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Rio Muangeji da glória à beira da extinção

Adão Diogo | Saurimo

O caudal e qualidade da água do rio Muangeji preocupam as autoridades competentes e os munícipes de Saurimo. Areia abundante, valas profundas e árvores dispersas, configuram o actual cenário que sobrou da beleza cantada pela banda musical “Os moyowenu”.
O rio agora é um esgoto.

O caudal e qualidade da água do rio Muangeji preocupam as autoridades competentes e os munícipes de Saurimo. Areia abundante, valas profundas e árvores dispersas, configuram o actual cenário que sobrou da beleza cantada pela banda musical “Os moyowenu”.
O rio agora é um esgoto. A água suja e de cor castanha, quase desapareceu. É o que resta do leito do rio Muangeji. A degradação da principal fonte de abastecimento a Saurimo, reflecte o ponto máximo de degradação de um processo iniciado com a devastação do polígono florestal circundante.
 Ao longo dos anos as enxurradas depositaram toneladas de terra e lixo nas margens e no leito do rio Muangeji, provocando a sua “morte lenta”, que se traduz na escassez de água, que forçou a procura crescente de fontes alternativas, em valas abertas por ravinas, um pouco por todo o polígono florestal.
Para os habitantes de Saurimo restam lembranças da beleza do rio Muangeji que inspirou músicos, apaixonou namorados e guardou “segredos mil”.
Em vários pontos do seu curso de água, os jovens do antigamente nadavam nas suas águas límpidas e cristalinas ou pescavam. Hoje a água corre como um fio e está poluída. A floresta desapareceu. Restam algumas árvores, porque a tradição diz que elas morrem de pé.
As margens do rio são agora lugares inóspitos. No leito surgem “ilhas” de capim impenetrável.A areia esconde a água. Ao longe continua de pé a “ponte velha” do Muangeji, primeiro ponto de travessia na via entre a cidade de Saurimo, Lwô e Lucapa.
A ponte está fora de uso mas antigamente era ponto de encontro de  donas de casa que iam ao rio lavar a roupa e cuidar da higiene pessoal e dos filhos, que esbanjavam o tempo em brincadeiras no areal das margens, enquanto “as mães despachavam o trabalho”.  Os especialistas dizem que é preciso repor a floresta e desassorear o leito do rio Muangeji para que ele volte a ser o que era.As árvores ajudam a travar as ravinas que avançam em todas as direcções. No fundo de cada ravina correm “regatos de água limpa,” aproveitados por jovens banhistas. O rio fugiu para as ravinas.
 
Lagoa da chuva

António Kaniwa Cândido suspende o banho numa lagoa que nasceu no fundo da ravina. Foi ele que nos ensinou um caminho seguro até à “ponte velha”.
No meio do capim alto, rasgado por carreiros, fendas, lavras de mandioca o jovem segue, destemido, como um guerreiro inspirado para a luta.Os vestígios de um pomar de mangueiras prevalecem. Duas mulheres carregam, à cabeça, roupa em bacias aproveitando a água que corre num braço nascido do rio Muangeji.
António Kaniwa ainda se lembra do arvoredo e dos mergulhos refrescantes na água do rio, reduzido a um símbolo que resiste aos atentados contra a natureza, da única responsabilidade do homem.

 Ponte velha

Junto à “ponte velha”, Maurício Xavier descalça os sapatos e atravessa seguro os dois metros de água que correm no rio. No passado, o rio era profundo e tinha mais de 20 metros de caudal entre uma e a outra margem.
Maurício é segurança na Firma Vasco, sedeada na cidade Saurimo. Aproveita os tempos livres para cuidar da horta e da lavra que fez na margem do rio.
 É dali que tira os alimentos.Diz que a água do rio nem sequer serve para regar e sugere a intervenção urgente do Governo Provincial sob pena de um dia o rio desaparecer por completo.
Donas de casa e agricultores aproveitam a água que corre dos pontos altos.
 Paula Kanama, agricultor, garante que nos subterrâneos existe muita água boa. Manifestou o seu descontentamento pelo facto da “água do Muangeji não servir para nada, por estar muito turva”.
Da ponte a acção nefasta do homem é mais visível. Dum e do outro lado do rio há um grande caminho de areia e nasce vegetação rasteira. A dispersão de um punhado de árvores, distante das margens do rio, confirma que se nada for feito, está para breve o golpe de misericórdia no rio Muangeli.

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