Províncias

Aproveitar as potencialidades para produzir os alimentos que a província precisa

Isidoro Samutula

O desenvolvimento da província da Lunda-Norte depende da diversificação da economia, por via de investimentos concretos nos sectores da agricultura, pecuária, pescas, energia, águas e transportes. A afirmação é do economista e docente universitário José Cangolo. Ao avaliar os 42 anos desde a transformação da província, o académico sugere às autoridades forte comprometimento com o futuro e bem-estar das populações, para atrair potenciais investidores e garantir um processo contínuo e sustentável dos outros sectores da economia.

Fotografia: Benjamin Cândido | Edições Novembro

A falta de cultura empresarial, na sua opinião, tem provocado um impacto negativo nas políticas traçadas pelas estruturas centrais do Executivo voltados para os vários sectores económicos que deveriam constituir indicadores para o crescimento do desenvolvimento da Lunda-Norte.

“ Não se pode falar de desenvolvimento, sem antes olhar para os indicadores do crescimento. A Lunda-Norte é uma terra abençoada, pois tem inúmeras potencialidades, desde solos aráveis e recursos hídricos, aliado ao facto de, nos últimos anos, ter beneficiado de projectos estruturantes de reabilitação e construção em algumas estradas nacionais”, sublinha o académico, apontando alguns factores capazes de alavancar a economia, garantir emprego e rendimento para as famílias.

Cooperativas podem
acelerar a agricultura
O economista defende a criação de cooperativas empresariais em todos os municípios da província, com o apoio do Governo, para o desenvolvimento da agricultura mecanizada e promover a produção local, principalmente da mandioca.

José Cangolo garante que a Lunda-Norte é uma referência em termos de produção em grande escala da mandioca e está entre os principais fornecedores da fuba de bombó consumida no país. Mas vê um problema: as co-operativas existentes não têm capacidade técnica, financeira nem mesmo infraestruturas para desenvolver actividade empresarial.

“Em 42 anos, o Governo da Lunda-Norte tinha todas as condições para que a província se especializasse no cultivo da mandioca e assegurar mecanismos para a sua transformação”, declara o docente da Faculdade de Economia da Universidade Lueji A´Nkonde.

As potencialidades agrícolas da Lunda-Norte, não se circunscrevem única e exclusivamente na mandioca. A fuba de bombó é bastante apreciada e a qualidade seria um excelente indicador para uma aposta séria na produção, transformação e exportação do produto. Mas o economista aponta outros tubérculos de grande valor nutricional, como a bata-doce e o Inhame. Apesar das potencialidades, a Lunda-Norte não é auto-sustentável em produtos como a cebola, tomate, cenoura, kiabo, repolho, couve e a pimenta, que chegam do Centro e Sul do País. “A província precisa de empresários que apostem seriamente no sector da agricultura para contribuírem no relançamento da economia local, aproveitando as condições existentes do solo e dos recursos hídricos”, frisou o economista.

Uma das saídas para garantir a segurança alimentar e nutricional, reduzir a importação de produtos agro-pecuários, bem como promover a criação de postos de trabalho, além dos diamantes, seria a Fazenda Cacanda, reabilitada pelo Executivo com custos de 29 milhões de dólares.

O economista lembrou que os investimentos do Executivo na Fazenda Cacanda, criaram muitas expectativas cuja produção, poderia atingir níveis consideráveis e garantir o abastecimento de produtos nos mercados da Lunda-Norte, Lunda-Sul e Moxico.

O académico garante que os objectivos que levaram a reabilitação e modernização do Projecto Agropecuário da Cacanda, não foram atingidos, pois a província não sente os efeitos da sua existência.

Fazenda Cacanda, um gigante em Inaugurada em 2012, no município do Chitato, sob gestão da Agricultiva, empresa israelita responsável pela execução das obras de reabilitação das antigas infraestruturas da então Companhia de Diamantes de Angola, o Projecto Agropecuário de Cacanda estava projectado para abastecer a província e, depois, exportar para a região.

O investimento de 29 milhões de dólares, de fundos públicos, tinha como propósito revitalizar a estrutura, edificada numa área equivalente a cinco mil campos de futebol, para produção de ovos, hortícolas e carne bovina de abate. Até 2016, chegou a produzir vinte mil ovos por dia, 11 toneladas de carne de abate por mês. O número de bovinos ascendia as 400 cabeças. Em 100 estufas, de 25 metros cada, num total de 3,6 hectares, a safra era de cinco toneladas por semana de produtos diversos.

Entretanto, desde o ano 2017, altura em que o Ministério da Agricultura e Pescas entregou a gestão da fazenda à empresa privada Gesterra (que trabalha em parceria com a Agressurb), os níveis de produção caíram, assustadoramente. A força de trabalho, que era 169, até 2016, ficou reduzida para menos de 50, que asseguram pequenas actividades. José Cangolo não tem dúvidas: a Fazenda Cacanda “está praticamente em queda livre “.

O brilho dos diamantes

Como uma província reconhecida pelos diamantes que produz e exporta possui altos níveis de pobreza na sua população? “A pobreza da população da Lunda-Norte, deriva da riqueza que possui. Isso influencia de forma negativa no seu custo”, revela José Cangolo. A resposta parece uma contradição. Mas o economista esclarece: “A província deveria beneficiar, de forma directa, de um valor proveniente das receitas fiscais de exploração e dos despachos aduaneiros de exportação dos diamantes. Tais receitas, iriam permitir ao Governo Provincial distribuir rendimento às pessoas desfavorecidas, construir infraestruturas sociais nas localidades de exploração”.

Para José Cangolo, o sector diamantífero é o único com capacidade para garantir o desenvolvimento económico da província, uma vez que os indicadores apontam que a produção tem vindo a atingir níveis satisfatórios. “Em termos concretos e de forma directa, a população da Lunda-Norte ainda não sente os benefícios da actividade”, refere, para lembrar, igualmente, a responsabilidade social das empresas diamantíferas, que devem proporcionar a qualidade de vida às populações que vivem nas zonas de exploração.

Constrangimentos
aos investimentos
“Do ponto de vista económico, a indústria não pode funcionar dependendo de fontes alternativas, tendo em conta os elevados custos operacionais”, desabafa José Cangolo, para acrescentar: “ A economia não funciona sem a energia nem água. Para o desenvolvimento económico da província, os dois sectores são fundamentais e a Lunda-Norte necessita de grandes investimentos”.

O economista lamenta o facto de as grandes quantidades de recursos hídricos disponíveis não serem devidamente aproveitadas. O docente universitário reconhece que a situação da energia eléctrica pode registar melhorias substanciais, com a conclusão das obras de aproveitamento hidroléctrico e aumento de potência da central do Luachimo que, além do Chitato, vai fornecer os municípios do Cambulo e Lucapa.

Nas estradas, o economista destaca os investimentos feitos pelo Executivo para ligar os municípios, mas afirma que há ainda muitos desafios pela frente. Um dos grandes problemas reside na ligação da província ao litoral, pois, o elevado estado de degradação da Estrada Nacional 230 cria muitas dificuldades aos operadores na transportação de pessoas e mercadorias essenciais.

O economista lembra que algumas empresas têm beneficiado de autocarros para o transporte público, mas ainda persistem problemas de mobilidade. O sector empresarial dos Transportes, segundo José Cangolo, deve tirar maior proveito dos investimentos nas vias de comunicação, para promover a circulação intermunicipal. Sector fundamental para o desenvolvimento económico, os transportes, na Lunda-Norte, aguardam por empresas públicas para velar pela mobilidade das pessoas, principalmente nas rotas intermunicipais, segundo o economista.

 

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