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Cintura verde em Luanda:Cultura em terras arrendadas

Helma Reis |

Paulo Sérgio explora sete hectares onde planta couves, alfaces, cebolas e outros legumes, cujo lucro da venda divide com o proprietário do terreno.
“Se cultivarmos num espaço alugado, somos obrigados a partilhar com o dono do terreno.

Fotografia: Jornal de Angola

Paulo Sérgio explora sete hectares onde planta couves, alfaces, cebolas e outros legumes, cujo lucro da venda divide com o proprietário do terreno.
“Se cultivarmos num espaço alugado, somos obrigados a partilhar com o dono do terreno. Se vendermos cinco a dez quadras ou pranchas de couve a quatro mil kwanzas, mil ou dois mil kwanzas de cada prancha vendida vão para ele”. Segundo o camponês Paulo Sérgio, houve uma invasão de terrenos por parte de alguns fiscais da administração, que faziam vendas clandestinas a pessoas próximas, retirando assim as primeiras pessoas que faziam a agricultura nessa área.
“Os mais velhos, apercebendo-se da venda das sua terras e por se sentirem desprotegidos, optaram por abandonar a área e procurar outros meios de sustento para a família”, explicou.
Morador no Bairro da Macedónia do Kifangondo, no Município de Cacuaco, há mais de dez anos, afirma que a suposta urbanização dos terrenos não deixou vias que permitam aos moradores chegarem com as suas viaturas até à porta das suas casas.
 “Tínhamos uma rua linda, onde os carros passavam sem se preocuparem com as lombas e buracos”.
Florinda Cambaia é proprietária de um hectare arrendado por 60 mil kwanzas anuais. “Pratico a agricultura aqui no bairro Sepa, comuna da Funda, há 16 anos. Só para se ter uma ideia, a pessoa que é agora dona desta terra já me encontrou aqui e, para não perder o meio de sustento dos filhos, pedimos-lhe para não nos tirar de lá até encontrarmos outras formas de nos sustentarmos”, explicou.
Florinda Cambaia conta que tem feito tudo para poder manter os seus filhos na escola. Por isso, alugou um hectare do imenso terreno agora comprado por uma outra pessoa.

Dificuldades e preferências

Em relação aos problemas e dificuldades que enfrenta, a proprietária disse que, “a única contrariedade era a água. Hoje está tudo certo. Temos água canalizada, além da água do poço”, salienta.
A maioria da população prefere comprar verduras e legumes que vêm directamente da lavra, afirma Florinda Cambaia. “Têm mais confiança, por não terem químicos, é tudo natural”, explicou. Em geral, é aos sábados e domingos que a procura dos produtos é maior.
Para cuidar da lavra, das galinhas e fazer a comida da manhã para os sete filhos, que também ajudam na manutenção depois de saírem da escola.

A cooperativa

Muitos camponeses na Funda, por gostarem de trabalhar a terra, fazem grandes esforços para poderem ter uma parcela de terra onde plantarem hortaliças. Alguns chegam mesmo a alugar parcelas de terra, conta José Paulo, presidente da cooperativa Ekolelo. “Aqui na comuna da Funda faz-se tudo para se encontrar uma solução, no caso de camponeses que alugam espaços para cultivar, de maneira a que nem o dono nem o camponês percam o seu sustento”, afirmou.
Esta situação está a criar alguns embaraços a muitos camponeses, que trabalham apenas para o sustento da família e para pagar o terreno ou as dívidas, e muitas vezes não conseguem vender os produtos por falta de condições. 
José Paulo adiantou que grande parte dos seus membros têm espaço próprio e só uma minoria é que trabalha em espaços alugados, com dimensões que variam entre um e sete hectares. O pagamento é feito de forma parcial, dependendo do contrato que cada proprietário entender fazer.
Actualmente, a cooperativa tem 270 membros. José Paulo acrescenta que tem “pedido às entidades de direito para darem, sempre que possível, um apoio moral aos camponeses”.
O chefe de repartição Municipal da Agricultura de Cacuaco, José de Castro, explica que muitos camponeses não têm capacidade técnica e financeira para trabalhar toda a área da sua parcela de terra e acabam por aluguer partes dela a outros camponeses.
“Essa é uma situação que dificilmente conseguimos combater. É feita em circuito fechado e só nos apercebemos disso quando não conseguem cumprir a sua parte do acordo feito anteriormente e entram em litígio, porque procuram os nossos serviços”.
“Há pessoas que adquirirem o espaço para exploração agrícola durante algum tempo e depois vendem ou alugam a empresas que fabricam blocos e outros empreendimentos, com base num contrato que fazem a nível do governo provincial. Quando nós vamos interpelar o proprietário, está tudo legalizado e não podemos fazer mais nada”, referiu.

 

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