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Muriege promove os valores do bom cidadão

Adão Diogo | Muriege

Vitória Kalupe assina, cabisbaixa, o termo de responsabilidade passado pela administração comunal de Muriege, a fim de repor o vidro de uma das janelas da escola, quebrado pelo filho na sequência de uma brincadeira que consistia em medir a pontaria mediante o lançamento de pedras para acertar num mastro, situado no pátio.

Administradora comunal Maria Ulumbo quer ver Muriege a progredir em todos os sentidos
Fotografia: Dombele Bernardo

Vitória Kalupe assina, cabisbaixa, o termo de responsabilidade passado pela administração comunal de Muriege, a fim de repor o vidro de uma das janelas da escola, quebrado pelo filho na sequência de uma brincadeira que consistia em medir a pontaria mediante o lançamento de pedras para acertar num mastro, situado no pátio.
“Esta é a forma encontrada pela administração para preservar os bens públicos. Não é o primeiro caso que acontece e pelos vistos a responsabilização está a travar o vandalismo latente no seio dos jovens”, disse a administradora local Maria Ulumbo, em jeito de esclarecimento.
Segundo a mandatária da comuna,localidade situada no município de Mukonda, a medida despertou o interesse dos pais em relação à educação e acompanhamento dos filhos, para acautelar dissabores, “conservar e garantir a durabilidade dos serviços criados para dignificar todos os cidadãos”.
 
Origem


Muriege, vem de Nulieji, na língua tchokwe, que significa gatunos. A existência de um rio nas imediações com o nome da vila, e provável erro do colonizador na interpretação de “Yenue nulieji”, “sois gatunos”, por apenas “Mulieji”, aportuguesado para “Muriege”, provem das duas versões apontadas sobre a origem do nome da vila.
Segundo o comerciante Luís Baeta Martins, Muriege integra a lista das últimas localidades ocupadas pelo colonizador, ao nível da Lunda. Acrescenta que o primeiro posto administrativo na década de 50 estava na localidade de Fufo, a 30 quilómetros, na mesma via.
O primeiro edifício “erguido na vila era de parede dupla em adobe, e estava coberto por chapas de zinco. Detalha que ao lado deste, vivia o administrador do posto”, numa casa construída no mesmo recinto, que integrava um extenso pátio, parte do qual ocupado actualmente pela estrada. A área administrativa abarcava casas para os cipaios. Qualquer visitante, avista, com facilidade, uma “torre tanque” fora de uso, pintada em branco, tendo o formato de um paralelepípedo.
O espaço ocupado pela actual sede administrativa faz parte do pomar, do qual sobrevivem ainda alguns limoeiros. Para contrapor o ataque por leões na zona, as autoridades coloniais criaram um incentivo aos caçadores, de 500.00 escudos “por leão abatido”.
Luís Baeta faz uma incursão sobre limites geográficos e gaba os seus dotes nos bons tempos de caçadas, que culminavam com a lotação de camiões com carne seca, além do negócio de gado, gizado pela extinta DIAMANG.
 
Caracterização


Território de clima húmido, com uma extensão de mais de 8.000 quilómetros quadrados, possui uma população estimada em 5.600 habitantes, essencialmente camponesa, distribuída por nove aldeias.
Excepto alterações de comportamento resultantes do consumo excessivo de bebidas alcoólicas e crença no feitiço, a população pauta por uma conduta socialmente aceite. O desporto, dança tradicional e outras actividades preenchem sessões culturais promovidas em eventos que ocorrem nas distintas comunidades da comuna, fundada há cerca de 50 anos.
 
Novo postal


Dos escombros deixados pela guerra nasceram 14 salas de aula, onde centenas de alunos estudam, da iniciação a sexta classe. O postal da vila abarca igualmente um centro médico e três postos de saúde assegurados por sete funcionários.
Conta também com três casas geminadas para acomodar os técnicos, instalações administrativas, sistemas de abastecimento de água potável, energia eléctrica produzida por dois grupos geradores com uma capacidade de 250 KVA.
Uma estrada internacional reabilitada e sinalizada pela construtora civil MotaEngil incentivou a circulação de transportes públicos para passageiros e transacções comerciais. O fluxo de viaturas, aliada à falta de prudência por parte de condutores e peões, favorece a ocorrência de muitos acidentes.
Das acções projectadas para o ano em curso, Maria Ulumbo destaca  o loteamento de centenas de hectares afectos às reservas fundiárias, reabilitação da casa da agricultura, limpeza de áreas suspeitas de minas e construção de 25 casas sociais, inscritas no programa nacional traçado pelo governo.
 
Comércio


O ancião Luís Baeta Martins é o único comerciante na vila desde o tempo colonial. A paralisação forçada pela guerra jamais enfraqueceu a sua determinação de servir a população, “independentemente do lucro que resulta das vendas”.
Aposta no ofício “porque gosto disto” e defende celeridade na reactivação do programa do comércio rural permanente para incentivar o cultivo do arroz, que permitia ao pai comprar dos habitantes cerca de 300 toneladas, contra menos de 500 quilogramas, produzidos actualmente.
Revelou que “para vender 40 barras de sabão e 50 quilos de arroz” na vila precisa de cinco dias e no fim de cada jornada contabiliza, em média, 11.000.00 kwanzas.
Nota que “o dever, por hábito, obriga-me a continuar”, pensando na “sobrevivência e não para investimentos”.  Entre as fragilidades de que enferma o sector da agricultura na região aponta o facto desta “ser relegada especialmente à mulher, enquanto o homem passa, no mínimo, sete dias a caçar e a pescar”.

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