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Médicos expatriados abandonam o Hospital Municipal do Soyo

Jaquelino Figueiredo | Soyo

O atendimento médico e medicamentoso no Hospital Municipal do Soyo, no Zaire, é deficiente, tudo porque alguns especialistas estrangeiros estão a abandonar a unidade sanitária, por não receberem salários há quase um ano, apurou ontem o Jornal de Angola.

Parte frontal do Hospital Municipal do Soyo, onde vários médicos expatriados estão a reclamar pelos seus salários
Fotografia: Edições Novembro


Entre os médicos constam dois russos, que asseguravam serviços nas áreas de ortopedia e cardiologia, que decidiram rescindir o vínculo contratual com o empregador, por falta de pagamento dos seus salários, desde Janeiro do corrente ano.
O abandono está ser caracterizado de preocupante por parte da direcção geral daquela unidade hospitalar de referência no Soyo, uma vez que os dois médicos russos, que regressaram ao seu país, prestavam serviços imprescindíveis aos cidadãos, cujas áreas encontram-se actualmente desprovidas de técnicos. O director geral e médico de clínica geral do Hospital Municipal do Soyo, Pedro José António, confirmou, em entrevista ao Jornal de Angola, o abandono dos dois especialistas russos, que prestaram serviços de ortopedia e cardiologia àquela unidade sanitária, durante 14 anos.
“Esta situação é extremamente preocupante para nós, enquanto principal unidade hospitalar do Soyo. Quando chegamos aqui, há cerca de sete meses, na direcção deste hospital, confrontámo-nos com esta situação, de que os médicos expatriados, concretamente os russos, estavam agastados por não receberem salários há quase um ano”, disse o director clínico. O Ministério da Saúde, com quem têm contrato, depara-se com dificuldades e não tem estado a conseguir pagar os salários desses expatriados a tempo, por causa da crise, acrescentou Pedro António.
Segundo Pedro António, em Março último a ministra da Saúde, Sílvia Lutukuta, havia garantido, aquando da sua visita ao município do Soyo, tratar a questão salarial de todos os expatriados que prestam serviços de assistência médica e medicamentosa aos cidadãos locais.
O médico Pedro José António acrescentou que o regresso ao seu país dos únicos especialistas de ortopedia e cardiologia que a unidade de saúde tinha à disposição constitui preocupação, porque o município tem tido muitos acidentes de viação e a falta de técnicos complica a assistência aos feridos.
“Estamos preocupados, porque o município do Soyo tem tido muitos acidentes de viação e um ortopedista faz-nos imensa falta. O director do Gabinete Provincial da Saúde está a fazer de tudo para que um dos ortopedistas de Mbanza Kongo, que nesse momento tem dois, venha para cá, mas também disse-nos que já encaminhou o pedido ao Ministério da Saúde, para que nos mande um ortopedista”, frisou.
Para os casos graves de fracturas ósseas, resultantes de acidentes de viação e não só, o médico Pedro José António assegurou que têm tido o apoio do ortopedista do centro de saúde da Marinha de Guerra Angolana. 
No concernente ao sector de cardiologia, o director geral do Hospital Municipal do Soyo mostrou-se igualmente preocupado, apesar de médicos de medicina geral poderem atender casos tidos como hipertensão simples, sendo os graves encaminhados para Mbanza Kongo ou Luanda. “Temos uma técnica superior em cardiopulmonologia, que tem estado a fazer electrocardiogramas muito bem”, frisou Pedro António.

O director geral do Hospital Municipal do Soyo disse que a solução, para resolver a falta de especialistas em diferentes áreas, passa pela formação de jovens médicos nacionais, o que já é possível no país, para preencherem as lacunas que têm sido deixadas pelos expatriados. “Temos muitos hospitais no país que formam especialistas nessas e noutras áreas e já seleccionamos quatro jovens para, no início do próximo ano, especializarem-se em pediatria, cuidados intensivos, cirurgia geral e gineco-obstetrícia, porque o expatriado um dia tem de voltar para o seu país”, referiu Pedro António. Actualmente, como assegurou, o Hospital Municipal do Soyo conta com cerca de 200 especialistas, entre os quais 22 médicos, sendo nove expatriados (sete russos e dois norte coreanos), cifra que considerou insuficiente, tendo em conta a dimensão do hospital.
      Seis enfermeiros licenciados, cerca de 30 técnicos de enfermagem e 60 auxiliares de enfermagem, a par do pessoal administrativo, garantem o funcionamento do hospital, que aguarda pelo enquadramento de mais nove médicos, no próximo concurso público.
Segundo Pedro José António, o Hospital Municipal do Soyo, para o seu pleno funcionamento, precisa 400 funcionários. A unidade sanitária tem capacidade para 200 camas, das quais 170 estão em uso.
“Dispomos de um banco de urgências, maternidade, pediatria, ortopedia, cirurgia, dois blocos operatórios, medicina geral, onde está acoplado o infecto-contagioso, laboratório de análises, estomatologia, imagiologia, incluindo RX, farmácia interna, administração e lavandaria, entre outros serviços”, disse o director geral, acrescentando que o orçamento do Hospital Municipal do Soyo varia entre sete a nove milhões de kwanzas por mês, muito insuficiente tendo em conta a sua dimensão.
Para um funcionamento razoável do Hospital Municipal do Soyo, ainda de acordo o seu director clínico,Pedro António, seriam necessários 50 milhões de kwanzas por mês.
 









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