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Mulheres querem estar nos órgãos de decisão

A antiga responsável da secção municipal da Família e Promoção da Mulher do Soyo, Palmira Virgílio, defende uma maior presença de mulheres nos órgãos de decisão da província do Zaire.

Administradora comunal adjunta de Mangue Grande Palmira Virgílio
Fotografia: Jaquelino Figueiredo

 
A antiga responsável da secção municipal da Família e Promoção da Mulher do Soyo, Palmira Virgílio, defende uma maior presença de mulheres nos órgãos de decisão da província do Zaire. Em declarações ao Jornal de Angola, afirmou que a percentagem de mulheres em cargos de liderança nas mais variadas esferas da vida socio-económica da província do Zaire está longe de satisfazer as aspirações da camada feminina na região.

“A meta é atingirmos 30 por cento de mulheres nos cargos de relevo do governo provincial, mas aqui no Soyo esta percentagem está muito longe de ser atingida, tanto nas estruturas governamentais como partidárias”, afirmou. Para Palmira Virgílio, não se coloca a questão das competências, porque, segundo disse, no Zaire há mulheres formadas nas mais diversas áreas do saber.
No Soyo existem mulheres com um elevado nível académico que podem ocupar cargos de direcção, mas segundo Palmira Virgílio, não são chamadas “porque algumas barreiras ainda existentes penalizam a mulher” no acesso a cargos de direcção e chefia. 
“Nós vamos respeitar a actuação do executivo, porque cada governo provincial tem a sua forma de aplicar a orientação emanada pelo partido que sustenta o governo”, disse, acrescentando que, enquanto isso não acontece, as mulheres vão continuar a lutar pelos seus direitos. 
Palmira Virgílio chamou a atenção para a necessidade do cumprimento de alguns requisitos para que as mulheres ocupem cargos de direcção e chefia, que passam pela formação académica, coerência e eficácia no trabalho. “É preciso que a mulher demonstre a sua capacidade intelectual e física”, sublinhou.
Palmira Virgílio, que agora ocupa o cargo de administradora adjunta da comuna de Mangue Grande, sublinhou que as mulheres não devem pensar em nomeações para diferentes cargos de forma gratuita, mas devem demonstrar capacidades intelectuais, determinação, auto-confiança e espírito de iniciativa. Esta qualidade, muitas vezes, marca a diferença no desempenho de cargos de responsabilidade e as mulheres têm demonstrado que nos momentos mais difíceis têm iniciativa e firmeza na condução dos projectos.
“Nós não queremos nada de bandeja”, referiu Palmira Virgílio, reiterando que as competências devem ser o ponto de partida para a promoção de mulheres e de homens em cargos de direcção. Acrescentou que a sociedade reconhece na mulher angolana, competências técnicas e abertura suficiente para gerir com parcimónia os bens públicos sob a sua guarda. “O que precisamos é de igualdade de oportunidades”, rematou.

Violência no lar 
 
Neste mês dedicado à mulher, Palmira Virgílio afirmou que a violência no lar constitui a grande preocupação da secção municipal da Família e Promoção da Mulher no Soyo, onde ocorrem vários casos cujas vítimas são mulheres. Disse que no ano passado a secção municipal da Família e Promoção da Mulher registou 178 casos de violência doméstica.
Palmira Virgílio caracterizou de alarmantes os índices que chegam ao conhecimento das autoridades, sem contar, é claro, com aqueles casos que acontecem na aldeia e que morrem ali mesmo.
 “Agora, os homens, quando as mulheres querem pôr fim aos problemas do lar, disparam contra elas, agridem com mocadas, catanadas e marteladas, o que é um comportamento criminoso”, declarou, apontando de seguida os actos de estupro de que são vítimas no Soyo muitas crianças com idades que variam entre os sete e os 12 anos.
Palmira Virgílio considerou ainda a fuga à paternidade como sendo outra forma de violência contra mulher e disse que o Soyo tem registado muitos casos.
“O abandono dos filhos pelos próprios pais, que os acusam de práticas de feitiçaria, deve ser combatido, por  constituir, também, uma forma de violência contra a criança”, defendeu, apontando a pobreza de muitas famílias como razão primeira desta prática.

Violência contra o homem

Palmira Virgílio louvou a atitude de alguns homens da região que têm procurado os serviços da secção municipal do Soyo da Família e Promoção da Mulher para encontrar soluções para os problemas conjugais. “Nós registamos em 2009 sete casos de homens corajosos que alegaram terem sido vítimas de actos de violência protagonizados pelas suas mulheres”, revelou.
No seu entender, o reduzido número de homens que procuram os serviços da Família e Promoção da Mulher, para se queixarem da violência de que são vítimas no lar, tem a ver com o machismo, que considera o homem mais forte fisicamente do que a mulher.
“Há também homens a serem espancados pelas suas mulheres, o que atira por terra esta teoria do mais forte”, disse. 

Sinal positivo

Palmira Virgílio considerou ser um sinal positivo quando os homens começam a ter atitudes corajosas para pôr fim à violência física no lar, o que dá a entender que o homem está a tomar consciência de que o uso da força física para resolver problemas conjugais não é o melhor caminho a seguir. Os casais só sobrevivem num clima de respeito e numa relação de igualdade.
 A antiga responsável municipal do Soyo da Família e Promoção da Mulher referiu que a emancipação das mulheres na sociedade depende do homem, que deve primeiro emancipar-se para ter mais responsabilidade e deixar de praticar a violência física quando pretende resolver os problemas no seu lar.
A formação da mulher nos distintos domínios do saber, constitui também, segundo Palmira Virgílio, um pressuposto imprescindível para o alcance de patamares elevados de convivência harmoniosa no lar.
Palmira Virgílio disse que a figura da mulher deve merecer o respeito e consideração de todos, pelo facto de possuir um dom especial. “A mulher engravida, guarda o feto durante nove meses no seu ventre, dá à luz uma nova vida e cuida da criança.
Vezes há que não tem nada para matar a fome, mas prefere dar de comer à nova vida que ela acaba de colocar no mundo. Esta característica única da mulher, leva a que os homens reconheçam de que se eles existem é graças ao dom especial feminino”, disse Palmira Virgílio.
A secretária municipal da Organização da Mulher Angolana (OMA) no Soyo, Alice Leandro, frisou em declarações ao “Jornal de Angola” que ontem a mulher na companhia do homem lutou para libertar o país do jugo colonial, processo que culminou com a independência nacional e hoje
a sua luta está virada para a realização de acções tendentes ao desenvolvimento sócio-económico de Angola.
Alice Leandro aconselhou a mulher a trabalhar de mãos dadas com o homem, com sentido de responsabilidade, saber quem ela é na sociedade e qual é o seu papel. Prosseguiu aconselhando as mulheres a trabalharem para o desenvolvimento da região em particular e do país no geral.  
“Procurem inserir-se nas estruturas governamentais e partidárias, uma vez que existem poucas mulheres na liderança. Só para ter uma ideia, não existe nenhuma administradora municipal, comunal ou mesmo adjunta na região, e é preciso que mudemos esse quadro”, concluiu Alice Leandro.  

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