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Carruagens do comboio têm ar condicionado e sistema de vídeo

Fula Martins | enviado a Malange

A ligação ferroviária entre as províncias de Luanda, Bengo, Kuanza-Norte e Malange é já uma realidade após uma paralisação de 18 anos em consequência da guerra e sobretudo após o ataque no Zenza do Itombe em 10 de Agosto de 2001.

Comboio volta apitar a estação de Malange 18 anos depois
Fotografia: Rogério Tuty

A ligação ferroviária entre as províncias de Luanda, Bengo, Kuanza-Norte e Malange é já uma realidade após uma paralisação de 18 anos em consequência da guerra e sobretudo após o ataque no Zenza do Itombe em 10 de Agosto de 2001.
O comboio partiu às seis da manhã da estação do Baía e 25 minutos depois fez a sua primeira paragem na estação de Catete. A delegação ministerial, os convidados e jornalistas visitaram as instalações ferroviárias, todas construídas de novo. De seguida a locomotiva partiu em direcção à estação do Zenza do Itombe, onde foi prestada homenagem às vítimas do ataque de 10 de Agosto de 2001. Cumprida a homenagem, o comboio seguiu o seu curso com destino a Malange.
Quando os ponteiros do relógio marcavam 11 da manhã o comboio experimental de passageiros apitava na estação Ndalatando. O governador do Kuanza-Norte, Henrique Júnior apresentou cumprimentos à delegação que fez a viagem inaugural e o comboio partiu em direcção à província de Malange, onde chegou quando eram 16 horas.
O comboio inaugural de passageiros transportava a comitiva ministerial chefiada pelo ministro dos Transportes, Augusto da Silva Tomás. A locomotiva começou a apitar nos arredores do bairro Ritondo, despertando a atenção da população que ocorreu para testemunhar a chegada do comboio.
A viagem durou dez horas e ao longo do percurso a comitiva ministerial visitou as estações de Catete, Zenza do Itombe, Ndalahui, Luinha, Canhoca, Lucala e Ndalatando na província do Kuanza-Norte, Kizenga, Cambuze, Cacuso, Lombe e Malange, construídos no âmbito do programa de reabilitação e modernização das infra-estruturas do Caminho-de-Ferro de Luanda.
Todas as estações, com dois pisos, têm área administrativa, restaurante, posto médico, oficinas, casas para os trabalhadores, área de controlo de linhas e sala de passageiros.
Ao longo do traçado ferroviário Luanda/Bengo/Kuanza-Norte e Malange foram construídas 16 estações, 600 passagens hidráulicas, 40 pontes e pontões. As carruagens são totalmente climatizadas e equipadas com sistema de vídeo, serviço de bar e balneários. A Empresa Edições Novembro EP, proprietária do Jornal de Angola, Desportos e Economia e Finanças colocou à disposição dos convidados exemplares das suas publicações que rapidamente esgotaram.

Memória do Zenza

Durante o trajecto Zenza Itombe/Ndalahui, o comboio parou mais de 10 minutos no local onde aconteceu o ataque em 1991, para render homenagem a dezenas de pessoas que perderam as suas vidas.
A reportagem do Jornal de Angola conversou com Maria Antónia, uma das sobreviventes do ataque ao comboio no Zenza do Itombe, que recordou a data “com muita mágoa”. Com cicatrizes espalhadas pelo corpo, Maria Antónia lembra que nesse dia 10 de Agosto de 2001, apanhou o comboio para o Dondo onde ia ao funeral do seu pai.

Aplauso das populações

Nas diversas estações a população ovacionava o regresso histórico do comboio, depois de 18 anos de paralisação da circulação entre Luanda e Malange.
Lucrécia Calombe, camponesa, de 36 anos, disse ao Jornal de Angola que o regresso do comboio a Malange, 18 anos depois, “foi a maior prenda de Natal para a população da província e para os angolanos”.
Com esta facilidade de transporte “vou vender o meu bombô e outros produtos do campo em Luanda, o que era difícil fazer devido aos elevados custos de transporte”, disse Lucrécia Calombe.
Alexandre Baptista, soba do Lombe, realçou que a chegada do comboio “vai facilitar o transporte de pessoas e mercadorias em grande escala e aumentar o fluxo de passageiros”.
Osvaldo Salomé, 35 anos, morador no bairro Maxinde, disse que o retorno do comboio a Malange vai intensificar igualmente o escoamento dos produtos do campo para diferentes pontos do país.  “Graças a Deus, ninguém foi obrigado a partir os dentes para que o comboio chegasse à província de Malange”, disse.
Adão Miguel, soba do bairro Carreira de Tiro, frisou que a circulação do comboio vai melhorar a circulação de pessoas e bens e permitir a redução de mortes por acidentes de viação. Sublinhou igualmente a importância do comboio no escoamento dos produtos do campo para cidade. Celestina João viaja muitas vezes para Luanda. Para ela, “os passageiros vão ter a possibilidade de comprar comida dentro do comboio, situação que não se verifica nos autocarros e nos táxis”.
As obras de reabilitação e modernização da linha-férrea Luanda/Bengo/Kuanza-Norte/ Malange, iniciada em 2005 está agora concluída e novas perspectivas se oferecem às províncias servidas pelo comboio.
 Depois da proclamação da Independência Nacional, o Caminho-de-Ferro de Luanda entrou num período de decadência dada a redução da quantidade de carga transportada que era de 301 mil toneladas em 1973 e desceu para 54 mil em 1990. A perda de quadros qualificado, dificuldades financeiras, a falta de investimentos na linha e no material circulante e o conflito armado foram os factores que contribuíram para a paralisação do tráfego ferroviário. O Caminho-de-ferro de Luanda foi inaugurado em 1909 com uma extensão de 479 quilómetros incluindo os seus ramais.

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