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Camponeses suplantam empresários

Adão Diogo e Flávia Massua| Saurimo

A necessidade da administração colonial garantir mão-de-o­bra para impulsionar a exploração de diamantes, predominantemente artesanal, em detrimento de qualquer outra actividade, impediu o desenvolvimento do sector agrário na Lunda-Sul e remeteu as populações locais a uma agricultura itinerante e de subsistência.

Produção agrícola familiar garante auto-suficiência
Fotografia: Dombele Bernardo

A necessidade da administração colonial garantir mão-de-o­bra para impulsionar a exploração de diamantes, predominantemente artesanal, em detrimento de qualquer outra actividade, impediu o desenvolvimento do sector agrário na Lunda-Sul e remeteu as populações locais a uma agricultura itinerante e de subsistência.
Região de solos relativamente ácidos, abençoados por uma densa bacia hidrográfica, a a província da Lunda-Sul é dominada por rios envoltos por extensas chanas de solos hidromórficos, secos e húmidos, que favorecem o cultivo do arroz em grande escala e que, até 1974, era a principal cultura de rendimento.
Por conta de um consumo restrito, a mandioca, batata-doce, feijão, amendoim e milho despontaram na lista de culturas alimentares básicas, complementadas com outros produtos de origem florestal, caça e pesca fluvial.
 
Produção


A prática da agricultura envolve cerca de 54.500 famílias, distribuídas em 631 associações, 168 pequenas empresas agrícolas, 51 cooperativas, parte das quais sem reconhecimento jurídico.
De 2002 a 2011, a média anual de área cultivada ronda os 70 hectares, da qual o sector tradicional camponês subalterniza o empresarial, ao cultivar mais de 53.500 hectares.
Cada família camponesa cultiva em média anual mais de  um hectar, onde a mandioca, no meio de outras culturas, ocupa 70 por cento do espaço, por ser o produto base na dieta alimentar. “A preparação manual da terra, insuficiência de tractores, máquinas para realizar o debulhe e alfaias de melhor qualidade” concorrem para a redução das áreas cultivadas.
O director provincial do sector, Elias Avelino Zeca, descreve que “os elevados rendimentos da mandioca e batata-doce, por unidade de área, permitem às famílias satisfazerem as suas necessidades e comercializar algum excedente”.
Em relação aos cereais e leguminosas aponta que a média de colheita por família é inferior a 150 quilogramas, incapazes de “suprir as suas próprias necessidades”.
 
Extensão rural


O sector conta desde 2005 com duas Estações de Desenvolvimento Agrário (EDA) funcionais, baseadas nos municípios de Dala e Saurimo. Os investimentos feitos no quadro do Programa de Extensão e Desenvolvimento Rural (PEDR), permitiram a distribuição de instrumentos de trabalho, sementes e fertilizantes.
O crédito de campanha agrícola em espécie, contemplou  167 famílias camponesas, das 23.000 inscritas no programa ao nível da província, e rondou  69 milhões e 93 mil kwanzas. Com alguma dificuldade de circulação nas vias secundárias e terciárias, é notório o movimento de pessoas e bens das zonas rurais para as urbanas.
 
Pecuária

A franja empresarial no sector desponta nos últimos seis anos com cifras que apontam para a existência de aproximadamente 234.640 aves, mais de 2.800 bovinos, cerca de 19.400 caprinos, 14.260 suínos, suplantando o tradicional que aposta na criação de “caprinos, ovinos e aves, em quantidades desconhecidas”.
O responsável da agricultura na província ressalta, neste domínio, o impacto do projecto Pecuário Tchizavo, afecto à Sociedade Mineira de Catoca, que detém os maiores índices de produção no meio de outros criadores. A sua  prestação gerou para a província, de 2010 a 2011, cerca de 158 toneladas de carne de frango,  mais de sete milhões 366 mil e 700 ovos. Para o sucesso nesta empreitada o sector realiza anualmente campanhas de vacinação para prevenir a incidência de patologias que constrangem a saúde dos animais.
 
Floresta e fauna


Incalculáveis recursos florestais enriquecem a flora da província, com destaque para as espécies madeireiras, conhecidas localmente por muxi, mussesse, mulombe e muvuca, bastante solicitadas, “embora oficialmente não existe qualquer empresa licenciada para o corte”. Polígonos florestais pouco extensos, com clareiras no interior “a suplicar por cobertura”, representam o símbolo de resistência à devastação nas localidades de Mwangeji e Kalussaze, onde incidem os programas de repovoamento.
A província tem o registo de 173 apicultores que produzem em média anual mais de 12 toneladas de mel, nos municípios de Dala e Cacolo, recorrendo aos métodos tradicionais.
Devido a  abundância de animais selvagens de espécies e portes  variados, a comuna do Sombo, adstrita ao município de Saurimo, representa a única reserva natural da província, que clama por preservação.

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