Províncias

Mais do que qualquer sonho

Pereira Dinis |

Com o restabelecimento da linha entre a cidade do Luena, capital do Moxico, e a vila do Luau, ficou completa a ligação ferroviária entre o litoral e a fronteira com a República Democrática do Congo.

Comboio chegou ao Luau
Fotografia: Francisco Bernardo

O Corredor do Lobito passou assim a “rasgar” o país do mar ao leste, com o Caminho de Ferro de Benguela a percorrer 1.344 quilómetros.
A linha do CFB, que só do Luena ao Luau percorre 334 quilómetros por entre as chanas do Leste, famosas pelas façanhas protagonizadas pelos gerrilheiros do MPLA durante a luta de libertação nacional, viu assim reforçada sua importância como factor de desenvolvimento do país e dos estados vizinhos.
Para completar a ligação foram construídas ou reabilitadas 104 estações dos caminhos-de-ferro, que permitem o embarque e desembarque de passageiros e mercadorias nas províncias de Benguela, Huambo, Bié e Moxico, num investimento avaliado em 1,83 mil milhões de dólares.
A linha-férrea, cuja construção teve início a 1 de Março de 1903, ficou concluída a 2 de Fevereiro de 1929. Em Agosto de 2012, foi reposta a circulação dos comboios entre o Lobito e o Luena. No comboio inaugural para o Luau, a 14 de Fevereiro, esteve o Chefe do Executivo angolano, José Eduardo dos Santos, depois de 30 anos devido ao conflito armado que o país viveu.
A estação do Luau ocupa uma área de 2.891,42 metros quadrados e é composta por uma Gare principal de passageiros, edifício técnico de telecomunicações e sinalização, além de três plataformas para embarque e desembarque de passageiros.
Com este empreendimento, o peixe e o sal de Benguela, assim como o cimento, voltaram a chegar à fronteira e a atravessar para o lado da RD do Congo através da ponte metálica de 40 metros de comprimento e seis metros de altura, com capacidade de suportar 400 toneladas. Falta agora restabelecer o escoamento do minério dos países vizinhos, tarefa para a qual o Porto do Lobito criou já todas as condições.
O Executivo investiu 1,25 mil milhões de dólares em equipamentos portuários modernos. Com essa verba, assegurou um porto dinâmico e eficiente, com capacidade para movimentar 3,7 milhões de toneladas, que se prevê ampliar para 4,1 milhões, quando o CFB estiver a funcionar em pleno.
A conclusão da linha do CFB, cuja reabilitação começou em 2006, está a ter reflexos na vida das populações das quatro províncias da região central do país que atravessa. De Janeiro a Dezembro deste ano, foram transportados por aquela empresa cerca de 416.500 passageiros e 27.500 toneladas de mercadorias diversas.
De acordo com o presidente do Conselho de Administração do CFB, José Carlos Gomes, em relação a 2014, a movimentação de mercadorias registou um aumento de 42,4 por cento e inclui mais de 18 mil toneladas de combustíveis. O transporte de passageiros cresceu 29,7 por cento este ano. Por enquanto, por condicionalismo técnicos, o comboio do CFB circula a uma velocidade muito inferior aos 80-90km/h pretendidos, que se quer alcançar à medida que cresçam as necessidades das províncias por ele servidas.
O CFB, que cobre uma zona de influência de 25 por cento dos 22 milhões de angolanos, é de importância vital para a diversificação da economia nacional ao levar para o interior componentes importantes para o funcionamento dos projectos agrícolas e industriais, como é o caso dos combustíveis e lubrificantes, e ao permitir o escoamento da produção.
A importância da linha férrea foi referida no mês passado aquando da apresentação do projecto para o relançamento da produção e transformação de trigo na província do Huambo, o qual já arrancou com a preparação das terras para o início do plantio em Fevereiro próximo.
No Bié, o governador provincial Álvaro de Boavida Neto afirmou que a reabilitação do CFB está a contribuir de forma significativa para a diversificação da economia, porquanto, as pessoas transportam a preços baixos grandes quantidades de mercadorias, em especial produtos do campo.
Na província do Bié, centro do país, a linha férrea percorre 393 quilómetros e passa pelos municípios do Chinguar, Cunhinga, Catabola, Camacupa, Cuemba até à comuna do Munhango, fronteira com o Moxico. Mais do que os ganhos económicos que se esperam da ligação ferroviária ao Luau, a linha do comboio tem um particular significado histórico, como símbolo da conquista da paz. Mais do que um bafejo de mar que vem da Baía do Lobito e rasga o país num tuque-tuque até à fronteira, é um elo para o país do futuro que se almeja.
Quem percorre a linha férrea do litoral ao leste, começa por subida lenta até ao platô central do país, para acelerar depois de tomado o planalto. Tem de recompor as forças no Huambo, antes de encarar toda a planície até ao Cuito, relembrar os tempos da guerra e seguir, ver a vegetação mudar a cada passo, até à anhara, onde o olhar chega longe. Chegar ao Luau, na ponta final do “braço de Angola”, é bem mais do que qualquer sonho.

Tempo

Multimédia