Províncias

Já houve muitas mudanças mas ainda falta fazer muito

Sérgio V.Dias|

Entre o cepticismo e o optimismo de uns, Dom Luiz Maria Pérez de Onraita Aguirre fala sem rodeios, quando o assunto se prende com Malanje, província que conhece como a palma da sua mão.

Prelado católico acredita que as melhorias registadas na sede provincial podem expandir-se para os demais municípios de Malanje onde a situação ainda é pertinente e complexa
Fotografia: Dombele Bernardo

Entre o cepticismo e o optimismo de uns, Dom Luiz Maria Pérez de Onraita Aguirre fala sem rodeios, quando o assunto se prende com Malanje, província que conhece como a palma da sua mão. Sem precisar  de recorrer à profecia da bíblia sagrada, o arcebispo de Malanje falou exaustivamente do que foi feito na região ao longo desses anos. No essencial da entrevista, disse que “muito mudou, mas há ainda muito por se fazer”.
“Conheço Malanje há muitos anos e o que posso aferir aqui é que a província conheceu nos dias de hoje muitas mudanças”. Foi com esse discurso categórico que o arcebispo de Malanje começou por caracterizar a realidade da província.
Dom Luiz Maria recordou, nesse particular, que Malanje conheceu uma fase de “guerra violenta” e que “a população sofreu bastante com essa situação”.
“Muita coisa foi destruída na província. De certo modo, a sede provincial, Malanje, e o município de Cacuso foram, ao longo desse período, as regiões menos sufocadas por esse manto de destruição provocada pela guerra”, disse. Os demais doze municípios da província, recordou o prelado católico, estavam sitiados pelas forças da UNITA. “Isso por si só explica muita coisa que ocorreu em Malanje ao longo destes anos”, argumentou Dom Luiz Maria.
“Felizmente, com a chegada da paz no país, as coisas melhoraram substancialmente. Como se pode sublinhar, viveu-se sob o manto da guerra e, depois, com a chegada da paz pintou-se um quadro maravilhoso, cujos resultados estão agora bem visíveis”, disse. Dom Luiz Maria Pérez de Onraita Aguirre realçou, também, que durante a guerra havia desagregação das famílias na província. “Hoje, há um ambiente de tranquilidade e os malanjinos podem viajar para os diferentes pontos do país sem sobressaltos”, disse.
Por essa dádiva suprema, que traduz a paz, o prelado católico realça que se deve agradecer a Deus e ao grande empenho do Executivo na conquista desta e da reconciliação nacional entre os angolanos.
Dom Luiz Maria acrescenta que a cidade de Malanje de hoje difere daquela dos tempos da guerra. “Muita coisa mudou, mas ainda assim não podemos cantar maravilhas nem vitórias, porque há ainda muito por se fazer na província”, advertiu o arcebispo.
O responsável máximo da Igreja Católica em Malanje aborda o período de paz e de harmonia reinante, mas ainda assim focaliza os inúmeros problemas enfrentados em certos domínios, sobretudo no tocante às infras-estruturas destruídas durante a guerra. “Somos interpelados diariamente por cidadãos de outras províncias do país e do estrangeiro sobre os passos tímidos de desenvolvimento que Malanje dá. Nesse sentido, temos que admitir que em comparação com outras províncias do país, em Malanje, o desenvolvimento está a ocorrer de forma lenta”, disse.
Não obstante isso, admite que houve também coisas boas. “Houve melhorias na rede de distribuição de energia eléctrica e de água, quer na periferia da cidade, quer nos bairros, com os vários projectos traçados pelo Executivo central e provincial”, justifica.
Já no que se refere aos demais municípios de Malanje, Dom Luiz Maria disse, sem rodeios, que enfrentam ainda “múltiplos problemas” e por esse facto considera a situação “bastante pertinente e complexa ao mesmo tempo”.
“Neste momento, quando se viaja por muitos dos municípios de Malanje, a sensação que se tem é de que a guerra ainda não terminou. Massango, Marimba, Cahombo, Kambundi-Katembo, Luquembo e Quirima são os exemplos mais vivos do quadro sombrio que se pinta ainda hoje em muitos dos municípios de Malanje”, disse.
Acrescenta, nesse particular, que essas regiões enfrentam dificuldades no domínio de estradas e de outras especificidades. “No capítulo da saúde e da educação, essas regiões deparam-se, também, com um quadro bastante desolador”, frisou.
O arcebispo de Malanje sublinha que essa caracterização é feita pela própria população da província. “Muitos dos cidadãos com quem dialogamos alegam que muitas das províncias do país, particularmente da zona Sul, conhecem hoje um nível de desenvolvimento mais significativo em relação a Malanje e outras regiões do Norte. É uma reclamação quase que generalizada. Por isso, acredito que isto corresponde à verdade. É uma situação que nos alarma e preocupa”, sentenciou Dom Luís Maria.
Apesar disso, o prelado católico mostra-se esperançado num futuro melhor. Nesse sentido, justifica os projectos traçados pelo executivo provincial nos vários domínios, particularmente nos inerentes à rede de distribuição de energia e água.
Assinala também as grandes conquistas alcançadas no sector dos transportes, como a reabertura do aeroporto provincial, o regresso do comboio, assim como o aumento da frota rodoviária, que permite hoje a ligação entre vários municípios e as outras províncias. “Esse aspecto traduz uma mais-valia e um aspecto bastante positivo”, disse.
Na óptica de Dom Luiz Maria, “o comércio também melhorou em Malanje”. Refere, acrescentando, que em relação ao sector industrial, o quadro ainda não é o mais salutar. “Acabamos de testemunhar no final do ano transacto a inauguração de duas fábricas de água mineral, mas isso ainda é muito pouco para um sector que assume um papel crucial, como é o caso da indústria. Penso que a indústria deveria ser mais funcional em Malanje por constituir um investimento a longo prazo”, justiçou.
Dom Luiz Maria disse, por outro lado, que as dificuldades enfrentadas no domínio das estradas emperram também o desenvolvimento da província. “Para se combater a pobreza na província, é urgente solucionar os múltiplos problemas que Malanje enfrenta hoje no domínio de estradas, pois pela ineficiência que estas apresentam, hoje, registam-se muitas dificuldades no escoamento dos produtos do campo para a cidade”.

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