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Lunda-Norte: Um património por reconhecer

Victorino Matias | Dundo

Como outras províncias, Lunda-Norte procura dar passos céleres para o futuro, sem esquecer o seu passado, reconhecidamente valioso. As autoridades lutam para preservar a estrutura arquitectónica das suas vilas. “A arborização e o verde da relva tratada, era a imagem que o Dundo e as antigas vilas construídas pela Diamang, tinham a oferecer aos moradores e visitantes das outras paragens do país e do mundo”, sublinha Josefo Fernandes, chefe de Departamento da Cultura e Património Histórico do gabinete da Cultura, Turismo, Juventude e Desportos da Lunda-Norte.

Fotografia: Victorino Matias | Edições Novembro

Com um estilo arquitectónico caracterizado pelo uso de tijolo queimado, as habitações têm também a particularidade de uma ornamentação com espaço verde considerável que lhes conferia uma imagem singular, acolhedora e atraente. Os pormenores do desenho arquitectónico das vilas urbanas da Lunda-Norte, têm até certo ponto uma dimensão identitária e por isso considerado com um Património histórico local.

O início da construção das casas, antes designados por acampamentos mineiros, está relacionado com a história da descoberta dos primeiros sete diamantes, no riacho Mussalala, afluente do Rio Tchiumbwe, Nordeste de Angola. Uma trajectória secular que remonta dos longínquos anos de 1912/1917, ponto de partida da actividade de operações mineiras em Angola.

As residências, na sua maioria de tipologia T2 e T4, foram construídas pela então Companhia de Diamantes de Angola (Diamang) no Dundo (a sede provincial), Nzagi (antiga vila do Andrada), Cassanguidi, Fucauma, Luxilo Cossa, Maludi, Lucapa, Calonda e Cafunfu. As casas tinham sido projectadas para finalidade de albergar, trabalhadores da multinacional diamantífera.

O estilo das habitações da agora cidade do Dundo e as outras vilas urbanas construídas pela Diamang, constituem um acervo cultural que carece de preservação. “A nossa preocupação reside hoje no facto de não ter sido preservado “, salientou Josefo Fernandes, que defende a valorização da grandeza do património material e moral dos povos a julgar pela sua importância na promoção do turismo cultural.

Josefo Fernandes lembrou que existiam na vila antiga do Dundo, jardins zoológicos e botânicos que constituíam verdadeiros postais para os visitantes. “Aqueles espaços, fazem parte da memória colectiva das populações desta circunscrição, mas infelizmente por falta de interesse e valorização acabaram por desaparecer”, lamentou.

Cultura e Desporto
Lunda-Norte não era só diamantes. A província já foi reconhecida no país e na África Austral pela prática de modalidades como tiros aos pratos e ténis de campo, além das piscinas que tinham impacto positivo na promoção das actividades olímpicas, proporcionando momentos de lazer e turismo.

As estruturas em referência segundo Josefo Fernandes, estavam implantadas no Dundo e nas vilas N´zagi, Lucapa e Calonda. Sob olhar das autoridades, os espaços dos Jardins zoológicos e botânicos por exemplo, foram invadidos e substituídos por construções anárquicas

Aldeia Museu
Entre os espaços de amplo valor cultural que a Província da Lunda-Norte tinha pelo menos até início da década de 1990, figura a Aldeia Museu, um lugar privilegiado que servia para a transmissão de ofícios, da velha para novas gerações. O recinto, adstrito ao Museu Regional do Dundo, era referência obrigatória, que permitia que os jovens fossem instruídos na arte de tocar instrumentos musicais, como Ngoma e Nguvu (batuques) e a dançar os estilos da Txianda, Makopo, Candoa, Maringa, incluindo aulas de técnicas de fabrico de esculturas de madeira em estatuetas.

Josefo Fernandes apela ao resgate dos hábitos e costumes da população, como forma de se perpetuar a memória dos ancestrais, passando os ensinamentos da tradição à nova geração. “Em termos de Cultura, nesses 42 anos de existência da província, precisamos recordar tudo de bom que tínhamos, mas que perdemos por culpa da nossa negligência”, disse, para acrescentar: “queremos resgatar o que é nosso de facto, há muita coisa que se perdeu”.

Candidatura a Património
À semelhança de Mbanza Congo e pela dimensão cultural, as autoridades da Lunda-Norte pretendem apresentar ao Executivo uma proposta para a inscrição da província como Património Mundial da Humanidade da Unesco.

As autoridades entendem que, tendo em conta a grandeza histórica e cultural no contexto dos povos de Angola, existem argumentos que justificam a elevação da Lunda-Norte à categoria de património da Humanidade.

Josefo Fernandes indica que foram desenvolvidos trabalhos preliminares, contou o apoio da Universidade Lueji A´Nkonde, com vista ao levantamento e inventariação dos principais monumentos, acervos e sítios que têm a ver com a história dos povos Lunda.

Um dos grandes símbolos da província é máscara “Mwana Phwo”, que representa a beleza e o encanto das mulheres Cokwe, e o “Samanhonga” (Pensador), peças que mais atraem os turistas que visitam esta região.

A província da Lunda-Norte é constituída por grupos etnolinguísticos, os Cokwes, Lundas (Arund), Balubas, Kakhongo, Imbangalas, Bondos e Songos, entre outros, que se revêem no rico folclore e na execução da arte de produção do artesanato, com destaque para as esculturas de madeira e a construção de habitações típicas tradicionais.

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