Províncias

Missão de Caconda precisa de alargar o Ensino

Manuel Albano | Caconda

A Igreja da Missão, no município de Caconda, localizada a cerca de 247 quilómetros a Nordeste do Lubango, não perde tempo a olhar para o passado de destruição.

A Igreja da Missão, no município de Caconda, localizada a cerca de 247 quilómetros a Nordeste do Lubango, não perde tempo a olhar para o passado de destruição. No meio do planalto, move montanhas para se reerguer das ruínas e dar formação académica e religiosa a 65 órfãos. Como acontece um pouco por todo o país, na Missão da Caconda, afecta aos padres espiritanos da Igreja Católica, a realidade de hoje é também de desafios. Reconstruir o lado material e espiritual é a grande aposta, embora no campo da educação e da saúde ainda sejam bem visíveis as enormes carências.

A Missão da Caconda acolhe jovens provenientes de todas as povoações de Caconda, em particular os mais carentes.
Em declarações à equipa de reportagem do Jornal de Angola, o pároco superior da Missão dos Espiritanos, David Sandambongo, há dois anos à frente da instituição religiosa, diz que conta com a prestimosa colaboração do padre Sousa, espiritano vigário, do diácono Atanásio e de três irmãs – a madre superior Verónica Ngueve Nanjahulo, Bernarda Natumba e Madalena Buca – que vão mantendo as estruturas da Igreja funcionais.
David Sandambongo conta que tem sob a sua responsabilidade 65 jovens, na maioria órfãos. Na Missão, recebem formação religiosa e académica. “Apesar de todas as dificuldades por que passamos, conseguimos dar uma formação sólida a esses rapazes que acorrem aos nossos serviços”, explica.
O grande problema, de acordo com o pároco, é o encaminhamento dos jovens para outras instituições de Ensino, já que a missão dá formação académica só até à 9ª classe. Ddepois disso, nem todos querem continuar a receber formação religiosa.
David Sandambongo apontou o caso caricato do que acontece na comuna do Fendi, na aldeia do Utelele, onde por falta de alternativas para a continuação dos estudos existem crianças que repetem a 4ª classe por mais de cinco vezes. Não porque reprovem, mas por falta de escolas para darem continuidade aos estudos. “Muitos desses jovens são forçados a desistir e a ficar em casa por já não suportarem a repetição da mesma classe durante anos a fio”. Apesar de todas estas limitações, o padre Sandambongo diz que nem tudo é negativo, porque a vontade de ver a Missão com nova imagem é muito forte e incentiva-o a continuar a ensinar e evangelizar as povoações de Caconda.

Reparar as salas de aulas

De acordo com o padre, as grandes prioridades da Missão são a reparação das salas de aulas da escola, arranjar um meio de transporte que possibilite visitas pastorais às comunidades do interior, manutenção da igreja e da residência dos padres e a construção de uma nova missão feminina, porque neste momento as madres ocupam o hospital e os doentes são atendidos no antigo infantário.
A reabilitação da moagem para torná-la uma fonte de receitas e ajudar as populações que vivem perto da Missão, reparação do internato, melhoramento da assistência médica e medicamentosa e reabilitação do posto médico são outras tarefas na lista de prioridades.
H ainda a necessidade da construção de uma casa de trânsito para acolher evangelistas e catequistas quando visitam a sede da Missão, reparar os internatos masculino e feminino e apetrechar o acampamento - a casa onde pernoitam os cristãos que vêm de longe para as grandes actividades religiosas. A Igreja de Caconda precisa ainda de apoio para a compra de um gerador para fornecer energia às duas missões, a masculina e a feminina, e para a realização de cursos nocturnos de formação de catequistas.

“Única escola com dois ciclos”

A directora da escola da Igreja da Missão da Caconda, a irmã Verónica Ngueve Nanjahulo, disse que a instituição tem dois níveis de ensino: a iniciação e o primeiro ciclo. “No município é a única escola que tem os dois ciclos”, refere.
A escola tem matriculados no Ensino Primário 400 alunos e no Primeiro Ciclo 365. “Tivemos que diminuir os alunos da vila por falta de salas. Estamos apenas com alunos que vivem próximo da Missão”, explica.
A escola conta com 40 professores para acudir às necessidades dos 765 alunos provenientes do internato masculino e feminino e também os que vêm da vila e das aldeias em redor da Missão. Depois da 9ª classe, os alunos são obrigados a procurar outras escolas para prosseguir os estudos. Este ano, segundo a madre Verónica, a escola conta com 35 alunas do internato feminino na faixa etária dos 10 aos 15 anos. A directora queixou-se das muitas dificuldades que a escola enfrenta, desde a reabilitação das salas à necessidade de construir mais salas, já que as pessoas em Caconda têm uma certa preferência por escolas missionárias.
As cinco salas de aulas existentes são insuficientes para atender a procura. O único gabinete de trabalho serve para toda a direcção, o que deixa também preocupada a irmã Verónica.
“Falta-nos um gabinete para o director pedagógico, administrativo e uma sala para os professores”, refere, acrescentando com algum alívio, que o material didáctico há muito deixou de ser problema, porque as direcções provincial e municipal da Educação têm dado todo o apoio à escola.
A responsável para a área da saúde da Missão, irmã Bernada Natumba, aponta como necessidade imediatas uma maior diversificação da dieta alimentar das crianças. “A criança precisa de diversidade de alimentos, o que muitas vezes não acontece na ementa das nossas populações, redundando em casos graves de subnutrição”.
Apesar dos esforços visíveis do Governo em criar condições condignas para as populações e dadas as condições geográficas e climáticas do município, admite que há ainda carência de água tratada em alguns locais.“Esse pormenor deve continuar a merecer a atenção da administração, porque muitas das doenças que nos chegam têm origem hídrica”, diz, apontando como patologias mais frequentes os casos de diarreias e anemias agudas, dores lombares e de cabeça.Bernarda Natumba tem a certeza que se for distribuída água potável à população, as doenças diarreicas e outras diminuem de forma substancial.

Habitantes optimistas

Apesar das dificuldades no fornecimento de água potável e energia eléctrica, os habitantes de Caconda dão-se por felizes, porque não lhes falta o básico para viver. O sector da agricultura e o repovoamento animal é hoje uma realidade, com uma série de currais com gado bovino. No interior de Caconda, na comuna do Fendi, nas povoações do Utelele e mesmo nas povoações próximas da sede da Missão, há centenas de animais da raça tradicional, a preferida de alguns agricultores, que alegam ser esta espécie menos dispendiosa do que as raças estrangeiras.
Não é difícil encontrar nas imensas pradarias de Caconda grandes manadas de gado. Quando se mergulha no interior das aldeias, sente-se logo o cheiro forte e agradável do arado e do gado. O grosso da população trabalha e vive da agricultura e da pastorícia. Este é o caso da aldeia do Fendi, localizada a 70 quilómetros da sede do município de Caconda e com uma população estimada em 6.816 habitantes.
Segundo o regedor adjunto, Manuel Cangombe, de 53 anos, a aldeia tem carne e produtos agrícolas, mas precisa de escola e postos médicos. “A nossa maior preocupação é a falta de escolas e de assistência médica e medicamentosa. Temos que deslocar-nos muitos quilómetros a pé para encontrar postos médicos”, queixou-se.
Apesar dessas dificuldades, admite, nem tudo é negativo. Para este ano está previsto um aumento significativo na produção agrícola em relação ao ano passado, porque as chuvas têm caído de forma regular.
A cuidar do gado à beira de um riacho, encontramos Mário Jorge, 45 anos, pai de oito filhos de um único casamento. Vive mesmo junto à Igreja da Caconda e é uma referência no bairro pela sua dedicação ao trabalho. Um dos poucos sobreviventes dos horrores da guerra, calmo e sereno, aceitou partilhar a sua experiência de vida com a nossa equipa de reportagem. Disse ter carregado com a esposa o fardo de criar os filhos em momentos muito difíceis, mas não está arrependido. Valeu o sacrifício e hoje com o gado que tem, consegue dar algum conforto à família. Conta que três filhos estão a estudar em Luanda, em boas escolas. “Com os rendimentos vindos da agricultura e da criação do gado, consegui juntar alguns trocos para enviar três filhos para Luanda, onde vivem com a irmã. Em casa nunca faltou uma boa carne fresca, o pirão e o lombí para as crianças”, diz, satisfeito.
Mário Jorge acredita que hoje a pecuária e a agricultura dão para viver. Mas a sua maior satisfação é saber que muitos empresários já pensam em investir forte na região. “O Governo fez a aposta certa ao reconstruir as estradas. Hoje as distâncias no país encurtaram e é possível criar riqueza fora dos diamantes e do petróleo”, afirma, acrescentando que a recuperação das principais infra-estruturas sociais no interior vão, a curto prazo, fixar os jovens ao interior e desanuviar os grandes centros urbanos. 
 
Origem da Missão

A fundação da Missão da Caconda é atribuída ao padre Ernesto Leconte, missionário espiritano nascido na Normandia, no Noroeste de França, em 25 de Março de 1862. Segundo dados históricos a que o Jornal de Angola teve acesso, Laconte desembarcou em Angola em 1884 para evangelizar os Cuanhamas, povo guerreiro do sul.
Depois de enfrentar várias dificuldades, entre as quais uma tentativa de assassinato instigada pelo soba Thywako, que o mandou amarrar e prender a uma árvore para ali morrer, o padre foi libertado e levado para a Missão da Huíla para recuperar dos maus-tratos sofridos. Recuperado, obteve do bispo Leitão e Castro autorização para a instalação de uma missão em Caconda e a garantia de que aceitava lá um missionário estrangeiro.
Já em Luanda, o bispo, na posse de toda a documentação, criava, por decreto canónico de 4 de Novembro 1889, a Missão de Caconda, como filial do Bié. No mesmo dia era publicado outro decreto que nomeava o padre Ernesto Leconte, espiritano, vigário geral do Bié, mas com residência em Caconda.

Tempo

Multimédia