Províncias

Cidade do Dundo em requalificação

Joaquim Aguiar | Dundo

O bairro Samacaca passa a ser zona nobre da cidade do Dundo, ao ser escolhido pelas autoridades locais para o arranque do programa de extensão e requalificação da nova cidade.

Pessoas singulares e empresas lutam para obter um lote de terreno em Samacaca para o desenvolvimento de projectos imobiliários
Fotografia: Benjamim Cândido

O bairro Samacaca passa a ser zona nobre da cidade do Dundo, ao ser escolhido pelas autoridades locais para o arranque do programa de extensão e requalificação da nova cidade. Vários empreendimentos habitacionais e sociais estão a ser construídos na zona, no quadro do programa de desenvolvimento social e económico da província, que vão transformar o bairro numa nova cidade com todos os serviços, conforto e segurança.
A zona de Samacaca é hoje um ponto de referência no mercado imobiliário da Lunda-Norte. Pessoas singulares e empresas lutam para obter um lote de terreno naquela área privilegiada para o desenvolvimento de projectos imobiliários.
O bairro está a ser urbanizado, depois da conclusão das primeiras infra-estruturas. Outras estão em construção e já existem várias obras projectadas, com realce para o Instituto Médio Politécnico 28 de Agosto, o novo Hospital Provincial, as 96 casas para a juventude e várias habitações de pessoas singulares, algumas já concluídas e habitadas.
A projecção da nova cidade do Dundo e outros investimentos públicos e privados do sector habitacional, como é o caso da autoconstrução dirigida, no quadro das reservas fundiárias do Estado, conferem à zona do Samacaca um estatuto privilegiado. Está a nascer na zona uma nova e moderna capital da província da Lunda-Norte.
“Eu não esperava ver tudo isto, agradeço muito ao governo por ter escolhido Samacaca para a construção da nova cidade”, disse o soba Samacaca, visivelmente satisfeito.
O soba, que já vive na zona há mais de 40 anos, sublinhou que “muita gente abandonou o bairro por ser distante da cidade e hoje estão a voltar às pressas porque já perceberam que o bairro vai ser o mais desenvolvido do Dundo”.
O soba recorda que os filhos e netos enfrentaram muitas dificuldades para estudar, porque a escola ficava muito distante, alguns foram desistindo, só os corajosos conseguiram formar-se: “faltava aqui uma escola e um hospital, foram anos muito difíceis”, afirmou.
“Vamos esquecer o passado, porque o presente e o futuro reservam-nos coisas boas, chegou também o momento do governo recuperar o tempo perdido com a guerra, mostrar ao povo que os angolanos têm capacidade para reconstruir o país, para a felicidade dos nossos filhos e das gerações vindouras”.”, disse ainda o soba Samacaca, que lançou um apelo à população: “saibam conservar o que está a ser feito, para que aqueles que vierem depois de nós possam ver o que fizemos”.

Visita do governador

O soba Samacaca ficou satisfeito com a visita ao bairro realizada na semana passada pelo governador provincial, Ernesto Muangala, no quadro de encontros regulares com as comunidades, para auscultação das principais preocupações que as afligem.
O governador provincial fez a entrega às autoridades tradicionais do bairro de motorizadas e bicicletas e bens de primeira necessidade.
“Foi uma visita muito boa e há muito esperada, o governador trouxe-nos uma mensagem de esperança, de força e de orgulho, e quando disse que a nova cidade que está a ser construída não é para outras pessoas, é mesmo para o povo de Samacaca, que deve saber conservar o que está a ser feito, fiquei muito satisfeito”, disse o soba.
A oportunidade foi aproveitada pelo soba para solicitar ao governador provincial a construção de um posto médico para as populações do bairro, enquanto decorrem as obras do novo Hospital Provincial e de uma escola do primeiro ciclo do ensino primário.
“Aproveitamos a ocasião para pedir que nos coloque aqui um posto médico e uma escola para crianças, e ele aceitou o nosso pedido, ficamos a aguardar”, disse.

Dinastia Samacaca

A dinastia dos Samacaca data de 1928, tendo como figura mais relevante o mais velho Txiwessela Samacaca. Nessa altura, o bairro estava localizado na zona do Camatundo, na circunscrição do Ritenda.
A população é proveniente da Mussumba do Mwatyanvua, fazendo parte do processo de emigração como resultado da desagregação do império Lunda-Tchokwe, no final do século XIX, tendo Samacaca ocupado as terras que actualmente habita.
Em 1968, com a reorganização dos bairros pelo poder colonial, o soba Samacaca foi transferido da zona de Camatundo para o actual local. Partilha o poder tradicional com 16 sobetas, da sua linhagem e está enquadrado na regedoria  de Satchindongo.
Até aos dias de hoje já foram investidos mais três sobas, Muatxissengue Samacaca, em 1968, José Miranda Samacaca, em 1983, e actualmente Francisco Mutxingue Samacaca, investido em 2004.
O soba Francisco Mutxingue Samacaca revela que o segredo da liderança no seu bairro passa pela honestidade, seriedade e responsabilidade na solução dos diferentes problemas que é chamado a mediar na sua comunidade.
 “Sempre que há um problema, eu ajudo a encontrar uma solução, mas não o faço sozinho, chamo os outros mais velhos do bairro, que têm sido muito prestativos. Acabamos por resolver os problemas sem magoar ninguém, sem sangue, nem ofensas”, disse.

Casos de adultério

Para o soba, a solução dos conflitos no “Tchota” nem sempre é um processo pacífico, porque “existem senhores e senhoras que procuram defender o mal praticado pelos seus filhos, mas nós temos sabido dar fim aos conflitos e este exemplo de humildade é que eu tenho passado aos meus irmãos”.
Os problemas mais frequentes no bairro, segundo o soba, “têm a ver com o adultério. Só este ano foram registados mais de quatro casos, mas conseguimos acabar com este grave problema”.
Outros casos apontados pelo soba são os relacionados com roubos praticados, sobretudo, por jovens e mostra-se feliz por não haver no bairro casos relevantes de violência contra a mulher e a criança.
O soba Samacaca diz que é um verdadeiro pai para a comunidade juvenil do seu bairro, procurando transmitir a sua experiência, as boas maneiras de convivência social, aconselhando aos jovens a absterem-se de vícios como drogas e vadiagem.
“É o nosso papel enquanto mais velhos, mas está difícil um jovem acatar os conselhos dos mais velhos, há muita diferença com os jovens daquele tempo, até mesmo o nosso filho de casa nos dá dores de cabeça, mas não devemos desistir de aconselhar”, disse.

Emprego aos jovens

O emprego para os jovens também preocupa o soba Samacaca, que os aconselha a inscreverem-se no centro de formação profissional, para adquirirem conhecimentos que os habilitem a obter trabalho nas empresas de construção que estão a surgir na localidade.
O soba mostrou-se igualmente satisfeito com os jovens que já conseguiram o primeiro emprego nas obras de construção da nova cidade, do hospital e na fábrica de chapas de zinco. “A vida desses jovens mudou muito, porque já conseguem sustentar as suas famílias”, afirmou o soba Samacaca.
A concluir, aquela autoridade tradicional defendeu um maior investimento no sector da agricultura para que as pessoas possam ter o campo como fonte de rendimentos, diminuindo os actuais aglomerados populacionais  nos centros urbanos. 

Tempo

Multimédia