nossas fazendas”.
O director-geral do Projecto Terra do Futuro, Manuel João, disse que os jovens, depois da formação, vão receber fazendas de 250 hectares na área onde foram construídas as infra-estruturas de apoio ao projecto.
“Numa primeira fase, esperamos concluir o Projecto Terra do Futuro com 40 fazendas, onde jovens formados por nós podem gerir e produzir”, explicou, acrescentando que “vamos começar com a preparação dos solos para as culturas, com a implantação das fazendas, para que os jovens empresários que forem seleccionados depois da formação, assumam as suas fazendas apoiados pela nossa consultoria durante sete anos, dando-lhes todas as aptidões necessárias para gerir a fazenda, fazerem as culturas e procederem à correcção dos solos”.
Manuel João anunciou que em Setembro deste ano os novos fazendeiros podem começar a preparar o solo e a lançar as primeiras sementes à terra, para em Janeiro de 2011 se fazer um balanço sobre a evolução do projecto em termos de culturas e divulgação dos resultados positivos e negativos.
“Durante sete anos, o Projecto Terra do Futuro garante consultoria e assistência às fazendas. Todos os fazendeiros vão fazer parte de uma cooperativa para que os produtos possam ter bom preço e uma boa qualidade no mercado”, afirmou.
O director-geral do projecto informou que as fazendas são propriedade dos futuros empresários. A devolução do empréstimo ao BDA, explicou, é feita através da produção, por isso, as fazendas vão garantir ao empresário agrícola os valores do financiamento e ainda um lucro positivo para que ele e a sua família possam viver bem.

Professores do Brasil

Duas professoras brasileiras garantem a formação dos futuros fazendeiros, que neste momento estão a receber conhecimentos sobre gestão administrativa, de solos e atitudes empresariais.
Lúcia Helena Silva, professora de gestão administrativa, graduada em administração de empresas, disse que os jovens têm, por agora, uma formação de 15 dias, com um módulo comportamental, onde se desenvolve a atitude de um jovem empresário, e depois a parte técnica, onde vai se trabalhar o planeamento, o controlo, direcção, marketing, gestão de pessoal, empreendedorismo e todos os conceitos necessários para formar um empreendedor.
Patrícia Quadros, professora do curso de gestão de solos, engenheira agrónoma e mestra em ciências do solo, considera que com a formação que os futuros empresários estão a ter, eles vão fazer muito sucesso, na medida que o curso fornece técnicas necessárias para se tornarem empresários agrícolas.
“Trago a experiência do sistema de plantio directo e também a experiência de manipulação de bactérias em fixador de nitrogénio em soja e feijão”, disse Patrícia Quadros, que é docente na Universidade do Rio Grande do Sul, Brasil.
Segundo a especialista, o solo angolano é muito parecido com o solo do serrado brasileiro, onde as condições climáticas e da terra são idênticas, sendo pouco arenoso e com alto potencial para o plantio de leguminosas, soja, milho, feijão, trigo e girassol.
“Este ciclo de formação leva seis meses. Agora, eles têm uma formação de 15 dias, durante os quais vão aprender sobre gestão de solos e administração, depois têm outros módulos para complementar essa formação”, afirmou Patrícia Quadros.

Potencial subaproveitado

O governador do Kwanza-Sul, Serafim do Prado, destacou as potencialidades agrícolas da província do Kwanza-Sul, mas que estão subaproveitadas, apelando ao surgimento de outros projectos que venham de facto explorar o potencial existente para que, num prazo curto, apareçam muitos jovens empresários em substituição da velha guarda.
“Há seis meses estivemos aqui neste local para o lançamento da primeira pedra e na altura pudemos testemunhar o que era este pequeno espaço. Volvidos seis meses, estamos aqui novamente, para inaugurar as infra-estruturas que estão a ser erguidas e proceder à abertura do ano lectivo”, disse.
Para o governador, o projecto Terra do Futuro evoluiu muito e não foi por acaso que o governo da província, em Setembro último, aprovou a sua execução, por ter visto nele algo significativo para a vida do país e dos jovens.
“Se quisermos desenvolver o nosso país, devemos apostar seriamente na agricultura”, sublinhou Serafim do Prado, para quem os acordos de cooperação assinados entre o Projecto Terra do Futuro e o Instituto Superior Politécnico do Kwanza-Sul e a Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Brasil, do ponto de vista científico vem dar um apoio muito grande em termos de objectivos e responsabilidade.
“Este projecto é muito diferente dos demais que nós temos na província, por isso prometemos seguir de perto a sua execução na esperança de ir buscar resultados satisfatórios”, disse, augurando que o projecto se estenda para outros municípios, “não com estas infra-estruturas todas, mas aproveitando estas para os estudantes terem formação e depois nas zonas de origem cuidarem das terras”.

BDA financia o projecto

Paixão Franco, presidente do Conselho de Administração do Banco de Desenvolvimento de Angola (BDA), recordou que a agricultura deve exercer um grande papel no desenvolvimento de Angola, particularmente na diminuição das importações, aumento da oferta de emprego, na fixação das pessoas no campo e no fornecimento de matérias-primas para a indústria.
“Apelamos a que façam uma boa agricultura para a produção de produtos de qualidade que possam estar em qualquer prateleira dos supermercados deste país sem ficarem a dever absolutamente nada aos produtos importados”, disse.
O Presidente do Conselho de Administração do BDA explicou que quando conheceu o projecto não teve dúvidas em apoiá-lo, tendo apenas exigido alguns acertos técnicos que foram feitos.
“Temos muitas esperanças num projecto dessa natureza por ser o primeiro do género e pensamos tirar dele muitas boas experiências”, disse Paixão Franco, acrescentando que o que se vai fazer no local é aproveitar uma zona com potencial agrícola mas que nunca foi explorada.
“Para nós isto tem um grande significado, porque permite a promoção de novos empresários agrícolas”, sublinhou.
Os futuros jovens empresários foram seleccionados segundo critérios definidos pelo e na sua maioria são estudantes finalistas de agronomia de nível médio e de nível superior.
“O Banco está a financiar uma empresa que no curto prazo tem como missão infra-estruturar uma área grande, lotear e legalizar as terras, que depois são entregues aos potenciais proprietários, que também são financiados pelo BDA a longo prazo”, explicou Paixão Franco, para quem o projecto, tal como está concebido, vai ter sucesso.
“O BDA vai acompanhar o projecto muito de perto, vamos exigir bastante para que possamos sair todos a ganhar”, disse.
O Presidente do Conselho de Administração do BDA afirmou que a instituição bancária está aberta a apoiar outras iniciativas empresariais.

Apoio aos estudantes

O Projecto Terra do Futuro é uma iniciativa importante para o sector agrícola do país, na medida em que consiste em infra-estruturar mais de cinco mil hectares e lotear fazendas de 250 hectares que vão ser distribuídas a estudantes finalistas do curso de agronomia para se tornarem no futuro grandes agricultores, disse o director-geral do Instituto de Desenvolvimento Agrário (IDA), Marcos Nhunga.
“Este projecto tem um elemento importante, que é servir de estágio para a qualificação dos técnicos que vão sair dos institutos politécnicos e faculdades agrárias do país”, disse, garantindo o apoio do Ministério da Agricultura.
Marcos Nhunga frisou que se o projecto der bons resultados, pode ser aplicado noutras zonas do país para a dinamização da agricultura e criação de empregos para a juventude.
“Aqui, o técnico que acabou agronomia encontra uma casa, condições criadas para poder avançar com a produção e vai contar com o apoio da cooperativa”, sublinhou, acrescentando que “isto é muito bom, na medida em que nem todos os estudantes têm capacidade financeira para poder construir infra-estruturas para a produção agrícola”. 

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