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Tempos melhores na vila de Cacolo

Adão Diogo*|Saurimo

Acções viradas para a melhoria das infra-estruturas marcam a vila de Cacolo, que, no dia 23, completou 76 anos. Segundo centro urbano da província, a seguir à capital, Saurimo, a antiga circunscrição do Minungo ascendeu à categoria de vila em 1934.

Actualmente a vila é o segundo maior aglomerado populacional da Lunda-Sul
Fotografia: Flávia Massua

A vila de Cacolo, na província da Lunda-Sul, assinalou a 23 de Junho 76 anos de existência, num misto de progresso e crescimento das suas infra-estruturas que encoraja os seus habitantes a trabalharem para a conquista, por mérito próprio, do ambicioso estatuto de cidade.
A conquista deste estatuto faz com que Cacolo seja a segunda cidade da província depois da capital Saurimo. A antiga circunscrição do Minungo ascendeu à categoria de vila a 23 de Junho de 1934, pelo Diploma Legislativo nº 15362, tendo Diogo Ferreira como primeiro administrador do Concelho.
A sua localização no estratégico corredor Oeste, na via Saurimo-Malange, com potencial de diamantes, solos excelentes para a agricultura e abundância de rios, impulsionou as autoridades coloniais a elevarem-na à categoria de vila. No passado, Cacolo era também conhecida pela produção alimentar em grande escala e pelo comércio e exploração de madeira, actividades que desapareceram durante a guerra.
A aposta na reconstrução permitiu a recuperação e apetrechamento de um hospital com capacidade para 30 camas, três escolas frequentadas por 15 mil alunos do ensino de base ao médio, instalações para a Administração, Procuradoria e representação da Comissão Nacional Eleitoral (CNE)
Os progressos registados incluem também a construção de três casas, sendo uma para a administradora, outra para o seu adjunto e uma casa protocolar. A vila tem os sinais da TPA e RNA, sistemas de telefonia fixa e móvel, energia eléctrica, cinco casas geminadas para quadros técnicos, um lar para estudantes, uma agência bancária, uma pousada, lojas e cantinas. Cacolo é uma vila em franco desenvolvimento urbano.
Com alguns problemas no domínio da limpeza urbana e organização urbanística, Cacolo corre para um futuro radiante, contando com a prestação de todas as forças vivas do município.

Recuperação do brilho

Para falar do passado, a reportagem do Jornal de Angola ouviu António Moutinho Cambuta, que vive há 37 anos em Cacolo. Foi funcionário da Agricultura e tem 35 anos de experiência no comércio. Mas a guerra levou-o à ruína. Agora procura crédito bancário para recomeçar a vida.
Sem as manadas de gado bovino de que era detentor, mas em posse de instalações para garantir crédito, “os bancos acham que os meus 60 anos são uma idade muito avançada”. Mas Cambuta promete viver  “muito além do tempo que muitos projectam para mim”.
António Cambuta lembra com orgulho o seu passado como empresário. Integrava o restrito grupo de cinco comerciantes “bem sucedidos” na província. O nível de gestão forçava outros operadores a solicitarem-lhe produtos alimentares para reposição de stocks em lojas baseadas na cidade de Saurimo.
Descreve que “Cacolo era uma vila limpa, arrumada, com água canalizada e energia”. Contava com uma serração que produzia barrotes, tábuas e outros derivados de madeira. Culpabiliza a guerra pelo atraso registado e reconhece os esforços do Executivo na reposição de condições dignas de vida no município.
O velho empresário entende que a pobreza e falta de emprego conduzem a práticas delituosas, cujo combate passa pela educação das comunidades e melhoria crescente do nível de vida das populações. E isso, segundo disse, depende também da actuação do sector privado local, que, reiterou, clama por apoio financeiro.
“Não pretendemos favores, mas que nos concedam crédito bancário para realizar os muitos projectos que temos em carteira e assim criar riqueza”, disse António Cambuta.
A adolescente Sónia Manuela, de 13 anos, estudante da 7ª classe, garante que o ensino na vila vai bem e é ministrado em três turnos diários, da iniciação à 10ª classe.
Sónia Manuela denuncia o hábito de alguns idosos da região tomarem por esposas meninas “na idade de serem suas netas”, como aconteceu com uma amiga da sua idade “abandonada por um idoso em estado de gestação. A minha amiga deixou de estudar e tem hoje, com um filho às costas, o futuro comprometido”, afirmou, defendendo uma maior atenção das autoridades.
 
Mensagem à população
 
A administradora de Cacolo, Idalina Issanzu, manifestou, durante os festejos dos 76 anos da vila, o seu reconhecimento a todos aqueles que trabalham para a elevação e dignificação de Cacolo. Idalina Issanzu agradeceu a todos pela “euforia incontestável” de centenas de pessoas que acolheram os convidados com a célebre frase na língua cokwe “Tambwokenu mu mbonge ya Cacolo”, que em português significa “Sejam bem vindos à vila de Cacolo”.
O vice-governador da Lunda-Sul, Domingos Kajama, em representação da governadora Cândida Narciso, vincou a necessidade dos professores aprofundarem pesquisas em torno das etapas que marcaram o surgimento da vila, para enriquecer os conhecimentos dos estudantes locais e outros interessados.
O Governo Provincial aposta no resgate do bem-estar das comunidades, através da construção de escolas, centros de saúde, instalação de sistemas de água e energia, sistemas de comunicação, lembrou o vice-governador. Domingos Kajama garantiu que “por detrás destes serviços virão outros”, apelando ao respeito, unidade de todos no trabalho, sem intrigas, para “transformar Cacolo em cidade”.

*Com Flávia Massua

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