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Unidos conseguimos relançar a Lunda-Sul

Adão Diogo e Flávia Massua| Saurimo

Ex-deputada da Assembleia Nacional, Cândida Maria Narciso acumula agora quatro anos de experiência como governadora. A província da Lunda-Sul é o terreno onde exerce a missão que começou com uma “prova de fogo”: uma manifestação por causa da insuficiência de salas de aula.

 

Fotografia: Francisco Bernardo



Ex-deputada da Assembleia Nacional, Cândida Maria Narciso acumula agora quatro anos de experiência como governadora. A província da Lunda-Sul é o terreno onde exerce a missão que começou com uma “prova de fogo”: uma manifestação por causa da insuficiência de salas de aula. A novel governadora, serena, encarou o facto e arregaçou as mangas. Hoje a situação está invertida: o hospital principal de Saurimo está descongestionado, há mais energia eléctrica e água para as populações. A governadora Cândida Maria Narciso tem na manga uma aposta, traduzida numa afirmação muita sua, de que “o petróleo da Lunda-Sul não são os diamantes, mas sim a agricultura”. Siga a entrevista:

Jornal de Angola - De deputada para governadora há quatro anos. Como encarou a nomeação para este cargo?

Cândida Narciso - Uma grande diferença, embora os dois cargos sejam políticos. Como deputada à Assembleia Nacional as decisões ou deliberações são tomadas pelo colectivo, mas como governadora a responsabilidade é assumida pela titular. Estamos a falar da perspectiva do género, porque os homens deixaram que assim acontecesse, graças ao nosso grande aliado o Presidente da República. A nível do Governo, neste mandato foi possível, pela primeira vez, três mulheres exercerem o cargo de governadoras provinciais.

JA - O que idealizou para o desenvolvimento da província quando foi nomeada, e o que concretizou?

CN - Era necessário vir e conhecer a província. Nos 16 anos em que exerci a função de deputada, feliz ou infelizmente, em nenhum momento passei pela província da Lunda-Sul, que conheci apenas em 1991, antes das eleições, como funcionária do Ministério da Educação. Do diagnóstico feito, constatamos carência gritante de infra-estruturas sociais. Isso entende-se, porque o país esteve mergulhado na situação de guerra e as estradas ficaram de alguma forma afectadas, o que não permitiu o desenvolvimento da província e a região Leste no geral. Concebemos um programa de recuperação de infra-estruturas da Educação. Quando cá cheguei em 2008 apenas existia uma escola secundária do primeiro ciclo e a prova de fogo foi a dos alunos manifestarem-se em frente ao edifício do governo da província, porque todos queriam estudar e não havia salas de aula suficientes. Diante disso, tomamos a decisão de matricular todos. Sabendo do risco de lotação nas turmas, era impossível seleccionar naquelas circunstâncias. De 2009 a 2011, dando corpo ao nosso lema “Unidos somos capazes”, aumentamos de uma para três as escolas e dividimos os 7.500 alunos por essas instituições, só na cidade de Saurimo. Podemos dizer que melhoramos substancialmente. Reconheço que ainda não atingimos a normalidade que é de 36 alunos por turma, mas penso que melhorou o acesso ao ensino no primeiro ciclo. Por experiência própria este sector é dos mais estruturantes no que diz respeito à personalidade do indivíduo e do desenvolvimento pessoal. Achei importante prestar maior atenção à Educação. Construímos também, ao nível de Saurimo, cinco escolas secundárias, de 14 salas cada uma e de 24 para o PUNIV, cinco lares para estudantes, com capacidade para 100 camas cada. Construímos também uma escola de formação de professores para dar sustentabilidade às escolas, em cada um dos municípios. Várias escolas do ensino primário foram erguidas, principalmente nas aldeias reunificadas, além de termos em curso outras infra-estruturas sociais. Atendendo que a educação começa no berço, implantamos cinco creches e igual número de CIC-CEC’s, em todos os municípios da província.

JA - E em relação à Saúde?
CN
- O sector da Saúde também esteve no centro das nossas atenções. Construímos nove centros e postos. Para garantir a segurança e tranquilidade às nossas populações, foram erguidas esquadras policiais nos três municípios do interior e postos, nas comunas e aldeias. Para dar comodidade aos respectivos comandantes, implantamos também as moradias. Construímos casas para alojar de forma condigna os administradores, técnicos, gestores e líderes tradicionais em várias localidades municipais e recuperamos algumas instalações para aproximar os serviços ao cidadão. Em várias comunidades que integram a província da Lunda-Sul, definimos kits de acções que culminaram com a construção de escolas, de três a seis salas cada, centros de saúde, casas geminadas para técnicos e jangos comunitários.
JA - E as vias de acesso?

CN - Fizemos um esforço no sentido de asfaltarmos cerca de 280 quilómetros de estradas, onde foi possível instalar 26 pontes, de carácter definitivo e provisórias, nas vias secundárias e terciárias.
JA - O facto de ser mãe e educadora (professora), que influência joga no trabalho que desenvolve?
CN - É verdade. É uma questão que nos torna diferentes, o homem na política e a mulher também, há aí uma grande diferença para nós como mulheres que somos mães de mulheres e de homens, onde automaticamente temos o dever de atender a todos os sectores e fragmentos. Por exemplo pela primeira vez na história da província com a ajuda da AJAPRAZ, temos infra-estruturas para acomodar os nossos idosos em todos os municípios, expulsos pelas famílias por acusação de feitiçaria. Para darmos cumprimento ao julgado de menor está em curso a construção de um centro de acolhimento dessas crianças. De forma faseada vamos apetrechá-lo de todas as condições para uma boa reabilitação das crianças no sentido de as devolvermos à sociedade como produtoras de boas acções. Tudo isso é consequência de ser mãe e humana.

JA - Está satisfeita com os níveis de execução das acções projectadas?

CN - Estou satisfeita, embora precise de trabalhar muito ainda.

JA - Os projectos executados são sequência daquilo que a senhora governadora encontrou do seu antecessor?

CN - São projectos realizados no nosso mandato. As obras que demos continuidade consistiram na reabilitação do Clube 17 de Setembro, do edifício das repartições públicas, etc.

JA - Como tem sido trabalhar no meio de três vice-governadores.

CN - Trago uma grande experiência da Assembleia Nacional onde as mulheres eram um total de 15 por cento. Aí aprendi a conviver com os nossos parceiros no trabalho. Não vemos mais a questão homem ou mulher. O importante é ter uma atitude proactiva e juntarmos sinergias para todos cumprirmos cabalmente o objectivo a que nos propusemos realizar.

JA - Além da limitação de verbas, que outros factores concorreram para o estrangulamento de alguns programas traçados?

CN - A nossa província regista um grande défice de quadros em diversos ramos. A força médica é maioritariamente expatriada. A limitação de verbas considero normal, porque Angola não é só a Lunda-Sul. Cada província tem os seus problemas específicos. Estamos a tentar superar estes problemas com a implantação da formação ao grau de licenciatura na Escola Superior Politécnica.

JA - Que sentimento lhe acorreu nos contactos mantidos com as populações em incursões pelo interior da província?

CN - Senti a necessidade de um esforço maior e tenho estado a procurar superar as carências que encontramos nestas áreas. Essa é a nossa missão, de acordo com as orientações baixadas pelo Presidente da República e do partido MPLA, que suporta o Governo e devolveu Angola aos angolanos.

JA - Alguma vez pensou em pedir demissão do cargo?

CN - Não! Sabe que existem coisas que acontecem na nossa vida e que a gente não sabe porquê. Enquanto parlamentar sempre ocupei a pasta de presidente da sexta comissão. Pensando na necessidade de conservar os neurónios fiz um mestrado em desenvolvimento pessoal e convivência social. Não sabia o que viria mas ajuda-me muito a encarar todo este desafio.

JA - É difícil agradar a gregos e a troianos? Como consegue o equilíbrio?

CN - Durante a formação tivemos uma cadeira de inteligência emocional, onde aprendemos a controlar as emoções, conhecer a forma de estimular as pessoas e não estou preocupada. O nosso dever é cumprir e fazer cumprir, nos termos da lei, as directivas superiormente baixadas e fazer o melhor possível de acordo com o bom senso.

JA - Por isso é afável?

CN - Acho que sim. Mas também eu estou entre 11 irmãos, criados pela nossa mãe, por perdermos, muito cedo, o nosso pai. Ela passou-nos esse lado feminino.

JA - É incansável. Qual é o segredo para tanta resistência?

CN - Os homens pensam que são mais do que nós. Eu tenho a impressão que se os homens tivessem a capacidade de dar à luz, o primeiro filho morreria na hora...
... Risos...
 ... Somos muito mais fortes. Somos seres humanos mas continuamos a sentir discriminação. Então, devemos estabelecer nas nossas relações empatia.

JA - Puxa muito a favor das mulheres!

CN - É isso mesmo. Precisamos de continuar a apostar nelas porque as exigências são sempre muito maiores. Penso que a par das mulheres serem emancipadas, os homens também precisam de ser. Não devo deixar de recordar o marido que tenho bastante emancipado porque se não fosse penso eu que possivelmente não estaria aqui.

JA - Das vezes em que a ministra do Ensino Superior, Ciência e Tecnologia escalou a província, foi notória a cordialidade na recepção. O facto de ser irmã gémea, acentua este pormenor?

CN - Sois testemunhas que uma das minhas características é ser afável. Sou assim com todos que recebo. Ministros e outros visitantes que vêm à nossa província. Claro, ela é minha irmã gémea, estivemos sempre juntas desde a barriga da nossa mãe, então é normal. Mas regra geral é igual.

JA - Que preocupações anseia resolver antes das próximas eleições?

CN - Vamos continuar a trabalhar na educação cívica das pessoas, como partido. De resto esperar que o povo faça a escolha certa.

JA - Dos quatro municípios que integram a província, nenhum deles está situado a menos de 100 quilómetros da sede provincial. Qual tem sido a filosofia para gerir este quadro?

CN - Devemos respeitar o princípio da descentralização. Temos feito visitas sempre que possível. Apelamos aos administradores a continuarem a supervisionar e periodicamente realizamos reuniões no quadro do Programa Integrado Municipal de Combate à Pobreza, o que nos tem aproximado do interior.

JA - O que dizem os líderes das comunidades nas audiências que concede?

CN - Uma das grandes preocupações e que muito gosto, todo mundo quer escolas nas suas comunidades. Isso é muito bom porque há algum tempo atrás as pessoas preocupavam-se apenas com o garimpo. Hoje a coisa mudou. Outro ponto é que com a expansão das novas tecnologias, toda autoridade tradicional quer um telemóvel, sinais de rádio e televisão nas suas aldeias. As necessidades do ser humano são cada vez mais crescentes. É assim mesmo.

JA - O programa água para todos já está mais avançado no interior em relação à energia.

CN – Sim. Está muito mais avançado. Não obstante isso, a cidade de Saurimo é uma das mais privilegiadas em termos de energia. Acho que ao nível do país não deve haver cidade que tenha energia 24h ininterruptamente e com o incremento que se fez no casco suburbano podemos considerar de positivo. Nas sedes municipais e comunais temos grupos geradores e a água estamos a instalar os sistemas pouco a pouco. No Programa de Investimentos Públicos (PIP), para este ano, temos em agenda a instalação de sistemas de iluminação solar.

JA - Como avalia o comportamento dos cidadãos em relação ao desempenho do governo?

CN - Melhor do que eu o Sr. jornalista pode apreciar. Mas vê-se na reacção como nos recebem com alegria. Penso eu que há uma certa satisfação, embora não possamos agradar a gregos e troianos.

JA - Que acção tem a imprensa no seu mandato?

CN - Estamos bem. Voltando ao lema “Unidos somos capazes”, cada um contribui com o seu saber e competência para o todo, que é a província. Estamos bem sincronizados.

JA - A preservação ambiental, acompanha este crescimento?

CN - Esta é uma luta que estamos a fazer, no que diz respeito a educação ambiental. Sabe que a nossa região foi tocada mais no fim do colonialismo, então alguns hábitos ancestrais continuam, como as queimadas, caçadas. Quando tivermos um depósito de enchimento de gás vai ser mais fácil distribuirmos às famílias, assim poderemos conservar melhor a natureza.

JA - Que papel joga a Sociedade Mineira de Catoca nos programas de desenvolvimento da província.

CN - Catoca é uma empresa mista e como tal, tem os seus próprios objectivos. Dentro do que assumiu no quadro da responsabilidade social há uma grande cooperação com o governo da província da Lunda-Sul, sempre atendendo as áreas mais vulneráveis com escolas, creches, cestas básicas e outros bens. Contamos também com a Igreja Católica, que junto da Sociedade Mineira de Catoca distribui merenda escolar bastante substantiva a mais de 35 mil crianças, em algumas escolas.

JA - Para quando uma nova centralidade em Saurimo e previsão para o arranque das obras?

CN - Começamos já um sub-programa de 600 casas nos municípios. Este é um programa monitorado directamente pelo Presidente da República, embora a execução seja local. Numa primeira fase, neste ano para cada município teremos 100 casas. Quanto a centralidade na cidade de Saurimo, ficou adjudicada à empresa SONIP, que começou a trabalhar noutros pontos do país e na sua segunda fase vem à nossa.

JA - Uma mensagem aos cidadãos…

CN - Agradeço a todos pelo apoio que me prestam, porque quando aqui cheguei era uma ilustre desconhecida, hoje praticamente todos estamos familiarizados. Peço que pratiquemos sempre o bem comum, guiados no nosso lema de que “Unidos somos capazes”, na concórdia, paz e harmonia, combatendo desta forma informações infundadas, boatos e especulação.

 

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