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Venda de garrafas é negócio na cidade do Luena

Osvaldina Baptista| Luena

A venda de vasilhame começa a tornar-se um importante meio de sobrevivência para diversas famílias do Luena. Recolhidas em vários locais, as garrafas são posteriormente vendidas a um grupo de revendedores, que seguem para Luanda, onde o preço por que são compradas é mais lucrativo. Para lá do negócio, a actividade tem uma outra virtude: a cidade está a ficar mais limpa.

As garrafas são depositadas numa residência para depois serem enviadas para Luanda
Fotografia: Daniel Benjamim| Luena

A venda de vasilhame começa a tornar-se um importante meio de sobrevivência para diversas famílias do Luena. Recolhidas em vários locais, as garrafas são posteriormente vendidas a um grupo de revendedores, que seguem para Luanda, onde o preço por que são compradas é mais lucrativo. Para lá do negócio, a actividade tem uma outra virtude: a cidade está a ficar mais limpa.
Domingas Jamba, de olhar simples e determinado, passa de uma rua para outra, levando na cabeça um saco cheio de garrafas, recolhidas em aglomerados de lixo. De 38 anos, a mulher faz da recolha de garrafas o seu ganha-pão: depois de as apanhar, vende-as a um grupo de senhoras. Para isso, tem de percorrer várias artérias da cidade, aguentando as buzinas dos carros, o medo e o cansaço.
Mãe de cinco filhos, vive maritalmente com um homem desempregado, razão pela qual se vê obrigada a assumir mais de 80 por cento das responsabilidades inerentes às despesas da casa. Apesar das dificuldades que vive, afirma que, desde que começou o negócio da venda de garrafas, os miúdos em casa já não passam fome e a compra do material escolar deixou de ser um bicho-de-sete-cabeças.
Antes de entrar neste negócio, Jamba trabalhou como empregada doméstica. “Era lavadeira e sentia-me muito cansada quando chegava a casa. No final das contas, o pagamento não compensava o esforço que fazia”, salienta. Tal como Domingas Jamba, dezenas de pessoas optaram por este negócio de comercialização de garrafas de cerveja que, a cada dia que passa, ganha mais adeptos no Luena.
Jamba explica que o negócio está a ganhar corpo, por permitir que os vendedores sejam pagos na hora em que entregam as garrafas. “Quanto mais recolhas fizer, mais dinheiro se leva para casa”, disse, com um sorriso no rosto. Segundo ela, o negócio tem duas fases. A primeira é a entrega das garrafas a um grupo de compradoras, que pagam um montante em função da quantidade de garrafas. Depois, estas mesmas mulheres transportam as garrafas em camiões, para a província de Luanda, onde são revendidas a preços mais altos.
Por 24 garrafas pagam-lhe 500 kwanzas, daí que a luta seja sempre por conseguir a maior quantidade possível. O negócio é rentável, até certo ponto, diz.
A maioria das pessoas envolvidas são mulheres provenientes das províncias do Uíge, Saurimo e Luanda. A nível do Luena, ainda são muito poucas as envolvidas no negócio, por ser um mercado quase que desconhecido pela maior parte delas.

O lado positivo do negócio

Se para muitas famílias o negócio de recolha de garrafas serve para ajudar a minimizar os problemas financeiros, para outros a prática tem contribuído para o saneamento da cidade e arredores.
O munícipe Mário Samatete salienta que, desde que esta prática começou a ganhar corpo, a cidade começou a ter outra imagem. “Hoje, é raro encontrar muitas garrafas pelas ruas do Luena”. A recolha começou em grande escala em 2010, mas, actualmente, dado o aumento do consumo de cerveja, a cidade está a ser o destino de dezenas de mulheres que procuram melhorar as suas vidas através da recolha e venda de vasilhame.

A Rosa de Luanda

Rosa Nita, 42 anos, é natural de Luanda. Mãe de quatro filhos, já vende garrafas há quatros anos, desde Luanda. Mas a concorrência na capital do país levou-a para o Luena, onde diz que os lucros são maiores. “Em Luanda temos muita gente a recolher garrafas, por isso vim parar aqui, onde consigo um maior espaço de manobra, para dar de comer aos filhos”, disse Rosa Nita, acrescentando que perdeu o marido durante o conflito armado.
Deficiente de um dos membros superiores, tem grandes dificuldades em levantar coisas muito pesadas, mas, na luta por dar sustento aos filhos, faz das tripas coração e vai em busca do pão de cada dia.

Homens na actividade

Fernando Motonga é proprietário da casa onde são depositadas as garrafas, para depois serem transportadas para Luanda.
Ele afirma que o negócio começou apenas com 25 pessoas, mas hoje envolve mais de 100 mulheres. Entre as mulheres, a reportagem do Jornal de Angola encontrou Nelito António, um antigo bolseiro em Cuba, que se formou em mecânica. Após regressar ao país, o consumo excessivo de álcool tomou conta dele e atirou-o para o desemprego.
Desprezado pela família, encontrou na venda de garrafas um alívio e o caminho para voltar a aproximar-se da família, que garante muito amar.
O jovem diz que o negócio, além de sacrifício, requer paciência. “É preciso que também se saiba os sítios onde encontrar as garrafas, para evitar andar em vão”, disse, para adiantar que, em Luanda, elas são comercializadas para fábricas de vidro e bebidas.

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