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Instrumentos paliativos preservam ofícios

Adão Diogo e Flávia Massua | Alto-Chicapa

A habilidade desponta no manuseio do caco de uma garrafa que utiliza na vez de lixa/plaina, em falta, no seu kit recheado de instrumentos rudimentares.

O ancião Agostinho Samuambeno ocupa parte dos seus tempos livres a exercitar a carpintaria no recinto da sua casa fabricando vários artigos de uso doméstico
Fotografia: Dombele Bernardo

A habilidade desponta no manuseio do caco de uma garrafa que utiliza na vez de lixa/plaina, em falta, no seu kit recheado de instrumentos rudimentares. Com eles exercita a carpintaria, em recinto aberto da sua modesta casa, no bairro 11 de Novembro, arredores da sede comunal de Alto Chicapa, província da Lunda-Sul.
Falamos do ancião Agostinho Samuambeno, 60 anos, um respeitável camponês, que dedica parte do tempo livre à confecção de portas, janelas, banquinhos e outros móveis, “por amor à profissão que aprendi há mais de 30 anos”.
Ele é um exemplo de coragem e persistência, mas no seu atelier falta de tudo. O serrote e martelo que usa estão velhos. Aguarda por oportunidade para montar uma micro empresa, a fim de garantir rendimento e transmitir experiência aos mais jovens, sobre os segredos que envolvem a arte.
O seu vizinho, Agostino Kalimine, sobrevive também da agricultura de subsistência, alternada com o ofício de ferreiro. Carece de equipamentos e para exercer a profissão depende de favores de terceiros. Garante que com a sua experiência é capaz de fabricar facas, catanas, enxadas, limas e outros instrumentos úteis.
A curiosidade fez do jovem Augusto Ilinga um mecânico.
Em várias ocasiões supera avarias em motorizadas na comuna. Anseia por oportunidade de formação básica em mecânica para aperfeiçoar conhecimentos e obter um kit.
A ideia de abrir uma pequena oficina está no topo do seu “projecto adormecido”, enquanto ajuda algumas pessoas com problemas leves nas motos”.

Alto Chicapa

Situada a mais de 250 quilómetros a Sul de Saurimo, sede da província da Lunda-Sul, a comuna de Alto-Chicapa tem um posicionamento estratégico. Facilita os acessos às províncias do Bié, Malange e Moxico. Tal vantagem justificou a construção de uma base para o efectivo militar durante a colonização portuguesa, numa estratégia de controlar a guerrilha.
A zona foi também alvo de disputa durante o conflito armado pós independência.
Grande parte das infraestruturas herdadas do tempo colonial e que albergavam a administração do Estado angolano está arrasada.
Do cenário de escombros envolvidos por capim alto dominam dezenas de eucaliptos, perfilados, no silêncio que traduz paz. As autoridades coloniais edificaram, à entrada da então vila, um monumento que homenageia dois soldados tombados em combate. Adiante, uma piscina conservada, mas vazia. Inscrições e símbolos nos edifícios outrora pertencentes a administração comunal e do centro médico, resistiram às intempéries do tempo.
Dos esforços de reconstrução em 10 anos de paz nasceram um hospital com capacidade para 10 camas, escola com três salas de aula, sede administrativa, casas, para o administrador, seu adjunto e dois técnicos, sistemas de comunicação sem fio, de abastecimento de água, através de chafarizes e gerador de energia.
Das acções realizadas em prol do combate à fome e à pobreza no período em análise destacam-se a atribuição de um tractor e camião, para apoio aos camponeses.
 
Soba reconhece melhorias


O soba do bairro, Mário Simão, reconhece melhorias trazidas pelos serviços implantados a favor dos mais de 3.200 habitantes, na sua maioria camponeses, unificados em quatro aldeias. />Explica que o relacionamento no seio da comunidade obedece a padrões da cultura lunda cokwe, sem desrespeito pelas leis do Estado. Surgem, ocasionalmente, desentendimentos gerados por crença no feitiço, infidelidade conjugal, que geralmente “tratamos no jango, convocando as partes desavindas, e optando pela melhor solução para dirimir a crise”.
Esta postura, segundo a autoridade tradicional, remeteu para o passado o “hábito de assassinar/agredir cidadãos, por ciúmes ou acusados de serem feiticeiros”.
As autoridades locais trabalharam bastante na mobilização para mudar a mentalidade. “O que era ignorado ontem, granjeou respeito hoje, o que ajuda a manter um clima de convivência harmoniosa”, sublinha Mário Simão. Persiste a divisão de trabalhos entre o homem e a mulher. É comum esta assumir grande parte das lides domésticas, mas “nota-se já a participação do homem nalguns trabalhos”.
O esforço desenvolvido pelo cidadão Paulo Tchimbinda para transformar o bombó em fuba, actividade habitualmente feita por senhoras, usando um pilão e almofariz, confirma as afirmações do soba, embora, neste caso, o acto tenha sido mera coincidência, favorecida pela ausência da esposa.O soba encoraja o governo a trabalhar em prol da recuperação dos cerca de 110 quilómetros de terra batida, ao longo da qual o INEA instalou quatro pontes de estrutura metálica.
Esta acção impulsionou a circulação de camiões de tracção às quatro rodas, afectos à empreiteiras que intervêm no domínio da reconstrução. A recuperação da via exige do governo investimentos avultados, reflexo de décadas de abandono, forçado pela instabilidade política, numa zona dominada por acentuados desníveis no relevo, areia, buracos que tornam a viagem numa aventura. É por causa deste quadro que alguns moto taxistas fixaram como indiscutível a tarifa de 3.000.00 kwanzas por passageiro, sujeito a pagar igual valor caso viaje com carga que tenha peso entre 40 e 50 quilogramas.
Os habitantes estabelecem comunicação recorrendo aos serviços do sistema “liga-liga”, mas o soba defende a instalação das operadoras Unitel e Movicel, além da extensão dos sinais da Rádio e Televisão públicas.
O comportamento da população facilita o trabalho da polícia que, vez a outra, notifica queixa. A violência física e moral domina a lista descrita pelo comandante adjunto, Arão Manjanda.
No domínio da saúde o enfermeiro Manuel Soloka destaca que o hospital dispõe do mínimo essencial para acudir as solicitações dos pacientes. Em geral, padecem de hiper-tensão, dores na coluna vertebral, abdómen e cabeça, revela.

Registo eleitoral

Segundo o representante do administrador, Marcos Natália Popi, a população correspondeu ao apelo de actualização do registo eleitoral, lançado por brigadas que cobriram todas as localidades povoadas.
A participação provou o interesse pelo fortalecimento da democracia mediante o exercício do voto. Marcos Popi nota que o mérito pelo sucesso desta empreitada recai também para os líderes das comunidades, que agiram como activistas ao passarem, de forma incansável, a mensagem sobre a importância do cartão de eleitor.

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