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Cidade de Malanje vive dias de festa

Sérgio V. Dias e Adelino Ngunza | Malanje

A antiga povoação de Malanje foi elevada à categoria de cidade em 1932. Para esse feito, contribuíram a evolução extraordinária que conheceu, a sua localização geográfica privilegiada e as potencialidades turísticas, económicas e sociais. Capital da província com o mesmo nome, Malanje festeja 78 anos. 

Edifícios públicos antigos e emblemáticos ganharam novo brilho sob o impulso da reconstrução nacional
Fotografia: Rafael Tati

A cidade de Malanje assinalou oficialmente ontem, 13 de Fevereiro, 78 anos da sua existência. Este ano, à semelhança do ano passado, a cidade festejou o aniversário sob o lema “Malanje: a esperança por um futuro melhor”.
Para que a antiga povoação de Malanje fosse elevada à categoria de cidade, em 1932, contribuíram a evolução extraordinária que conheceu, a sua localização geográfica privilegiada e as potencialidades turísticas, económicas e sociais. 
Com uma superfície de 2.222 quilómetros quadrados, Malanje, a cidade capital da província do mesmo nome, tem duas grandes comunas: Kambaxe e Ngola Luíge. A norte, a circunscrição é banhada pelo rio Lombe e a sul pelos rios Kuije, Luximbe e Luhanda. No que se refere à zona este, a cidade é limitada pela comuna de Mufuma e a oeste pelo rio Kwanza, o maior de Angola.
O município sede da província, que serve de habitat à rara e imponente Palanca Negra Gigante, congrega no seu seio dezassete bairros: Azul, Barreiras, Campo de Aviação, Carreira de Tiro, Canâmbua, Centro da Cidade,  Kangambo, Kafuco-Fuco, Kala, Katepa, Kizanga do Bango,  Kizanga da Barraca, Maxinde, Polícia, Ritondo, Sambizanga e  Vila Matilde.
Para além destes bairros, Malanje conta com as povoações do Mvula Ngombe, Ngondo, Kissol, Kamatete, Zela, Cambondo, Kastembale de Cima, Kastembale de Baixo, Kamibafu, Kazundo, Kulamuxitu, Kassucina, Kassembele, Kinguila, Kifukussa Bande, Kambundi do Kuíje, Kissaco, Quéssua, Kibinda, Kamatende, Karianga, Karianga do Kuije, Kuije, Cambondo do Kuije, Katombe de Cima, Katombe de Baixo, Vanvala de Cima, Vanvala de Baixo, Kamakondeca e Kamibafu.
A localização geográfica da cidade transforma-a num armazém e ponto de escoamento da produção agrícola de toda a província.  
Segundo depoimentos prestados ao Jornal de Angola, Malanje constituía, em tempos recuados, um ponto de passagem obrigatória das comitivas de carregadores dos reinos de Kassanje e Lunda.
A prática da pesca artesanal, agricultura e caça fazem parte das actividades quotidianas da população malanjina. Tudo isso, como relata Pedro Lucombo, homem com profundos conhecimentos da cultura de Malanje, “facilita a vida dos habitantes da urbe, que fazem do produto dessas actividades a base da sua alimentação”. 
 
Uma localidade satélite
 
A localidade de Kissol é tida como um satélite da cidade de Malanje. Com uma extensão de 369 quilómetros quadrados e uma população estimada em cerca de dez mil habitantes, a região sobressai pela desenvoltura dos sectores agrícola e comercial. Para além da muralha da antiga fábrica de açúcar, o sino de bronze é outra grande referência da região. Datado de 1897, o sino está actualmente depositado no Núcleo Museológico, na sede capital da província.    

Contrariedades na data da festa
 
A data em que é comemorado o Dia da Cidade de Malanje é questionada por muita gente, que diz não condizer com a verdade dos factos. Tiago Mateus da Costa, regedor da Maxinde e cujo pai, falecido aos 115 anos, foi um dos primeiros habitantes do bairro da Katombe, relaciona o surgimento da cidade à chegada do caminho-de-ferro, em 1908. O mesmo opina que se faça “uma investigação histórica cuidada, para não escamotear a realidade do passado”.
De acordo com um documento a que o Jornal de Angola teve acesso, a 20 de Novembro de 1973 já se tinha comemorado o 103º aniversário da cidade, com a realização de actividades recreativas, desportivas e um banquete organizado pela Associação Comercial e Industria do Planalto de Malanje (ACIPM).   
O bispo da igreja católica Dom Luís Maria Peres de Honraita admite não existirem fontes escritas elucidativas, “porque a guerra que durou cerca de 30 anos fez perder-se muita coisa”.
“Hoje não há nada que nos possa aclarar factos do passado. Ainda assim, é preciso fazer alguma coisa para não se escamotear a história e passar-se o testemunho à nova geração”, disse. 
 
Cerca de oito décadas depois

A prosperidade da cidade Malanje, no passado, deveu-se a factores económicos, comerciais e até geográficos. Inicialmente o negócio da borracha e posteriormente a implementação da produção de algodão em toda a extensão da Baixa de Cassanje, o incremento do cultivo do arroz nas regiões de Luquembo e Kambundi Katembo, bem como o fomento da cultura do tabaco em Cacuso, contribuíram para o crescimento da cidade, que era, de certo modo, o grande ponto de armazenamento e escoamento de toda aquela produção agrícola. Os edifícios que constituem o casco urbano de Malanje têm a sua existência ligada ao “boom” do sector primário.
Malanje, segundo os historiadores, possuía no século passado uma feira comercial no Kabatuquila, a leste, onde se fazia a transacção de vários produtos e bijutarias, enquanto a oeste se desenvolvia o presídio do Pungo-Andongo, que acolheu os primeiros missionários, assim como a Feira de Kassanje. 
Fontes consultadas pela nossa reportagem dão conta de que os primeiros portugueses chegaram a Malanje a 13 de Fevereiro de 1811 e se instalaram na margem do Rio Kuije, em Kangandala, onde iniciaram as trocas comerciais com os autóctones. 
Em simultâneo, iniciaram a prática da agricultura de subsistência baseada na horticultura, batata, cebola, feijão, milho e tomate. 
De acordo com documentos a que tivemos acesso, em 1585 foi criado o presídio de Pungo Andongo, junto das famosas Pedras Negras, e em 1620 a capitania de Ambaca instalava a sua sede na confluência dos rios Lutete e Lucala.
 
Fixação dos colonos
 
Segundo fontes documentais, os autóctones da região de Malanje eram os gingas e bondos que, devido a quezílias originadas nos direitos costumeiros, se guerreavam constantemente. Este factor facilitou de sobremaneira a fixação dos portugueses, que se socorreram do auxílio de alguns nativos. Os portugueses consumaram a ocupação do território em 1839.
Em 1857 Malanje foi elevada à categoria de vila e sede do concelho com o mesmo nome. Em 1895 foi criado o distrito da Lunda, cuja sede passou para Malanje em 1896, por ordem do então governador Veríssimo Sarmento. A vila teve um papel de destaque como ponto de apoio às campanhas militares portuguesas que reprimiram a revolta camponesa na Baixa de Cassange, em Janeiro de 1961.
Em 1908 dava-se conclusão à construção do caminho-de-ferro Luanda-Malanje, que está tão umbilicalmente ligado ao destino da cidade e da província em geral.
 
Programa  de aniversário

 
Para saudar a data do 78º aniversário da cidade de Malanje, o Executivo de Boaventura Cardoso elaborou um vasto programa com actividades de carácter social, cultural e desportivo. O programa inclui corrida de motocross e debates radiofónicos. 
No âmbito das comemorações dos 78 anos da cidade estão a ser prestadas homenagens a mais de quarenta individualidades que contribuíram para o engrandecimento da região. O governo provincial dispôs-se a oferecer taças e outros incentivos aos diversos conjuntos musicais da província.  

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