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Um gigante adormecido

Francisco Curihingana|

Mukulu-a-Ngola está situado na região dos Dongos, município de Marimba, a cerca de 226 quilómetros da cidade de Malanje. É uma referência histórica de Angola por aí se localizarem as sepulturas de Ngola Kiluanji, Njinga Mbandi, Ngola Kanini, Mbinge-a-Mbandi e outros que se opuseram à ocupação colonial.

Rei Buba Nvula refere que as campas do Mukulu-a-Ngola desmentem as informações de que os Ngolas despareceram após a sua morte
Fotografia: Eduardo Cunha

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Mukulu-a-Ngola está situado na região dos Dongos, município de Marimba, a cerca de 226 quilómetros da cidade de Malanje. É uma referência histórica de Angola por aí se localizarem as sepulturas de Ngola Kiluanji, Njinga Mbandi, Ngola Kanini, Mbinge-a-Mbandi e outros que se opuseram à ocupação colonial.
Para entrar no local santo, os visitantes devem, necessariamente, usar panos e caminhar descalços, de acordo com a tradição. Isso, como se relata, serve para honrar os espíritos dos reis que aí repousam.
Antes, passa-se por uma barreira formada por oito homens que prestam serviço de guarnição ao local santo. Eles estão aí dia e noite.
Os túmulos estão divididos em duas cabanas. Na primeira, repousam os restos mortais do rei Ngola Kiluanji e os da rainha Njinga Mbandi, enquanto na segunda, os de Mbinge-a-Mbandi e os do padre capuchinho Ngunza, que era o escrivão da rainha.
A existência das campas desmente as informações segundo as quais os Ngolas desapareceram logo após a sua morte. “Os Ngolas não desapareceram, foram sepultados e as suas sepulturas encontram-se protegidas por guardiões sagrados”, assegurou o rei Buba Nvula Dala Mala.
Informações colhidas no local pelo Jornal de Angola aconselham os visitantes a não entrarem nas cabanas que resguardam as campas, sob o risco de quem assim proceder vir a perder a fertilidade.
As árvores à volta das campas não podem ser cortadas, porque, segundo explicações de testemunhas, na primeira vez que aconteceu a região dos Dongos registou inúmeras desgraças que levaram muitas vidas humanas. As ruínas da antiga corte da capital da Matamba e a residência da rainha Njinga Mbandi ainda registam vestígios.
 
Espada do capitão Paulo Dias de Novais
   />Na localidade de Cabombo, onde vive o Rei Buba Nvula Dala Mana, um grupo de jornalistas que aí se deslocou teve a oportunidade de constatar alguns meios apreendidos em batalhas travadas no passado com o exército português.
A espada do capitão Paulo Dias de Novais, morto na batalha de Massangano em 1589, alguns artefactos como a bandeira, a coroa e algumas bijuterias da rainha Njinga Mbandi que, actualmente, são usados pelo rei Cabombo, continuam conservados.
Aos jornalistas, foi apresentada a guardiã do fogo, deixado pelo rei Ngola Kiluanji, que continua aceso até hoje. Explicações dadas no local indicam que caso se apague pode criar desgraças à população, daí a sua preservação.
 
Baptismo da rainha Njinga Mbandi
 
A rainha Njinga Mbandi, logo após o seu baptismo, passou a chamar-se Ana de Sousa. Explicações que a equipa de reportagem deste jornal colheu no local apontam que Njinga Mbandi aceitou o baptismo por uma questão estratégica.
Na altura, as irmãs Cambo e Mbinge encontravam-se presas na área do Lutete, hoje Pungo Andongo, município de Cacuso. Para evitar o pior, Njinga Mbandi rendeu-se à fé cristã e aceitou ser baptizada na Igreja Católica. Depois de resgatadas, as irmãs regressaram para a região dos Dongos. Com o seu resgate, Njinga Mbandi ainda travou uma batalha na região da Matamba (Kalandula), com os colonos portugueses.
Os Ndongos afirmam que a sua realidade está deturpada. Não há especialistas para aprofundar os estudos da realidade histórica do Ndongo, que hoje por hoje pode ser considerado um gigante adormecido. A necessidade de um estudo aprofundado da realidade dos reis do Ndongo para as gerações vindouras terem conhecimento do quanto contribuíram para o processo histórico de Angola foi sustentada pelo secretário do rei Cabombo, Amador Muzombo.

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