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Colheita agrícola sem escoamento

Francisco Curihingana | Malanje

Os camponeses do município de Kunda dya Base, em Malange, produzem o suficiente para o consumo alimentar e para comercialização.

Grandes quantidades de bombô estão acumualadas por causa do mau estado das estradas que dificultam a sua de comercialização
Fotografia: Pedro Miguel

Os camponeses do município de Kunda dya Base, em Malange, produzem o suficiente para o consumo alimentar e até para comercialização. Mas neste momento os produtores da comuna do Milando têm mais de 50 toneladas de bombô armazenadas, sem a mínima hipótese de serem comercializadas.
Também existem excedentes de batata-doce e gergelim, a cultura típica da região.
O maior problema que os camponeses do município enfrentam, de acordo com o chefe da Estação de Desenvolvimento Agrário (EDA), João Manuel da Silva, reside na falta de comercialização dos produtos.
“Os camponeses da comuna do Milando têm armazenadas mais de 50 toneladas de bombô, que aguardam pela comercialização”.
João da Silva disse que a falta de escoamento dos produtos do campo tem criado desmotivação no seio dos camponeses. As estradas estão completamente degradadas e os camionistas e comerciantes evitam chegar ao município: “o estado lastimável das vias que dão acesso às localidades produtoras não facilita as coisas”, disse João da Silva.
O Governo Provincial garantiu às autoridades locais que vai tomar medidas. Por isso aposta no fomento da agricultura e está em curso o processo para a concessão de crédito aos camponeses.
Na presente campanha agrícola, disse João da Silva, “temos inscritas mais de 1500 famílias para a aquisição de crédito para desenvolver a agricultura aqui na região”.
O município do Kunda dya Base, segundo o responsável da Estação de Desenvolvimento Agrário, vai voltar a produzir algodão, cultura em que se notabilizou no passado.

Falta de quadros

O administrador municipal, Daniel Ferraz, garante que melhores dias estão para vir. “Com o Fundo de Apoio à Gestão Municipal estamos a mudar a imagem do município. Estão previstas acções nos mais variados domínios, para devolver o bem-estar às populações do Kunda dya Base”, disse à reportagem do Jornal de Angola.
“Estamos a recuperar as infra-estruturas, com realce para o hospital, que já foi apetrechado. Estão em curso as obras do edifício da Administração Municipal e a residência para o administrador. A reabilitação e construção de mais salas de aulas, para a inserção de mais crianças no sistema de ensino, também é um facto”.
Segundo Daniel Ferraz, o município vive um problema acentuado de escassez de quadros. De acordo com o administrador municipal, a falta de incentivos para os quadros transferidos de outras regiões, leva-os a abandonar o município.
 
Água imprópria
 
Uma das preocupações que tiram o sono às autoridades administrativas locais é a carência de água potável. Daniel Ferraz disse que a população “só não contrai doenças por muita sorte”. E acrescentou que “temos problemas muito sérios no domínio da água. Aqui na sede do município é imprópria para consumo”, referiu.
O governador e primeiro secretário do comité provincial de Malange do MPLA, Boaventura Cardoso, em visita ao município, manifestou preocupação com a falta de qualidade da água: “o governo de Malange tem que prestar a devida atenção a este problema e vamos agir imediatamente”, afirmou.
Boaventura Cardoso apontou o caminho para resolver o problema: “temos o Programa Água para Todos, que é um programa comunitário a nível provincial, mas também temos outros recursos, que vamos usar, para que haja água potável junto das comunidades”.
As populações do Kunda dya Base, para conseguirem água, têm de percorrer longas distâncias. Sensibilizado com o sofrimento da população, o governador Boaventura Cardoso garantiu que tudo vai fazer para resolver a situação.
 
Educação e saúde

No município do Kunda dya Base as enfermidades mais frequentes são a malária, diarreias, conjuntivite e sarna. A má qualidade da água consumida é responsável por grande parte dos casos.
O centro de saúde municipal foi reabilitado e ampliado. Actualmente tem capacidade para internar oito pacientes. Aumentou igualmente a capacidade de internamento de crianças. 
De acordo com o chefe da repartição municipal de Saúde, Juarez Henriques, o centro de saúde não tem problemas no que toca aos medicamentos, uma vez que a Direcção Provincial da Saúde os fornece pontualmente.
A área da saúde tem 16 técnicos no município, espalhados pela sede municipal e comunas de Milando e Lemba, e pelo sector de Máquina. O desafio do momento passa pela melhoria dos postos de saúde, que não oferecem as melhores condições de trabalho para os técnicos e acomodação de doentes, pois estão instalados em casas de pau a pique.
No quadro do Fundo de Apoio à Gestão Municipal, a administração adquiriu uma ambulância que evacua os doentes graves para o Hospital Geral de Malange.
No capítulo da educação, devido à falta de professores, 194 crianças estão fora do sistema de ensino. A situação pode ter solução em breve, uma vez que foram recentemente admitidos 21 professores.
O número, de acordo com o chefe de repartição local da Educação, Silvano Kissua, vai minimizar os problemas educacionais do município, que tem no presente ano lectivo, 2299 alunos.
A aposta das entidades administrativas locais está virada para o aumento do número de salas de aulas nas comunidades mais remotas, para inserir mais crianças no sistema de ensino.
Com 5.089 quilómetros quadrados, o município de Kunda dya Base, que fica 172 quilómetros a nordeste da cidade de Malange, conta, para além da sede, com duas comunas, Milando e Lemba. A sede municipal do Kunda dya Base no tempo colonial chamava-se Monte Alegre. Foi elevada à categoria de vila em 1964.
A origem do nome “Kunda dya Base” tem a ver com um episódio da resistência ao colonialismo.
Contam os mais velhos que em 1961, no auge da repressão, na sequência dos acontecimentos da Baixa de Cassange, de que a localidade foi um dos principais palcos, os membros mais renitentes da população local eram submetidos a chicotadas nas costas.
 Logo depois da independência, o nome da vila passou de Monte Alegre para Kunda dya Base, expressão em kimbundo que na língua portuguesa significa “Costas Rebentadas”.

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