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De Cabo-Verde a Angola

Sérgio V. Dias|

Boaventura Dias é um nome que pode não dizer nada para muitos angolanos, mas que na verdade é do domínio de muitos malanjinos, pelos muitos anos que o seu detentor carrega nos ombros de vivência nesta cidade da Palanca Negra Gigante. 

Boaventura Dias elegeu Malange onde vive há mais de 40 anos como sua terra
Fotografia: Genivaldo Fonseca

                       

Boaventura Dias é um nome que pode não dizer nada para muitos angolanos, mas que na verdade é do domínio de muitos malanjinos, pelos muitos anos que o seu detentor carrega nos ombros de vivência nesta cidade da Palanca Negra Gigante. 
“Senhor Tuia”, nome por que é apelidado em Malanje, é um cabo-verdiano de gema que reside há 48 anos em Angola, 42 dos quais nesta província do Nordeste do país. Na conversa mantida com o Jornal de Angola, em Malanje, disse que não consome bebidas alcoólicas, não fuma e que nunca fez uso de drogas.
Embora seja proprietário da maior fazenda de hortofrutícolas de Malanje, Boaventura Dias sublinha ainda que não come repolho, cenoura, pepino, pimento, nem tão pouco faz uso de óleo de palma.
Dos costumes da terra que o viu nascer, guarda apenas o “funaná”, a “morna”, a “coladera” e o seu bom crioulo, que nenhum dos seus dezasseis filhos aprendeu. “Por causa da grande vivência em Angola e em Malanje, esqueci-me da cachupa”, disse. De trato fácil e brincalhão por excelência, o “Senhor  Tuia” lembra que, em 42 anos de vivência em Malanje, frequentou  22 casas.
O interlocutor do Jornal de Angola sublinhou também que já fez três empréstimos bancários que, mesmo autorizados, nunca chegara a levantar nenhum. E disse mais: “estou há 17 anos na Adra, consegui aguentar vivo e sem sofrer de tensão, chefes como Fernando Pacheco, Silas, Quim Fernandes, Manteiga e a dona Cândida”.
Boaventura Dias fala também do seu percurso como desportista e futebolista, particularmente. />“Joguei nas equipas sportinguistas de Luanda, Maianga, da Cela e do Huambo, respectivamente”, frisou, recordando também que marcou 45 penalties, antes de falhar o primeiro destes na sua trajectória como futebolista.
Outro aspecto que guarda bem na memória em termos desportivos tem a ver com um jogo realizado no Estádio dos Coqueiros, antes da Independência Nacional. “Nesse jogo, actuei como titular da selecção de Malanje diante do Progresso e estava um senhor chamado José Eduardo dos Santos sentado no banco da equipa do Progresso do Sambizanga”, assinala o interlocutor do nosso jornal.
Filho de Pedro Rodrigues Tavares e de Virgínia Dias, Boaventura Dias obteve a nacionalidade angolana, exibindo hoje, em consequência disso, o bilhete de cidadão nacional número 00064785OE031. Além de se dedicar à actividade agrícola, desde a sua chegada a Angola em 1962, com dezoito anos, e isto após uma curta passagem por Portugal, o mais velho Tuia experimentou outras tarefas na então província ultramarina lusa.
“Como era sargento e mecânico de especialidade nunca cheguei a fazer um combate”, lembra o “Senhor Tuia”, recordando, também, que dos dezasseis filhos que tem hoje, além de uma que faleceu por atropelamento em Malanje, nove são raparigas e sete rapazes. E disse mais: “dois deles nasceram na Cela, Kwanza-Sul, e os restantes em Malanje”.
Outro facto que guarda na sua memória tem a ver com a única passagem por Cabo Verde desde que se radicou em Angola.
Nesse sentido, lembra que passara em trânsito pela terra natal em 1986, quando se deslocara a Cuba “para fazer um curso de multiplicação rápida da mandioca”. “Não houve tempo para chegar a casa”, disse.

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