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Um herói esquecido da luta anti-colonial

Joaquim Aguiar | Dundo


O historiador Fonseca Sousa, professor de História e Cultura Angolana na Escola Superior Pedagógica da Lunda-Norte, considera que é preciso construir um monumento em homenagem ao soba Quelendende, ou Muene Luchico, que entre 1908 e 1920 mobilizou o povo da Lunda para acções de confronto directo e de desobediência e sabotagem às caravanas expedicionárias portuguesas.

O soba Cauelele Camuxinda
Fotografia: Joaquim Aguiar

O historiador Fonseca Sousa, professor de História e Cultura Angolana na Escola Superior Pedagógica da Lunda-Norte, considera que é preciso construir um monumento em homenagem ao soba Quelendende, ou Muene Luchico, que entre 1908 e 1920 mobilizou o povo da Lunda para acções de confronto directo e de desobediência e sabotagem às caravanas expedicionárias portuguesas.
O académico afirmou que “é necessário efectuar um estudo na localidade onde ocorreram os combates, com vista à edificação de um memorial em homenagem ao soba Quelendende”. 
Fonseca Sousa, que também é director do Museu do Dundo, disse que a Lunda-Norte apresentou, no quadro da Comissão Técnica Nacional para Valorização das Figuras Históricas Nacionais, a proposta para que o soba Quelendende conste do memorial a construir na capital do país em homenagem às figuras históricas que contribuíram na luta de resistência à penetração colonial e na luta de libertação nacional.
O Museu do Dundo está a preparar uma exposição permanente, na sala sobre colonização e resistência, em que vai ser incluído um memorial sobre a figura de Quelendende, “para que a população possa tomar conhecimento dos feitos históricos e da personalidade do homem guerreiro”, disse o historiador.
“É preciso trabalhar ainda mais”, disse Fonseca Sousa, “para que o local onde ocorreu a batalha de Quelendende seja classificado como sítio histórico nacional, o que pode contribuir para a promoção do turismo cultural na província da Lunda-Norte”.
No local, o Lóvua, existe uma montanha que os mais velhos chamam de “Mulundo wa Muaquelendende”, onde o ancião se escondeu por razões estratégicas durante 12 anos. 
“As pessoas terão a curiosidade de ir ao Lóvua para ver o sítio onde faleceu o alferes Macedo, ou então ver que é lá onde esteve o soba Quelendende, que deu tanto trabalho aos colonizadores. Será emocionante”, sublinhou Fonseca Sousa.
No âmbito da promoção do interesse histórico da localidade, foram realizadas algumas excursões juvenis, como forma de incentivar os jovens a fazer estudos e investigação para fins académicos e partilhar conhecimentos sobre a nossa realidade histórica.
Na província surgiram, ao longo dos anos, várias iniciativas para homenagear o soba Quelendende. O seu nome foi atribuído a uma escola no município do Cuango e nos anos 1980, uma biblioteca da Diamang recebeu o nome de Quelendende.

Vida de resistência

Quelendende foi um homem cuja vida esteve intrinsecamente ligada à luta de resistência colonial na Lunda. Os colonizadores chamavam-lhe “Soba Vermelho” ou “Terrível”. 
Entre 1908 e 1920 existiram outras figuras que desencadearam acções de resistência ao colonialismo na região da Lunda, como são os casos do soba Bunla Bunla, morto com mais de 100 homens em 1917 na área de Luangue, do soba Cumba Cunza, ou simplesmente Ngunza, que fez história nas margens do rio Luembe. Mas o soba Quelendende é o que mais sobressaiu, dado que a sua resistência esteve relacionada com a ocupação e exploração das ricas terras de diamantes.
Em Mussangala Nona, a 50 quilométricos da sede comunal do Lóvua, existe um monumento colonial, intacto, em homenagem ao Alferes Macedo. A região ainda hoje é o habitat preferencial da família de Quelendende. O bairro Namichinda, localizado na margem do rio Luchico, é constituído fundamentalmente por descendentes do velho guerreiro, representados hoje pelo irmão Muandumba  Namuchinda, que adoptou este nome na década de 1930, após o regresso da família do então Congo Belga, onde se tinha exilado.
O soba Cauelele Camuxinda, sobrinho de Quelendende, explica que os primeiros anos de convivência com as autoridades portuguesas, após 1920, foram marcados por uma verdadeira “guerra de caça ao homem”. Mas as relações foram melhorando na medida em que os portugueses, segundo o soba, “compreenderam que era necessário unir as pessoas para melhor governar e organizar os trabalhos nas minas de diamantes”.
Cauelele Camuxinda revela que várias pessoas foram maltratadas e outras desapareceram, sobretudo nos bairros Tchalissoka, Satambi, Cazanga, Tchamondo e Sacaginga Cambadongo, que constituíam o bloco de apoio a Quelendende.
O soba está satisfeito por ainda continuar a viver nas terras que o seu tio tanto se empenhou em defender para manter: “continuamos aqui a cultivar mandioca, milho e outros alimentos para sustentar a família. Solicitamos ao Governo que construa aqui escolas e um hospital, para garantir o futuro dos nossos filhos”.

Como reza a História
 
Foi na margem direita do rio Luchico, na actual comuna do Lóvua, município do Chitato, na Lunda-Norte, que o soba Quelendende protagonizou a sua primeira batalha contra os portugueses, em Setembro de 1908, ao assaltar o quartel militar. Este ataque resultou na morte do alferes Macedo, um sargento, seis soldados e alguns soldados foram dados como desaparecidos.
O fortim então recentemente instalado era integrado por mais de 180 homens armados com canhões e metralhadoras, comandados pelo tenente Augusto José de Sousa Magalhães. 
A situação preocupou o Governador-Geral de Angola, que considerou o ataque de “desastre importante”, tendo ordenado o desencadeamento de acções ofensivas e a decapitação do soba Quelendende.
Os portugueses, segundo o historiador René Pélissier, nunca tinham sofrido um revés tão grave na Lunda. 
Os grandes objectivos das autoridades portuguesas na região eram conquistar as posições para além do Cuilo, onde tinham uma sólida base militar, e consolidar outras posições estratégicas na Lunda, que podiam ajudar a resolver o diferendo fronteiriço com os belgas, face à descoberta de jazigos de diamantes no território de Muatiyânvua.
Apesar das forças portuguesas levarem vantagem em número de homens e em armamento moderno, o soba Quelendende soube montar uma estratégia defensiva e com recurso a meios de combate rudimentares (flechas e canhangulos) complicou e retardou a ocupação do território e o pleno funcionamento do programa de pesquisas e exploração de diamantes. Este programa deu lugar mais tarde, em 1917, à criação da Companhia de Diamantes de Angola (Diamang).
O soba Quelendende defendia a necessidade da protecção dos nossos recursos naturais, ao opor-se à sua exploração desenfreada pelos europeus. 
A criação da Diamang trouxe à região a chamada “guerra de kwata kwata”, que consistia na busca de pessoas em todos os cantos de Angola para servirem a gigante empresa de exploração de diamantes.
Quelendende oferecia resistência, com ataques às caravanas de recrutamento de mão-de-obra para a empresa de diamantes. As autoridades coloniais promoveram a grande perseguição a Quelendende e aos seus colaboradores. 
Para vencer Quelendende foi organizada uma grande ofensiva, a 2 de Junho de 1920, que partiu do posto de Capaia, entre Lóvua e Luchico, a que se juntaram soldados de outros postos já consolidados como os de Cuilo Chicapa  e  Cassai Norte. Várias povoações, consideradas bastiões da resistência anti-colonial, foram incendiadas. 
A “Batalha de Quelendende” mobilizou mais de 385 homens armados com metralhadoras e outras armas automáticas que os nativos apelidaram de “Uta wa mussahaló”, por supostamente dispararem sem parar. 
A 7 de Setembro de 1920 foi finalmente alcançado o “quartel-general” do soba Quelendende, na margem direita do rio Luchico. O soba e a sua população tinham-se retirado para o Congo Belga, terminando assim um longo período de perseguição, luta e instabilidade na região da Lunda.
Os historiadores René Pélissier e Alberto Almeida Teixeira consideram o soba Quelendende o fiel continuador dos ideais guerreiros de Mona Mbuâmbua, uma figura relevante entre os vários núcleos populacionais que resistiram à ocupação colonial na Lunda.
Os historiadores são unânimes em afirmar que o “último tiro” contra a ocupação colonial foi dado na Lunda, na “Batalha de Quelendende”.
Como vestígio material dessa batalha existe um monumento construído pela Diamang no Lóvua, em homenagem ao alferes Macedo. Esse monumento pode muito bem servir de ponto de partida para transmitir às novas gerações o conhecimento dos feitos e da figura do soba Quelendende, um herói esquecido da luta anti-colonial.

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