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Qualidade de vida pela arborização

Casimiro José | Sumbe

Um programa de arborização pioneiro, que decorreu no silêncio dos anos, mudou completamente o quadro ambiental da cidade do Sumbe, antes fustigada por erosões e desabamento de terras. A lição a tirar do sucesso da arborização do Sumbe, numa altura em que decorre a Semana Nacional do Ambiente, e que é válida para todo o país e outras facetas da vida, é que "o que é de todos deve ser discutido por todos".

As árvores
Fotografia: Jornal de Angola

Um programa de arborização pioneiro, que decorreu no silêncio dos anos, mudou completamente o quadro ambiental da cidade do Sumbe, antes fustigada por erosões e desabamento de terras. A lição a tirar do sucesso da arborização do Sumbe, numa altura em que decorre a Semana Nacional do Ambiente, e que é válida para todo o país e outras facetas da vida, é que "o que é de todos deve ser discutido por todos".
A cidade do Sumbe, bem como os seus arredores, apresenta hoje um considerável manto florestal, graças aos projectos concertados de organismos do Governo, da sociedade civil e a população em geral. O surgimento da cobertura florestal inverteu o quadro desolador, e até então habitual, das épocas chuvosas, em que ventos fortes varriam os espaços livres e destruíam residências.
Hoje, para orgulho de todos, em cada esquina da cidade do Sumbe e seus arredores divisam-se plantas nos quintais e ruas dando um aspecto verde que não só é sinal da preservação do meio ambiente, mas também gera tranquilidade na mente dos munícipes.
À semelhança de outras cidades do litoral, o Sumbe apresentava, até à década de 1980, uma vegetação em que predominavam plantas características das regiões áridas e semi-áridas, com maior incidência para cactos e matebeiras. Durante o conflito armado, que na província do Kwanza-Sul devastou sobretudo as localidades do interior, milhares de cidadãos dos municípios de Cassongue, Seles, Mussende e Conda, só para citar alguns, foram forçados a instalar-se na cidade do Sumbe, em busca de maior segurança.
Os montes que circundam a cidade, revestidos com uma vegetação de cactos, eram o destino da maioria destes migrantes. Lá construíram as suas casas, de estrutura precária, derrubando o revestimento de protecção vegetal. Sem o saberem, ficavam assim expostos à erosão provocada pelas chuvas. As consequências, ao longo dos anos, foram catastróficas. Mortes, perda de património duramente amealhado, enfim, para muitos a vida foi um constante recomeçar a partir do zero, com uma existência que não passava do mero exercício de contar os dias e sobreviver no mais raso patamar.
A situação, que começou por degradar-se do ponto de vista ambiental, descambou em epidemias, casos de infecções de pele, conjuntivites, entre outros. Mas felizmente tudo isso faz parte do passado. De um passado que, apesar de ser recente, parece, na memória das pessoas, bastante remoto.
Actualmente a cidade do Sumbe possui um manto de protecção florestal comparado ao das cidades do interior da província e de outras localidades de Angola, graças ao projecto de reflorestamento desencadeado pela direcção provincial da Agricultura em colaboração com a ONG Acção Agrária Alemã.

Os primórdios do projecto

De acordo com o então delegado provincial da agricultura, Vasco Antunes do Amaral, em 1980, um cidadão alemão de nome Voon Krosick, ao serviço da Acção Agrária Alemã, descendente de uma família do antigo colonato alemão em Caulo, município do Libolo, adquiriu, numa universidade do seu país, 18 sementes da espécie “NEEM”, de nome científico “Azadirachta indica”, que   foram plantadas no Centro de Multiplicação de Plantas do Sumbe, então tutelado pela delegação da agricultura local. Outra espécie também introduzida foi a acácia, de nome científico “Albizia”, que foi disseminada à entrada da cidade, no sentido norte, e no interior da urbe.
Após onze meses, as sementes brotaram e começaram a dar frutos, possibilitando a reprodução de mais plantas e dando lugar a um polígono florestal, com capacidade para atender as primeiras solicitações.
Vasco Antunes do Amaral, a caminho da reforma, é um quadro experiente do ramo agrário. Foi peremptório em afirmar que “é um milagre a introdução dessas plantas no Sumbe e na província em geral, porque estava remota a descoberta de uma espécie que se adaptasse rapidamente ao litoral”. O derrube de cactos nos arredores foi atenuado devido ao plantio da “NEEM” na região, mas defende que as pessoas devem ter a consciência de repor os cactos em locais não habitados, para prevenir o fenómeno erosivo do solo nas épocas chuvosas.

Papel da Acção Agrária Alemã

Em 1989, a Acção Agrária Alemã passou a distribuir alimentos aos deslocados, através do Programa Alimentar Mundial (PAM). Foi nessa altura que introduziu o projecto “Comida pelo trabalho”, com a entrega de pacotes alimentares, incluindo duas plantas por família. A iniciativa foi abraçada pelas pessoas beneficiárias e a população em geral.
O projecto definira três objectivos, sendo o primeiro proporcionar a sombra; o segundo garantir lenha; o terceiro visava efeitos medicinais, através da utilização das folhas para afugentar os insectos.
Naquela época, muitos se empenharam por causa da sombra que as árvores poderiam dar nos quintais e nas ruas. Outros faziam-no porque acima de tudo tinham consciência ambiental, sabiam que a plantação de árvores jogava um papel importante para o equilíbrio ecológico. O projecto resultou. Hoje todos beneficiam dos efeitos da arborização do Sumbe.
Armando Lopes de Almeida, que coordenou o projecto da Acção Agrária Alemã, disse à reportagem do Jornal de Angola que a sensibilização das populações desempenhou um papel importante, “porque passado pouco tempo já se viam plantas a crescer nos quintais e, na maior parte dos casos, as mesmas foram regadas até atingirem certa altura”.
A par da colaboração das populações, segundo Armando de Almeida, “o Centro de Multiplicação de Sementes desenvolveu as plantas rapidamente, o que deu lugar ao transplante de outras para formar os polígonos dos “Dois Morros”, “Hote”, “Seles” e a comuna do Gungo”.
Segundo explicou, o Kwanza-Sul foi a primeira província de Angola na qual foi ensaiada a espécie “NEEM” e só mais tarde as outras províncias começaram a beneficiar da mesma espécie. Em 1992, foi feita uma troca de experiências com a República do Quénia sobre o processo evolutivo da planta, tendo-se concluído que a mesma se desenvolve rapidamente no litoral.
Armando Lopes de Almeida não resistiu a manifestar orgulho pelo facto dos esforços empreendidos terem resultado num bem para as populações e mostrou-se disponível a abraçar qualquer acção que defenda as comunidades das catástrofes naturais. “Quando introduzimos o projecto foi apenas uma ideia, sem se pensar no impacto que teria na vida real das pessoas. Hoje sinto o dever cumprido junto das populações”, frisou.

Ganhos à vista

Actualmente, a cidade do Sumbe regista acalmia quando chove. As fortes tempestades são atenuadas pela acção das plantas, ao mesmo tempo que, embora ainda notórias em algumas artérias da cidade, as poeiras também vão sendo contidas.
Nos arredores, a confecção de alimentos com recurso à lenha deixou de constituir problema, como nos contou o cidadão Abel Futi, de 70 anos. “Quando plantámos essas árvores tivemos o trabalho de as regar todos os dias, porque aqui chove pouco. Mas agora estamos a aproveitar lenha e ao mesmo tempo sombra para os nossos filhos, netos e até para os nossos animais”, disse, com um visível sentimento de orgulho, partilhado pelos demais habitantes das zonas onde essa espécie de plantas está a oferecer comodidade e lazer.
A sede da comuna de Kicombo, situada a 15 quilómetros do Sumbe, é uma das localidades onde, no passado, os seus habitantes estavam expostos ao sol ardente. Hoje o cenário é completamente diferente, pois o reflorestamento com a espécie “NEEM” dá sombra nos quintais, ruas, mercados e ao mesmo tempo que o verde das plantas vai colorindo a paisagem da área.
Para efeitos medicinais, a “Azadirachta índica”, que é de origem indiana e birmanesa, tem folhas indicadas para o tratamento de paludismo e infecções da pele.
A sua introdução foi uma acção hoje tida, por muitos observadores ambientais e sem exageros, como a tábua de salvação da cidade do Sumbe. 
Numa altura em que, a 31 de Janeiro último, o país assinalou o Dia Nacional do Ambiente, e em que ainda decorre a Semana Nacional, vale a pena reter aqui uma lição que decorre da experiência de arborização do Sumbe: as autoridades envolvidas na acção vão contar sempre com a colaboração da população, desde que envolvam os líderes comunitários na sua concepção e implementação. Além disso, os destinatários têm de interiorizar os benefícios concretos que terão na sua vida quotidiana com a sua materialização.
O exemplo do que é hoje a cidade do Sumbe deve ser transposto para outras regiões do país. E mesmo no Sumbe, deve ser tido como referência para outras acções de interesse comum, tendo em conta a aplicação do princípio segundo o qual “o que é de todos deve ser discutido por todos".

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