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Muangala garante água e luz para todos

João Pedro

Depois da independência, a província da Lunda foi, no dia 4 de Julho de 1978, dividida em duas, ficando as novas então surgidas a designar-se Lunda-Norte e Lunda-Sul.

Governador da Lunda-Norte Ernesto Muangala quando falava dos projectos na província
Fotografia: Jornal de Angola

Depois da independência, a província da Lunda foi, no dia 4 de Julho de 1978, dividida em duas, ficando as novas então surgidas a designar-se Lunda-Norte e Lunda-Sul. A cidade do Dundo, hoje com mais de 400 mil habitantes, é a capital da Lunda-Norte, que tem acima de um milhão de habitantes. De então a esta parte, a província tem procurado trilhar os rumos do desenvolvimento sustentado. Ao Jornal de Angola, o governador Ernesto Muangala disse que, entre outras apostas, o executivo local está a trabalhar para aumentar os níveis de fornecimento de energia eléctrica e de água potável às populações. Pretende-se, até 2014, levar luz e água potável a toda a extensão da província, assegurou.

Jornal de Angola - O país comemorou 35 anos de independência. O que tem a dizer sobre este acontecimento histórico para o povo da Lunda-Norte?

Ernesto Muangala
- Para o povo da Lunda-Norte, que é parte integrante do povo angolano, a independência é o maior ganho para nós desde a nossa existência. Depois de cinco séculos de dominação colonial, no dia 11 de Novembro de 1975 o nosso país alcançou a sua independência, e para a província da Lunda-Norte em particular os ganhos estão à vista de todos e começa pela Educação.

JA - Porquê pela Educação?

EM –
Porque o ensino de base e do segundo nível, concretamente a 5ª e 6ª classes, no período colonial, neste território que hoje constitui a Lunda-Norte, só foi implementado em 1973, com a criação da escola preparatória Ernesto de Vilhena, na então vila de Portugália, hoje Chitato. Nós, que estamos aqui a falar, fomos os primeiros a frequentar este ensino. E não havia, até à independência, o ensino de 3º nível, para não falar do ensino médio e o superior. Depois da independência, foram implementados em todos os municípios da Lunda-Norte o ensino de base do 2º e 3º nível. Hoje, quatro dos nove municípios da província da Lunda-Norte têm implantado o ensino médio, concretamente o Chitato, Cambulo, Cuango e o Lucapa. Desde 2004 que a Lunda-Norte tem o ensino superior, com a inauguração da Escola Superior Pedagógica, que hoje é uma unidade orgânica da Universidade Pública Lueji A’Nkonde. Em 2009, por orientação do Presidente da República, engenheiro José Eduardo dos Santos, constituiu-se a Universidade Pública Lueji A’Nkonde, cuja sede está aqui na cidade do Dundo. A escola superior formou, de 2004 até ao dia 11 de Novembro de 2010, 667 bacharéis. E a partir do próximo ano lectivo teremos já os cursos de Direito e de Economia aqui no Dundo.
Além disso, posso também dizer que todos os municípios e comunas da Lunda-Norte têm escolas primárias, o que não existia no período colonial. Por isso é que comecei pelos ganhos que tivemos com a independência pela Educação.

JA - O que dizer do sector da Saúde?

EM
- No sector da Saúde também tivemos ganhos significativos, porque em todos os municípios e comunas temos hospitais e centros de saúde. Mas, é preciso recordar que esta parcela do território nacional só conheceu no período colonial um médico angolano, que por razões políticas não ficou aqui por muito tempo, porque a PIDE/DGS, influenciada pela Diamang, Companhia de Diamantes de Angola, expulsou este médico angolano, o doutor David Bernardino, pelo facto de ter ideias progressistas. Depois da independência, hoje temos aqui vários médicos angolanos a trabalhar, além de enfermeiras com o ensino superior. Até à independência, os enfermeiros angolanos tinham, apenas, a 4ª classe. Isto porque os que concluíam a 4ªclasse, no período colonial, nem todos tinham a possibilidade de se deslocar a Malange para estudar o primeiro ano do ensino preparatório, que hoje corresponde a 5ª classe, no colégio São José. O grosso de estudantes nativos depois de concluir a 4ª classe não tinha como continuar os estudos. Ou iam para monitores escolares para darem aulas no campo ou então viravam agentes sanitários. Hoje, depois da independência, o quadro é totalmente diferente, temos muitos técnicos superiores formados dentro e fora do país.

JA - Que estratégia de curto prazo existe para melhorar as condições sociais das populações?

EM
- Bem, em todo o país ainda existe um défice habitacional e a Lunda-Norte também tem este problema. Mas, para melhorar este quadro, há um projecto para a construção da nova centralidade até 2012 aqui no Dundo, o que vai aumentar o número de habitações. Numa primeira fase teremos 5.004 apartamentos, cujas obras estão a decorrer a um bom ritmo. Na segunda fase estender-se-á até 20 mil apartamentos. Um outro ganho é a recuperação da fazenda agro-pecuária da Cacanda, que é um pólo agro-pecuário que permitirá o desenvolvimento da província em todas as vertentes.

JA - Qual é a situação do sector diamantífero?

EM
- O sector dos diamantes constitui a segunda fonte de receitas para o Orçamento Geral do Estado (OGE), porque depois do petróleo vêm os diamantes. A província da Lunda-Norte tem uma participação substantiva no OGE com a produção de diamantes. É a província com mais projectos mineiros, pelo facto de ter a maior produção diamantífera do país. Mas temos trabalhado no sentido da diversificação da nossa economia, apostando na agricultura, pecuária, pesca continental e numa outra indústria que não apenas a extracção de diamantes, política orientada pelo titular do Executivo.

JA - Qual tem sido o papel das parcerias público-privadas para o desenvolvimento acelerado da província?

EM
- Estão em curso vários projectos. Uns de iniciativa privada e outros de iniciativa pública. Um dos exemplos de uma iniciativa privada, é a fábrica de chapas de zinco que está a ajudar muito na edificação de casas. E vai ajudar, ainda mais, no projecto de um milhão de casas. No âmbito da iniciativa público-privada está em curso a construção de uma fábrica de água mineral. Muitos outros projectos aguardam financiamento do Banco de Desenvolvimento de Angola. Assim, teremos um leque de fábricas aqui na província para não dependermos inteiramente dos diamantes.

JA - Como estão a ser implementados os projectos de relançamento da agricultura na província?

EM
- Iniciamos a nossa gestão considerando 2009 como o ano da agricultura. Nós pensamos que Angola, e a Lunda-Norte em particular, é um país agrícola. E o desenvolvimento de Angola passa necessariamente pela agricultura, tanto para nossa auto-suficiência alimentar como para o combate à pobreza e o desenvolvimento sustentável. Como vê, definimos a agricultura como prioridade das prioridades, pelo facto de ser a base do desenvolvimento de Angola. Em 2009 começamos a constituir associações e cooperativas de camponeses, e também criamos estruturas que não existiam antes, como o Instituto de Desenvolvimento Agrário (IDA). Para além da agricultura, estendemos, também, as nossas acções para a pesca continental, porque esta é uma província em que os principais recursos são os hídricos, temos muitos rios e riachos, bem como lagoas.

JA - Há apoios do executivo em embarcações para o fomento da pesca artesanal?

EM
- Foram constituídas associações e distribuídas embarcações para a pesca continental e com isso os pescadores têm conseguido sobreviver. Desta forma estamos também a combater a pobreza. E todo este programa começou a ser cumprido depois da aprovação, pelo Conselho de Ministros, do projecto de reabilitação da Fazenda agropecuária da Cacanda, onde os trabalhos em curso devem estar concluídos dentro de um ano e irão garantir mil empregos directos e dois mil indirectos.

JA - De que maneira as pessoas estão a ser desviadas do garimpo de diamantes para o sector agrícola?

EM
– Nem em todos os municípios da Lunda-Norte se extraem diamantes. Há municípios em que o seu subsolo é detentor de diamantes mas ainda não se explora. Nestes incentivamos a população a praticar a agricultura. Refiro-me, concretamente, dos municípios de Capenda Camulemba, Xa-Muteba, Lubalo e Caungula. Nos outros, embora se extraiam diamantes, pode-se, também, praticar a agricultura em associação à exploração de diamantes. Complementando tudo, desde a existência da Lunda-Norte, em 2009, tido para nós como ano da agricultura, realizamos a primeira edição da feira agropecuária da Lunda-Norte, em Xa-Muteba. Este mês de Novembro realizamos a 2ª edição da Expo Cacanda, que contou com a participação de expositores nacionais e de países vizinhos como a República Democrática do Congo e a Namíbia, porque o gado bovino, caprino e suíno destes países se adapta facilmente à nossa realidade. Foi uma oportunidade que os investidores nacionais e estrangeiros aproveitaram para constatar as potencialidades que a província tem para a agricultura, pecuária, bem como para a pesca continental.

JA - Quais os grandes benefícios do projecto Cacanda?

EM
- A primeira fase do projecto Cacanda consiste na formação dos cooperativistas, porque se nós não formamos este pessoal, a agricultura e agropecuária não serão bem praticadas. Assim, antes de empregar, vamos dar uma formação e o acompanhamento directo aos associados. Para além de Cacanda, em 2011 será relançado o pólo agro-pecuário de Calonda, que já existia no período colonial. Mas vamos ampliar isso no município do Lucapa. E em 2012 relançaremos o pólo agro-pecuário de Decossa, no município de Cambulo. Esses projectos terão um grande mercado, por se encontrarem próximos de Saurimo e das empresas diamantíferas como Catoca e a Sociedade Mineira do Luô. E até podemos reverter o quadro, vendendo os nossos produtos no Congo Democrático.

JA - O que está a ser feito no domínio do fornecimento de água potável às populações?

EM
- O fornecimento de água potável às populações melhorou significativamente em 2010, que foi considerado o ano da energia e das águas na província da Lunda-Norte. Todas as sedes municipais da província terão as obras concluídas até o final do ano para o abastecimento de água potável. Aqui no Dundo, dentro de semanas, durante a reunião do programa “Água para Todos”, que irá decorrer na província da Lunda-Norte, o Executivo vai inaugurar o sistema de abastecimento de água à cidade do Dundo e periferia. Estamos ainda no período experimental, porque uma conduta, que já existe há mais de 50 anos, está a ser substituída. Não queremos que haja falhas durante a inauguração. Temos 54 chafarizes e quatro lavandarias comunitárias para que as mamãs deixem de frequentar os rios para lavar a roupa e acabar com os riscos que correm ao serem atacadas por jacarés e evitar afogamentos e a perda desnecessária de vidas.
Na sede do município do Cuango, por exemplo, a população já não tem grande preocupação como no passado, com a inauguração do sistema de abastecimento de água. Aqui no Dundo, como disse, as coisas caminham e dentro de dias faremos o mesmo na comuna do Loremo e no município do Lucapa. Podemos dizer que todos municípios da província da Lunda-Norte terão água potável de qualidade no quadro do programa de iniciativa presidencial “Água para Todos”.

JA - E quanto à produção e distribuição de energia?

EM
- Neste sector é preciso reconhecer que não estamos muito bem, devido à central hidroeléctrica do Luachimo estar a trabalhar a 50 por cento das suas capacidades. Mas, temos bons sinais do Presidente da República, que já orientou a ministra da Energia e Águas para realizar um concurso público para a reabilitação da barragem do Luachimo. Esta central foi construída em 1953 e inaugurada em 1957 pela Companhia de Diamantes de Angola. Tem quatro turbinas com capacidade para oito megawatts, sendo dois megawatts por cada turbina. Por isso é que, no âmbito do programa de emergência, instalamos aqui na cidade do Dundo grandes grupos geradores, com capacidade aproximada de quatro megawatts. Pretendemos, até 2014, levar água potável e luz a toda a extensão da província.

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