Províncias

Aposta no Ensino Superior está a mudar a região Leste

Joaquim Aguiar |

A universidade Lueji A’nKonde, com sede na cidade do Dundo, província da Lunda-Norte, faz parte da 4ª região académica, que inclui as províncias da Lunda-Sul e Malange. Tem uma população académica estimada em 6.380 estudantes distribuída nas diferentes faculdades e institutos superiores nas cidades do Dundo, Saurimo e Malange.

Samuel Vitorino acredita que passo a passo a universidade vai melhorar a sua inserção
Fotografia: Benjamim Cândido|

A universidade Lueji A’nKonde, com sede na cidade do Dundo, província da Lunda-Norte, faz parte da 4ª região académica, que inclui as províncias da Lunda-Sul e Malange. Tem uma população académica estimada em 6.380 estudantes distribuída nas diferentes faculdades e institutos superiores nas cidades do Dundo, Saurimo e Malange. O reitor da Universidade, professor doutor Samuel Vitorino, faz a avaliação dos primeiros três anos de funcionamento da instituição.



Jornal de Angola - Três anos depois da institucionalização da universidade, que avaliação faz, relativamente as metas e propósitos académicos a nível da região?

Samuel Vitorino - A Universidade Lueji A´nKonde foi criada em 2009, pelo Decreto do Conselho de Ministros e entrou em funcionamento em 2010. Portanto nós começamos a trabalhar em Janeiro desse mesmo ano. Encontramos três unidades orgânicas, herdadas da Universidade Agostinho Neto, neste caso, a Escola Superior Pedagógica da Lunda-Norte, a Escola Superior Politécnica da Lunda-Sul e já estava também em funcionamento a Faculdade de Medicina em Malange, criada pela então Secretaria de Estado do Ensino Superior. Estas duas escolas, a da Lunda-Norte e Lunda-Sul, ministravam cursos até ao bacharelato e a Faculdade de Medicina de Malange tinha curso de licenciatura em medicina. Quando nós entramos, criamos um plano de acção para o mandato 2010/2014 e fomos trabalhando no sentido de ir implementando algumas acções do referido projecto. Foi assim que em 2011 as acções visaram a elevação dos cursos de bacharelato para a licenciatura a nível da Escola Superior Pedagógica da Lunda-Norte, na Lunda-Sul passamos dois cursos, nomeadamente o de Mineração e Ambiente,  para a Engenharia de Minas, enquanto o curso de Construção Civil passou para a Engenharia Civil. Ainda em 2011 implementamos o Curso de Ciências de Educação em todas as Escolas. Isto é, em Malange abrimos o Curso de Ciências da Educação com Ensino da Pedagogia e Matemática, na Lunda-Sul também implementamos o Curso de Ciências de Educação, onde abrimos os cursos de História, Geografia, Pedagogia e de Matemática, além de implementarmos o curso de Administração e Gestão, todos com o nível de licenciatura. Aqui no Dundo, em 2011 abrimos as faculdades de Direito e de Economia com os respectivos cursos. Os objectivos dessas acções foram, naturalmente, aumentar, diversificar a oferta de formação para cada uma dessas províncias, diversificando assim o espectro de formação para toda a região. Em 2012, ou seja, no ano em curso a principal novidade foi a abertura da Escola Superior Politécnica da Lunda-Norte, no município do Cuango. Devo realçar que é a primeira instituição de Ensino Superior no município do interior de uma província do país, que numa primeira fase abriu com 270 estudantes matriculados no Curso de Pedagogia. Este curso corresponde às necessidades da região. No município do Cuango e arredores existem escolas de formação de professores de nível médio e então este curso visa dar a oportunidade a esses jovens para obterem a licenciatura em Pedagogia e Ciências de Educação no geral, com vista a melhorarem as suas performances em termos de docência, uma vez que a maior parte é docente do Ensino Geral, além daqueles que são técnicos das administrações municipais e outros sectores. Portanto no geral é este o estado actual da Universidade em termos de oferta de formação.

JA - A implementação de novos cursos está a ser acompanhada do alargamento de infra-estruturas?

SV - Uma das grandes preocupações a nível da região académica tem a ver com a gritante falta de infra-estruturas. Portanto a demanda por formação da sociedade é superior à capacidade de absorção que a universidade tem. Nós, por exemplo, aqui na província da Lunda-Norte temos apenas a Escola Superior Pedagógica com instalações próprias, sendo que é aqui onde estão agregadas todas as iniciativas do Ensino Superior para a província, como as Faculdades de Direito, Economia e a própria Reitoria. Este é um ambiente que não favorece o desenvolvimento das nossas instituições. Na Lunda-Sul e Malange temos também grandes problemas de instalações. Agora, o município do Cuango está muito bem servido em termos de infra-estruturas, porque nós instalamos a Escola na vila mineira do Luzamba, nas instalações pertencentes à Endiama. Temos lá infra-estruturas habitacionais. Estão em curso conversações com a Endiama e o governo provincial para que se possa construir uma escola. Como soluções à vista, existe - e particularmente aqui na Lunda-Norte, - uma estrutura que pertenceu a UPIP que está a ser reabilitada para albergar a Reitoria.  Temos ainda indicações precisas do governo provincial que dentro de mais algum tempo, tão logo a nova centralidade do Dundo apresente as primeiras unidades, o executivo vai disponibilizar espaço para a nossa universidade. Há perspectivas e temos plena consciência que a questão das infra-estruturas leva mais tempo a resolver, mas o nosso esforço junto do governo tem sido no sentido de ir minimizando as dificuldades e temos encontrado compreensão junto das estruturas locais.

JA - Porque é que a Escola Superior Politécnica do Cuango, arranca com curso de Pedagogia e não de Ciências Tecnológicas propriamente dito?

SV - Nós vamos trabalhar no sentido de conseguirmos implementar, nos próximos anos, cursos das áreas de ciências tecnológicas. Estamos a fazer esforço, ou seja, um trabalho no âmbito do plano de desenvolvimento institucional, trabalho de pesquisa das potenciais necessidades de formação para a região com vista a adequarmos a oferta formativa às potencialidades locais. Naturalmente que não vamos poder contornar a necessidade de formação na área de geologia e minas. Tendo em conta o potencial dessa região e correspondendo ao grande esforço que o governo da província está a fazer no sentido de diversificar as fontes de receitas do Estado, não deveremos deixar de parte o curso de agronomia. Mas ainda assim, o desenvolvimento e expansão das ofertas de formação na Universidade têm de ser equilibradas. Já está concebida a Faculdade de Ciências Agrárias para Malange. Se esta arrancar cedo, então não podemos abrir o curso de agronomia no Cuango, porque a proximidade permite que todos aqueles que quiserem formar-se em agronomia e que são do Cuango, vão estudar em Malange. Mas, nós vamos ver que outros cursos de ciências tecnológicas vão ser criados nessa região do Cuango e que não estejam ainda a funcionar noutras províncias que compõem a nossa região académica, cursos relativamente simples como o de ciências informáticas. Este curso é bastante fundamental, porque tem uma utilidade transversal, uma vez que um engenheiro informático trabalha em quase todas as áreas, portanto é um curso que ainda não temos a nível da nossa universidade e seria o primeiro a ser implementado na Escola Superior Politécnica do Cuango, até porque os investimentos nessa área são relativamente mais simples, tendo em conta que os laboratórios de informática e docentes conseguimos adquirir e contratar. Para a concretização desse desiderato, além obviamente do próprio Estado, vamos trabalhar junto de várias instituições para pedirmos alguns patrocínios. Estamos a pensar nas empresas diamantíferas que gravitam naquela região para aliarem-se aos nossos esforços, ajudando a escola a desenvolver-se rapidamente.

JA - Em algumas unidades orgânicas há falta de professores em certas cadeiras fundamentais. Isto não limita a transmissão de conhecimentos aos estudantes, sobretudo nos últimos anos de licenciatura? Que cursos é que ressentem-se da falta de docentes?

SV - De facto, para além das infra-estruturas, outro grande constrangimento que nós temos prende-se com os recursos humanos, quer docentes como não docentes, porque também a própria Reitoria, que funciona desde o ano 2010, não tem ainda o seu quadro de pessoal preenchido, principalmente no que toca a técnicos superiores para ocuparem os vários lugares de direcção. No caso da docência é o mesmo, nós contamos muito com a cooperação cubana que nos vai ajudando em várias áreas e estamos bastante agradecidos por essa cooperação. Ora temos no entanto que conseguir docentes angolanos com qualificação em qualidade e quantidade suficientes para suprir as nossas necessidades. Cursos que estão neste momento a enfrentar tremendas dificuldades para poder se desenvolver são os da Escola Superior Pedagógica da Lunda-Norte ligados à linguística (português-inglês e português-francês). Nestes cursos estamos com falta de seis professores, ou seja, seis disciplinas nucleares não têm docentes e são cadeiras do 4º ano que é já uma fase terminal. Temos estado a fazer um esforço no sentido de conseguirmos contratar docentes portugueses, mas há ainda grandes dificuldades que têm a ver com a concessão de vistos de trabalho. Há uma professora que trabalhou durante três anos, esteve ligada ao projecto da Universidade Agostinho Neto, quando foi criada a Universidade Luegi A’nKonde, fruto do redimensionamento da UAN. Esta professora terminou o contrato e teve que voltar ao seu país. Queremos agora trazê-la de volta, mas estamos já há cerca de oito meses a lutar por isso e está realmente bastante difícil. São dificuldades que se prendem também com o facto de a carreira de docente universitário ser ainda pouco atractiva em relação a outras áreas, que nesse momento estão a pagar melhor.  Assistimos pessoas que preferem ficar docentes no ensino geral, porque supostamente paga-se melhor do que no ensino superior. Além disso a carreira de docente universitário exige pós-graduação e uma formação que requer bastante sacrifício e investimento pessoal, o que torna cada vez mais difícil a entrada de angolanos na carreira da docência universitária, principalmente aqui na nossa província, onde nos debatemos também com a falta de habitação.  Não se concebe que um professor universitário não consiga resolver os seus problemas sociais, por exemplo a aquisição de uma viatura própria que lhe possa conferir alguma dignidade. Outra dificuldade que nos apoquenta é o fraco apetrechamento da nossa universidade, que é um facto. As bibliotecas são deficientes em termos de livros, mas é um assunto que vamos resolvendo à medida que vamos tendo verbas para o efeito. Há um plano interno, no sentido de as faculdades usarem uma parte das verbas que recebem todos os meses, para aquisição de livros, portanto existem aqueles problemas que podemos resolver paulatinamente e há outros que transcendem as nossas capacidades e competências.

JA - No ano passado, foram assinados acordos de geminação com universidades do Brasil e Cuba, para minimizar a questão dos docentes e ajudar a implementar o curso de pós-graduação em ciências de Pedagogia. Como é que está a situação?

SV - Os acordos foram assinados de facto e estão a ser implementados. Há acções em curso. Desde o ano 2010 que estamos a trabalhar com as universidades cubanas e a de São Paulo do Brasil, no sentido de conseguirmos estabelecer aqui um curso de Mestrado. Leva muito tempo de facto, porque a pós-graduação é uma formação bastante avançada que é necessário planificar muito bem, mas numa universidade nova como é a nossa, que não tem ainda as suas licenciaturas devidamente consolidadas, os passos a seguir para este grau têm, por isso mesmo, de ser muito bem estudados.

JA - Qual tem sido o engajamento dos três governos provinciais da região académica na resolução dos problemas da universidade?

SV - O seu engajamento tem sido impecável quanto à resolução das dificuldades que nós enfrentamos, uma vez que cada governo procura engajar-se para o tratamento dos assuntos que têm a ver com as unidades orgânicas instaladas na sua província. Mas agora, sentimos que é preciso que os três governos estejam unidos para os problemas da Reitoria, porque o governo da Lunda-Norte fica algo apertado com o peso de albergar esse órgão. Há neste momento a dificuldade de a província ter um edifício para albergar a Reitoria. Essa responsabilidade devia ser distribuída às três províncias, já que a Universidade pertence à região. Penso que esta é uma questão que a nível dos governadores deve ser resolvida, com vista a termos um apoio mais directo para a Reitoria, a partir dos três governos provinciais.

JA - Como é que tem sido administrado o Internato da Escola Superior Pedagógica e que benefícios e inovação traz para a Universidade?

SV - Temos dito que o Internato foi uma iniciativa louvável do governo da província da Lunda-Norte entregue à universidade, portanto é uma obra imponente. No entanto, ainda não está a ser usado, devido às dificuldades financeiras para o seu apetrechamento. O internato foi entregue em Novembro de 2010 e em 2011 na nossa proposta orçamental inscrevemos o valor para o seu apetrechamento com material de cozinha, lavandaria, mas, infelizmente, essa proposta não passou. Voltamos a fazê-lo em 2012 também sem sucesso, por isso ele continua fechado. Há muitos estudantes que de facto precisam do internato. Houve estudos por parte de entidades particulares sobre a possibilidade de gestão do internato por terceiros, mas mostraram que não seria rentável, do ponto de vista da exploração comercial.  Mas também é preciso perceber que o internato é uma estrutura social que não vai tornar alguém rico praticando preços altos, embora também a mesma pessoa ou empresa que o gerir possa empobrecer, logo ninguém se mostrou disponível para gerir o internato. Há custos ligados ao apetrecho e manutenção, então junto do governo da província da Lunda-Norte acertou-se que nos Programas de Investimentos Públicos (PIP) para 2013, vai se colocar uma proposta de orçamentação para o internato, tendo em vista o seu apetrechamento e funcionamento.
A partir daí, vamos, por concurso público, encontrar um agente para gerir o internato com as verbas que existirem, com vista a rentabilizá-lo, cobrando uma taxa mínima ao estudante, mas nunca um valor de 450 dólares por mês, como foi avançado num estudo que uma empresa privada nos apresentou. Os nossos estudantes não têm o correspondente a 45 mil kwanzas para pagar o internato. É muito dinheiro. É mais fácil alugar uma casa e pagar um preço simples. Portanto é nesse estado condicional que o internato está.

JA - Que principais actividades extra-académicas a Universidade realizou e prevê realizar de forma a criar um ambiente de interacção entre estudantes a nível da região?

SV - Neste ponto estamos mal. Não há ainda uma vida extra-académica como tal, nós temos estado a reunir com os estudantes a propósito desta questão. Estamos a lutar com os estudantes no sentido de criarem de facto associações, onde cada faculdade deve criar a sua, para depois pensarmos na União de Estudantes da Universidade. Estão a ser realizados torneios de futebol salão inter turmas, por parte dos estudantes do curso de economia e eu louvei essa iniciativa porque é o que queremos, que além de estarem nas salas de aula, realizem também actividades extra-escolares que permitam que eles conheçam-se mutuamente. Essa iniciativa deve continuar, com a criação de equipas de cada faculdade e pensarmos depois numa equipa da universidade, que possa participar em campeonatos de desportos universitários. Tenho aconselhado as direcções das nossas unidades orgânicas a realizarem excursões em que, por exemplo, os estudantes do curso de biologia façam estudos das plantas e no fim realizem um banquete.

JA - Quais são os grandes desafios da universidade nos próximos cinco anos?

SV - Nos próximos cincos anos, a universidade quer estabilizar a base organizacional das faculdades já existentes, quer do ponto de vista académico como administrativo, melhorar a base de docentes para o processo educativo, com docentes qualificados, recrutar novos com mestrado e doutoramentos, reforçar o acervo bibliográfico e a base laboratorial.  Não podemos continuar a fazer engenharia sem laboratórios. Queremos também alargar a base de formação, tendo em conta a necessidade de aumento da oferta de cursos onde existirem possibilidades. Esperamos também, do governo, a criação de infra-estruturas, para que cada faculdade funcione e consiga então desenvolver-se. Esses são, em termos gerais, os próximos desafios da universidade Lueji A’nKonde.

Tempo

Multimédia