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Exploração desenfreada de madeira prejudica produção de mel no Moxico

Garrido Fragoso

A exploração indiscriminada de madeira por grupos de cidadãos organizados ou isolados “prossegue a ritmo bastante acelerado”, na província do Moxico, denunciou, na cidade do Luena, o bispo da Diocese daquela cidade do Leste do país.

Fotografia: Kindala Manuel | Edições Novembro

“Confirmo a continuação desta prática ilícita na província do Moxico”, declarou D. Jesus Tirso Blanco, salientando que o facto é notório, sobretudo, no município dos Bundas, onde se observam estaleiros com muita madeira acumulada, e constantemente camiões a transportar grandes toros. 

“Na minha recente visita ao município dos Bundas observei o transporte de toros, bem como uma grande quantidade de madeira acumulada em estaleiros, sobretudo localizados à saída da localidade de Luiana para Lumbala Nguimbo (sede do município dos Bundas)”, afirmou. A denúncia do bispo católico foi feita sexta-feira à imprensa, no final do encontro entre o Presidente da República e organizações da sociedade civil da província, na Casa da Cultura do Moxico, arredores da cidade do Luena.
Tais práticas decorrem aos olhos das autoridades da província. D. Jesus Tirso Blanco disse que “mesmo na cidade do Luena observamos constantemente a saída de camiões com madeira”. Acrescentou que o mais grave é que em nenhum desses lugares de corte e exploração ilegal de madeira está a ser feita a reposição das árvores abatidas.
A exploração indiscriminada de madeira no Moxico já mereceu da parte do Executivo a tomada de medidas severas. Ainda assim os malfeitores insistem em tais práticas, que comprometem, sobretudo, o meio ambiente.
Como medidas para conter a desertificação na região e evitar até as ravinas, sobretudo nas áreas de abate, o bispo católico defendeu a reposição ou rearborização em espaços idênticos afectados pelos cortes indiscriminados.
Para D. Jesus Tirso Blanco, a comercialização oficial de madeira explorada na província de-ve ser feita apenas no Moxico, para que as fábricas de produção de mobiliários possam garantir emprego aos jovens locais.
Lembrou, com alguma nostalgia, o facto de actualmente no Moxico ser um pouco difícil o cidadão conseguir tábuas para o fabrico de mobílias, quando antigamente nesta província fabricavam-se tacos de madeira e mobílias invejáveis.

Produção de mel

O produtor de mel do município dos Bundas, Luciano António, contou que em anos anteriores, quando o abate indiscriminado de árvores para produzir madeira era feito à luz do dia pelos chineses, “a mando dos senhores bem identificados pela sociedade”, os níveis de produção de mel haviam baixado.
“Os chineses pulverizavam com um produto químico e bastante tóxico as árvores para afugentar as abelhas, que constituíam empecilho à sua actividade”, disse Luciano António, acrescentando que nem as árvores contendo colmeias eram poupadas.
Desde que o Executivo decretou medidas severas contra os infractores, as abelhas, aos poucos, estão a regressar às colmeias e hoje a produção de mel aumentou consideravelmente, referiu.

Apelo aos jornalistas

Aos jornalistas, D. Jesus Tirso Blanco pediu maior intervenção na investigação de factos incomuns, que ocorrem em toda a extensão da província.
A exemplo do abate ilegal de árvores para produzir madeira, o bispo católico também denunciou a morte de milhares de pessoas no sul da província, por falta de alimentos. “Fui testemunha deste facto em aldeias que visitei”, disse o bispo, que não mencionou o nome das localidades. Referiu que “existem nestas áreas pessoas que estão a trocar um saco de fuba por um boi”.
“A Comunicação Social deve, com toda a liberdade, transmitir esses factos”, reafirmou, tendo em seguida defendido com alguma urgência a reabilitação das estradas para garantir a circulação de pessoas e bens entre a sede capital da província, os municípios, comunas e aldeias. É sua opinião que, numa primeira fase, as vias rodoviárias sejam apenas terraplanadas, tendo em conta os parcos recursos financeiros do país.
No domínio da educação defendeu a criação de condições para a instalação de professores nas localidades recônditas. Mas alerta, desde já, que aos mesmos deve ser atribuído um subsídio de isolamento, duas a três vezes superior ao salário de um professor colocado numa área urbana.
Na comuna de Cangumbe, uma localidade não muito distante da sede capital da província, D. Jesus Tirso Blanco disse que existem apenas cinco escolas e que noutras localidades alguns cidadãos leccionam de forma voluntária, porque raramente se apercebem da realização dos concursos públicos.
A merenda escolar nas zonas rurais da província deve ser obrigatória, segundo o bispo católico. Justificou a medida com o facto de nestas áreas não existir produção suficiente de alimentos, nem condições adequadas que permitam às famílias cultivarem a terra e ao mesmo tempo alimentarem os filhos.
Segundo D. Jesus Tirso Blanco, as medidas aplicadas ao sector da Educação devem também ser observadas no da Saúde. Moxico é a maior província do país, com uma área de 223.023 quilómetros quadrados e uma população estimada em 854.258 habitantes, distribuídos em nove municípios.

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