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Onde quase tudo ainda está por fazer

Sérgio V. DIAS |Quirima

 O município de Quirima, na província de Malange, apresenta, bem pronunciados, sinais típicos de uma região profundamente marcada pela guerra. Situado a cerca de 310 quilómetros da cidade de Malange, Quirima faz fronteira, a sul e a este, com os municípios de Kambundi-Katembo e Lukembo, e a sul e a leste com as províncias do Bié e da Lunda-Sul.

 O município de Quirima, na província de Malange, apresenta, bem pronunciados, sinais típicos de uma região profundamente marcada pela guerra. Situado a cerca de 310 quilómetros da cidade de Malange, Quirima faz fronteira, a sul e a este, com os municípios de Kambundi-Katembo e Lukembo, e a sul e a leste com as províncias do Bié e da Lunda-Sul.
Para chegar ao município a equipa de reportagem do Jornal de Angola gastou aproximadamente seis horas, dado o estado de degradação das estradas, que lhe dão acesso. Em condições normais a viagem seria de pouco mais de duas horas e meia.
Integrando a caravana encabeçada pelo governador de Malange, Boaventura Cardoso, em plena manhã de quinta-feira, 8 de Julho, a equipa de reportagem do Jornal de Angola fez uma viagem sem sobressaltos até a comuna de Caxinga, no município de Caculama. Deste último ponto, no desvio de Mussolo até a região de Tala Mungongo (“Veja o Mundo”, em português), no município de Kambundi-Katembo, foi um verdadeiro tormento.
O percurso precário estende-se até a ponte sobre o rio Jombo, que separa os municípios de Kambundi-Katembo ao Luquembo, este último situado a 275 quilómetros da sede provincial de Malange.
A comitiva fez uma paragem na comuna de Dumbo Cabango, para o almoço, seguindo depois para o Luquembo, onde a administradora Rosa André Lourenço deu as boas vindas à delegação. 
Quirima, tal como Kambundi-Katembo e Luquembo, fazem parte da região Songo de Malange. A maioria da população local mergulha o seu quotidiano nos rituais songo, em sã convivência com grupos minoritários umbundo e tchokwe, oriundos das províncias do Bié e Lunda-Sul.
Nelo de Carvalho, jornalista da Rádio Nacional de Angola (RNA) em Malange, contou à nossa reportagem um episódio marcante que viveu em 2003. “Numa viagem que fizemos a esta região songo, deparamo-nos com crianças com mais de 14 anos que nunca tiveram oportunidade de ir à escola e que nem sequer sabiam falar português”, recordou.
Outros membros da caravana deram largas às suas memórias, diante do que observavam. “A região songo de Malange enfrentava um período agitado e numa dada ocasião o helicóptero em que seguíamos foi atingido, mas, felizmente chegamos a Malange sãos e salvos”, recordou um dos integrantes da comitiva.
Passados oito anos deste Abril de 2002, a guerra é apenas uma lembrança que o tempo se encarregará de diluir nos sinais espalhados pela região. Os filhos de Quirima olham para o futuro com muita esperança, como realça o administrador municipal, Daniel Lopes, ao dizer convicto, que “o quadro vai melhorar faseadamente”.
O governador da província de Malange, Boaventura Cardoso, mais uma vez, realçou os ganhos da paz. “Estamos felizes porque estamos em paz, há oito anos. E, graças a essa paz conseguimos viajar até Quirima sem problemas de maior. Podemos, ao nível do país, fazer obras em vários domínios, nos sectores da educação, da energia, da saúde, das águas, das estradas, para melhorarmos as condições de vida das nossas populações”, afirmou.
“Percebemos que há muita força de vontade e empenho por parte da administração municipal de Quirima, mas falta muita coisa”, assinalou o governador.
Boaventura Cardoso destacou a urgência de se trabalhar em Quirima para se ter mais escolas, postos médicos, energia eléctrica, água potável e, acima de tudo, uma melhor estrada para ajudar no desenvolvimento do município.
 
Saúde e educação

 
Lucas Mendonça, chefe de repartição municipal da Saúde, assegurou que o quadro actual do sector está longe de corresponder às necessidades. O responsável deu a conhecer que neste momento o Hospital Municipal tem disponíveis apenas 16 camas. O número de profissionais de enfermagem não ultrapassa os 14, o que, claramente, está igualmente aquém das necessidades. Lucas Mendonça lembrou, que nesta altura a malária e a lepra são as doenças que mais têm maltratado a população do município.
Quanto a educação, Pedro Moniz, disse que este ano está matriculado um total de 4.990 alunos da iniciação ao I ciclo. O chefe da Repartição de Educação de Quirima recordou, que, devido à escassez de professores e de salas de aulas, 5.283 crianças estão fora do sistema normal de ensino. Para suprir o défice de docentes, referiu, “são necessários pelos menos mais 220 professores.
 
Registos de nascimento
 
À semelhança do que acontece em outros municípios da província de Malange, Quirima debate-se também com a falta de serviços de registo e notariado. Por essa razão, há imensas crianças sem cédulas e muitos jovens sem Bilhete de Identidade. Fruto disso, o governador Boaventura Cardoso apontou a necessidade de se resolver esse problema de modo urgente. “Temos que resolver esses problemas com a máxima urgência. É, evidente que nem tudo depende de nós, mas vamos ter que trabalhar com os sectores que intervêm na solução desses problemas”, disse.
Das várias obras em curso na municipalidade de Quirima destacam-se a construção de residências para os quadros da educação e da saúde. Está ainda em curso a construção da nova sede da administração municipal, assim como a reabilitação do troço de estrada entre a sede municipal e a comuna de Sautar, numa extensão de 60 quilómetros.
O município de Quirima, com uma população estimada em cerca de 50.000 habitantes, é uma região essencialmente agrícola, sobressaindo, entre as várias culturas, a do arroz. O município tem potencialidades turísticas ainda por explorar.
O município de Quirima é composto por cinco comunas, nomeadamente Rimba, Dombo wa Zanga, Kapunda, Kunga Palanga e Kimbango.

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