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Ancião com centenas de descendentes recebe apoio

Afonso Costa e João Upale| Namibe

Francisco Tchikuteni, de 65 anos, e a sua legião de 54 mulheres, 153 filhos, 135 netos e 35 bisnetos, viveram na sexta-feira um dia diferente, ao receberem uma doação de roupa usada e diversos bens alimentares de um grupo de estudantes das províncias do Namibe e da Huíla.

Dificuldades em alimentação e vestuário na família do ancião Francisco Tchikuteni foram colmatadas com a recepção de bens diversos
Fotografia: Afonso Costa


A entrega dos bens teve por objectivo diminuir as grandes dificuldades que o ancião Francisco Tchikuteni tem enfrentado para sustentar a família de centenas de membros.
Além da doação, a visita dos alunos teve ainda como objectivo conhecer de perto uma das histórias que tem despertado interesse, até, a nível internacional. Em tempos, a Globo, estação televisiva brasileira, fez uma reportagem sobre a vida do polígamo angolano, residente na localidade de Giraúl de Baixo, a cerca de 15 quilómetros da cidade do Namibe.
O director do colégio “Amigo do Saber” do Namibe, Neosia Visandule, disse que a reportagem da cadeia de televisão brasileira motivou o apoio com vestuário e bens alimentares à família de Francisco Tchikuteni. O gesto de solidariedade, explicou o responsável, é também uma resposta ao apelo do Presidente da República, da necessidade dos que muito têm ajudarem os que mais necessitam.
Surpreendido com a visita dos estudantes, velho Francisco Tchikuteni agradeceu o gesto solidário, salientando que a “a acção vai ficar na história da comunidade, por ter sido a primeira de um grupo de estudantes”.

O surgimento do clã

Em 1975, Francisco Tchikuteni decidiu criar o bairro de Giraúl de Baixo, com o objectivo de agrupar os nómadas mucubais, na sua maioria oriundos de Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial e São Tomé e Príncipe. O ancião explicou não ter sido de espontânea vontade que casou com as 54 mulheres. “Foi uma ordem divina, quando tomei o lugar de conselheiro da comunidade”, justificou.
Francisco Tchikuteni é casado desde os 23 anos, com Iva Bartolomeu, natural de Luanda, com quem tem dez filhos. Esta primeira mulher corrobora a opinião do marido de que a ideia de ter muitas mulheres surgiu de uma vontade divina.
Ao longo dos tempos, Francisco Tchikuteni foi perdendo algumas companheiras, tendo o número de mulheres reduzido de 54 para 37, também porque muitas decidiram abandona-lo. A situação não o abalou, por considerar que “foram elas que saíram a perder”.
Até agora, Francisco já teve 212 filhos, 59 morreram. O “exército” de filhos, netos e bisnetos é tanto, que o ancião tem dificuldades em conhecer os nomes de todos.
A agricultura e a criação de animais têm sido as únicas fontes de sustento para a numerosa família de Francisco Tchikuteni, que lamenta a falta de apoio da sociedade civil e do Governo, que tem repreendido a atitude do mais velho em relação à sua vida polígama.

Os dissabores da vida

“Sofri muitas acusações, como de falso profeta, assim como já estive na prisão por causa disso, mas defendi que queria apenas trabalhar a terra, garantir a formação académica aos filhos e pregar o evangelho.”
Em função dos argumentos apresentados, o povo da comunidade a que pertence acreditou nele e pediram que o pusessem em liberdade, contou.
As populações da referida comunidade têm enfrentado dificuldades para a aquisição de água potável, sendo obrigadas a percorrer longas distâncias. “Espero que o Estado nos apoie a solucionar esse problema”, disse o ancião.
O Governo do Namibe tem desenvolvido algumas acções para resolver os principais problemas da população, com a construção de uma escola, onde já estudam muitos dos filhos do ancião, e um posto médico.
Neste momento, boa parte dos filhos está a frequentar o ensino pré-universitário e a Escola de Formação de Professores, além de um outro, que beneficiou de uma bolsa de estudo no colégio “Amigo do Saber”.

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