Províncias

Agricultura familiar alimenta população

João Pedro| Dundo

Famílias com pequenas parcelas de terra próximo do rio Luachimo produzem 60 por cento dos alimentos consumidos pela população do município do Dundo.

A agricultura familiar fez diminuir a compra de muitos produtos alimentares provenientes do Congo Democrático
Fotografia: Jornal de Angola

Famílias com pequenas parcelas de terra próximo do rio Luachimo produzem 60 por cento dos alimentos consumidos pela população do município do Dundo. A bem-sucedida produção da agricultura familiar mobiliza 24 famílias e fez diminuir a compra de muitos produtos alimentares provenientes da República do Congo Democrático.
A elevada produtividade das pequenas lavras mostra que, com mais incentivos, a produção agrícola pode aumentar. Basílio Victor é natural da província de Benguela e vive na Lunda-Norte há mais de 25 anos. Desmobilizado em 1992, diz que na altura muitos dos seus companheiros passaram a ser garimpeiros, mas como não estava acostumado com o garimpo optou pela agricultura, que já conhecia desde a infância.
“Tive que recorrer ao que sabia fazer desde criança, na minha zona, onde os mais velhos trabalham sempre no cultivo das lavras para não morrerem de fome”, disse Basílio Victor.
Exerce a actividade da agricultura há 18 anos e conta que o terreno onde hoje cultiva foi difícil de obter, porque anteriormente existia ali um pântano. No tempo de chuva o caudal do rio Luachimo enche e as águas chegam à cintura de um homem: “tivemos que fazer valas de drenagem para o escoamento das águas para o Luachimo e esse trabalho deu resultado”, disse Basílio Victor.
“Eu estudei na ciência como se faz para escoar a água e coloquei em prática o que aprendi nos livros e deu certo”, disse o agricultor.
Começou por cultivar tomate, ­pimento e quiabo, mas os resultados foram maus. “A única cultura que neste terreno dá muito bem é o repolho e o milho. Mas mesmo assim tentamos sempre outras coisas como o feijão, couve e cebola”, disse o agricultor.
A falta de adubos é uma das grandes dificuldades dos camponeses da Lunda-Norte. Basílio Victor disse que a delegação da Agricultura ajudava com a distribuição de alguns fertilizantes. Mas actualmente na província há falta de adubos e é preciso recorrer a outras províncias como Moxico e Luanda.
“Estas deslocações dão muito prejuízo, mas como temos que sustentar as nossas famílias não temos outra alternativa”, explicou Basílio Victor.
As pragas são grandes problemas para todas as famílias que cultivam na Lunda-Norte. Os repolhos nas hortas estão todos com piolhos e por falta de insecticidas não se desenvolvem da melhor forma: “Estes problemas limitam muito a produção”, lamentou o agricultor.

Apoio técnico

Zeferino Mahenga, supervisor do Instituto de Desenvolvimento Agrário, disse que na província da Lunda-Norte a crise financeira afectou muito a população que estava a trabalhar nas minas de diamantes. Por isso teve de se voltar para a agricultura. A província tem aproximadamente dois mil campos agrícolas apesar de muitos não terem acompanhamento técnico.
A mandioca, milho, couve, ginguba, o tomate e o inhame são os principais produtos cultivados em vários municípios como o Cuango, Cuilo e Caungula. A produção é para exclusivo consumo interno. “O grande problema de muitos camponeses é o escoamento dos seus produtos por falta de transporte”, sublinhou o supervisor do Instituto de Desenvolvimento Agrário.
Zeferino Mahenga garantiu que a importância da produção agrícola familiar na província é de aproximadamente 40 por cento e prevalecem as pequenas propriedades.
“Reconhecemos que ainda temos que trabalhar muito para deixar de comprar certos produtos na fronteira da República Democrática do Congo”, disse Zeferino Mahenga.
“A criação de cooperativas é a oportunidade de tornar a agricultura familiar ainda mais forte e mais competitiva no país”, acrescentou o responsável do Instituto de Desenvolvimento Agrário.
Zeferino Mahenga referiu que o estímulo em créditos aos pequenos e médios produtores agrícolas já está a ser encarado como uma vertente social da política agrária. E defende que “a política de desenvolvimento do país deve passar pelo relançamento da agricultura nas províncias”.
A grande maioria dos pequenos agricultores da Lunda-Norte consegue produzir apenas para a própria subsistência: “temos uma longa caminhada para acedermos ao crédito. A maior parte dos agricultores familiares não tem recursos nem assistência técnica. O IDA tem que crescer muito ainda na região Leste e nos sectores mais pobres da agricultura familiar”, reconhece Zeferino Mahenga.

Tempo

Multimédia