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Combate à malária com métodos avançados

Armando Sapalo |Dundo

A província da Lunda-Norte está a intensificar as acções que visam combater a malária no seio das comunidades, com trabalhos de pesquisa a partir de aparelhos de microscópios e testes rápidos para determinar o índice de prevalência de paludismo em crianças menores de cinco anos, por serem as mais vulneráveis em termos de mortalidade causada pela enfermidade.

Inácio Banda oficial de controlo da malária
Fotografia: Benjamim Cândido|



A província da Lunda-Norte está a intensificar as acções que visam combater a malária no seio das comunidades, com trabalhos de pesquisa a partir de aparelhos de microscópios e testes rápidos para determinar o índice de prevalência de paludismo em crianças menores de cinco anos, por serem as mais vulneráveis em termos de mortalidade causada pela enfermidade.
De acordo com os responsáveis da Saúde, o novo método de diagnóstico da doença, considerada como sendo a principal causa de mortalidade materno-infantil a nível do país, é feito através da recolha de uma gota de sangue na criança, tendo como suporte os factores de reagentes imunológicos que permitem descobrir a existência da acção da picada de mos­quito no organismo humano.
O oficial provincial de controlo da malária na Lunda-Norte, Inácio Banda, explicou ao Jornal de Angola que em termos científicos o referido estudo é designado por “pesquisa plasmódica microcospial em crianças assintomáticas”. “Seleccionamos um grupo de crianças numa comunidade e realizamos testes cujas amostras ajudam-nos a determinar a incidência da malária no seio da população de uma comunidade”, esclareceu.
O médico disse que, como experiência piloto “está a ser desenvolvido por enquanto no município do Chitato, a nível de todos os bairros circunvizinhos, onde os indicadores dos resultados até agora obtidos são bastante preocupantes, pois um elevado número de crianças foi diagnosticado com casos de malária e em pouco tempo o seu estado clínico seria grave”, afirmou.
O também especialista em medicina geral revelou que, de acordo com a estratificação dos exames realizados no município do Chitato, registou-se que em cada grupo de 100 crianças assintomáticas pesquisadas com teste rápido e laboratorial por bairro, 65 por cento das mesmas tiveram resultados positivos.
“Em função dos estudos feitos com os testes rápidos e de laboratórios descobrimos que, em cada 100 crianças por bairro 65 por cento delas trouxeram-nos resultados positivos. Ou seja 200 crianças em cada bairro eram suspeitas de terem malária“, divulgou.
Declarou também que, depois dos testes, as crianças cujos resultados são positivos, recebem imediatamente no local o tratamento preventivo com “Coartem”, no sentido de proporcioná-las melhores condições de saúde. Afirmou que o que acontece normalmente é que os pais da criança, a comunidade, assim como alguns técnicos de saúde, por falta de treinamento qualificado, chegam muitas vezes a concluir que a criança está sadia porque não apresenta febres, dores de cabeça nem cansaço, que constituem os principais sintomas da malária.
Segundo o oficial provincial de controlo à malária na Lunda-Norte, essas crianças assintomáticas, não obstante revelarem-se saudáveis, já estão contaminadas com a malária, tendo em conta que, com a picada do mosquito têm no seu sistema respiratório o parasita do plasmodium falciparum. A actividade investigativa aos grupos de crianças assintomáticas, sublinhou Inácio Banda, envolve uma equipa integrada por médicos, técnicos de saúde das diferentes unidades sanitárias, numa primeira fase do município de Chitato e jovens activistas que trabalham na mobilização da comunidade para a realização dos testes.

Quadro epidemiológico

Questionado acerca das ocorrências registadas, Inácio Banda informou que, durante o ano de 2011, foram notificados um total de 51.446 casos suspeitos de malária, dos quais 26.283 confirmados nos laboratórios, que resultaram em 98 óbitos. Além disso, referiu, 4.286 outros apresentaram estado clínico grave, tendo mesmo exigido um internamento hospitalar acompanhado de cuidados médicos intensivos, uma vez que 47 por cento dos mesmos pacientes eram crianças e mulheres grávidas.
Quanto ao primeiro trimestre do ano em curso, disse, verifica-se um aumento considerável de 85 por cento de casos positivos de malária em relação ao mesmo período do ano passado, pois que já foram registados 15 óbitos, onde 53 por cento são crianças menores de cinco anos.
O oficial de controlo do programa de combate à malária na Lunda-Norte considerou que o elevado número de ocorrências de casos registados a nível dos hospitais, centros médicos e postos médicos da província, resulta da fraca observância das medidas higiénicas por parte da população.
Apontou como estando na base disso a baixa cobertura e oferta satisfatória de mosquiteiros às crianças menores de cinco anos de idade e deficiente saneamento básico nas sedes municipais, além da gritante ausência de programas de limpeza nos bairros periféricos.

Medidas de prevenção

O Programa de Luta contra a Malária, segundo Inácio Banda, prevê a intensificação das acções de sensibilização no sentido de inserir a população nas actividades que visam reforçar as medidas higiénicas e sanitárias através de palestras, encontros com os líderes comunitários, autoridades tradicionais e religiosas. Adiantou que além da intensificação as campanhas de limpeza vão ser também alargadas às intervenções do programa dentro das comunidades, tendo como ponto de partida o melhoramento da qualidade dos técnicos das diferentes unidades sanitárias relativamente aos métodos de diagnóstico e tratamento correcto da doença.
Inácio Banda queixou-se que os indicadores do último inquérito feito pelos técnicos locais ligados ao sector da saúde revelam que num grupo de dez mulheres grávidas da província da Lunda-Norte, apenas uma vai às consultas pré-natal.
Por isso, afirmou, o programa de combate à malária prevê implementar novas estratégias tendentes ao controlo da doença através da criação de grémios comunitários cuja tarefa vai ser fazer censo de cada bairro que permite medir o nível de consciência das mulheres grávidas que acorrem às consultas pré-natal.
Outra missão a ser desenvolvida por esses grupos, destacou, tem a ver com o facto de os mesmos trabalharem para o apelo à importância do uso de mosquiteiros, sobretudo pelas mulheres em estado de gestação e crianças menores de cinco.

Pulverização nos bairros

No âmbito dos esforços que estão a ser empreendidos pela equipa ligada ao combate à malária na Lunda-Norte, o Jornal de Angola ouviu também o coordenador provincial da luta anti-vectorial que junto de uma equipa de jovens activistas trabalha na eliminação do mosquito.
Sérgio Besado disse que a actividade anti-vectorial para o combate ao mosquito adulto consubstancia-se na aplicação de produtos biológicos nas larvas, “conhecidas também por águas estagnadas”, visando a diminuição dos casos de malária.
De nacionalidade cubana, o especialista em controlo de vectores declarou que a sua equipa, integrada por quinze jovens angolanos, intervém utilizando sobretudo fármacos que não afectam negativamente o meio ambiente e que permitem interromper o processo de crescimento dos mosquitos.
Disse que está a ser feito ainda um trabalho intra-domiciliar, relacionado com a captura de mosquitos, ratos e baratas, assim como a protecção dos recipientes de água consumida pela população”. Em cada uma das residências onde passamos, realçou, conseguimos capturar mais de 50 mosquitos adultos e a mesma quantidade de ratos e baratas , afirmou referindo ser uma demonstração clara de haver casos de suspeita de malária em muitas famílias na província da Lunda-Norte.
Quanto ao serviço extra-domiciliar, destacou que os activistas de luta anti-vectorial esmeram-se, junto das populações de cada bairro, na recolha de alguns resíduos que estimulam o surgimento do mosquito, como pneus antigos, garrafas e lixo sanitário.
Nos locais onde estão concentradas toneladas de lixo, rios, lagoas e outros pólos criadores de larvas que arrastam o mosquito às residências e locais de maior concentração populacional, segundo Sérgio Besado, é feito um trabalho específico de pulverização.
O programa de luta anti-vectorial, de acordo com Sérgio Besado, decorre desde o ano passado, mas somente nos municípios do Chitato, Lucapa e Cuango. Acrescentou que o projecto ainda não atingiu as circunscrições municipais que compõem a província por não estarem ainda criadas as condições de habitação para os seus técnicos.
Sergio Besado defendeu a necessidade de as administrações municipais melhorarem as políticas de reforço ao sistema de saneamento básico a nível dos centros urbanos e arredores, uma vez ser a primeira recomendação para a redução dos casos de malária.
As medidas higiénicas, a necessidade de construção de latrinas comunitárias para evitar a defecação ao ar livre, são, entre outros, alguns conselhos deixados pelo coordenador provincial de luta anti-vectorial.
“O mais importante aqui é a gente mudar a consciência das nossas personalidades em termos de higiene, além da necessidade de as administrações municipais verem a questão do saneamento básico, porque há muita deficiência nessa vertente”, referiu.

Consultas pré-natal

Bela António, grávida de oito meses, admitiu em declarações ao nosso jornal que, desde que soube do seu estado de gestação, nunca se dirigiu a um posto de saúde próximo do bairro em que reside para consulta pré-natal “por falta de conhecimento”.
Aos 17 anos de idade a jovem Bela António revelou que nenhum dos membros da sua família no bairro, particularmente o marido ou uma outra mulher, lhe aconselhou a fazer consulta pré-natal para saber do estado de saúde da criança antes do nascimento.
Depois de vacinada contra a malária e beneficiar de um mosquiteiro, foi informada sobre a importância de consultar os médicos durante o período de desenvolvimento do feto, prometendo por isso fazê-lo em próximas ocasiões, no sentido de proporcionar melhores condições de saúde ao bebé.
“Francamente essa é a minha primeira gravidez e nunca ninguém da minha família ou do bairro, especialmente marido e mulheres mais velhas, aconselhou-me a fazer a consulta pré-natal, embora acompanhe mesmo as mensagens que passam na rádio e televisão.
Depois de receber o mosquiteiro, ter sido vacinada e falarem-me da importância de ir ao médico em estado de gestação, prometo fazê-lo para a saúde do meu bebé”, disse.
Pedro Tiofe, cujo filho de três anos teve resultado positivo no teste de malária, mostrou-se arrependido pelo facto de não cumprir com as orientações médicas relativas a utilização de mosquiteiro.
Pedro Tiofe, que foi um dos poucos homens a levar o filho para a realização do exame plasmódico, afirmou que domina a importância da consulta
pré-natal.
Com três filhos no seu lar, afirma nunca em algum momento ter-se lembrado em pedir à esposa para ir ao hospital para observar a gravidez e evitar eventuais casos de malária na mulher gestante e no futuro rebento.
“A malária está mesmo a levar a vida das pessoas devido a nossa teimosia em não cumprir as orientações baixadas pelos técnicos de saúde. Os homens em casa assumem-se como chefes de família e esse papel deve ser justificado com outras medidas que passam não apenas por dizer à mulher para ir à consulta pré-natal, mas levá-la mesmo consigo”, prometeu.

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