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O homem que fez da fotografia o seu ofício

Sérgio V.Dias|

"Paulo Stop" é o pseudónimo de Paulo João Damião. Nascido a 28 de Junho de 1941, na povoação evangélica de Muquixe, antigo Muncari, hoje município do Caculama, o antigo fotógrafo é uma referência incontornável em Malanje.

O fotógrafo e comerciante Paulo Stop
Fotografia: Eduardo Cunha

                                     
"Paulo Stop" é o pseudónimo de Paulo João Damião. Nascido a 28 de Junho de 1941, na povoação evangélica de Muquixe, antigo Muncari, hoje município do Caculama, o antigo fotógrafo é uma referência incontornável em Malanje.
Filho de João Damião e de Serafina Francisco Duarte, já falecidos, Paulo Stop confessa ao nosso jornal que este pseudónimo surgiu pelo facto de ser uma pessoa que andava e, simultaneamente, parava muito.
“Eu andava e parava muito, para tirar fotografia para os cartões de residência. Comecei esta actividade no Muquixe e depois mudei-me para o Quela em 1961, altura em que fui preso pela Pide, no exercício desta actividade”, disse.
A sua guia de soltura foi assinada por Gil Germano Gonçalves Ferreira, então secretário do conselho distrital.
“Um tio meu, chamado Joaquim Ramos Duarte, mandou-me fazer fotografias numa povoação perto de Muquixe que se queimara em pleno dia”, disse, lembrando que a sua guia de soltura com o número 28.462, datava de 27 de Fevereiro de 1962.
Paulo Stop conta que a sua paixão pela fotografia surgiu em 1958, com 17 anos. Tudo começou com a arte de pintura e a inspiração em algumas figuras que já estavam nesse ofício, caso particular de David Morais. “Foi assim que tudo começou”, disse
O interlocutor do Jornal de Angola recorda, por outro lado, que se desligou da actividade fotográfica em 1983, altura em que foi preso na sequência do “Processo 105”, de julgamento de negociadores de diamantes.
Paulo Stop, cujos negócios expandiram-se para as áreas de comércio e de camionagem, recorda uma ocasião em que fora interpelado, surpreendentemente, em 1964, em Malanje, por Pestana de Frecho, responsável do então distrito, para regularizar a sua actividade fotográfica.
“Pestana de Frecho mandara-me chamar pouco depois de eu ter saído do distrito. Eu já estava a descansar e fiquei surpreendido com essa chamada”, recordou.
Nessa altura, conta, Pestana Frecho apresentou um documento proveniente do gabinete do governador de Angola, Silvino Silvério Marques, que foi encaminhado para Carlos Garcia de Carvalho Azevedo, então governador do distrito de Malanje.
“A partir daí, recebi o tal documento que me credenciava para fazer fotos. Arranjei duas testemunhas para obtenção de crédito para o início do exercício da actividade. Obtive um crédito de 15.000 escudos, com o testemunho de Roque dos Santos, funcionário da administração, e do meu amigo Miguel dos Santos, que trabalhava na Cotonang”, disse.

A ida ao Congo

Desse período até ao ano de 1983, foi alternando o ofício de fotografia com o comércio e a actividade de camionagem.
Nessas andanças, Paulo Stop alternou a terra que o viu nascer com Nharea, na província do Bié, Cafunfo, na Lunda-Norte, Dondo, no Kwanza-Norte, e Luanda, a partir de 1973.
Nestas duas últimas cidades, tem ainda hoje casas comerciais, onde ao longo destes anos foi fazendo os seus negócios “que conheceram altos e baixos”. Hoje, Paulo Stop continua a exercer a actividade comercial na província da Lunda-Norte e em Malanje, sua terra natal, onde tem, desde Outubro de 1975, o “Hotel Kigima” – expressão quimbundo que na língua de Camões significa “apaga” – com 23 quartos.
Pai de dez filhos, dentre eles oito raparigas e dois rapazes, Paulo Stop lembra, também, que chegou a deslocar-se ao Congo Democrático, numa comitiva que incluiu outros dois angolanos e muitos portugueses, para assistir a um combate de boxe.
“Não fui simplesmente ao Congo para assistir a esse combate do século entre Mohamed Ali e George Foreman, dois pugilistas de alta fasquia, mas também para localizar o meu irmão, que trabalhou na Diamang e aí se encontrava”, lembrou.
Paulo Stop disse que nessa viagem se hospedou no Hotel Intercontinental  e chegou também a tirar uma fotografia em frente à casa de Mobutu Sese Seko, ex-presidente do então Zaire, facto que levou muita gente a pensar que tivesse afinidades com este.

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