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Bons tempos para a Educação no Namibe

Manuel de Sousa| Namibe

A Educação na província do Namibe registou, em 2010, ganhos consideráveis no capítulo das infra-estruturas, com a construção e reabilitação de várias escolas na sede da província, municípios, comunas, vilas e aldeias e a colocação de um número considerável de docentes.

As escolas do primeiro ciclo da cidade do Namibe estiveram abarrotadas de crianças no último ano lectivo
Fotografia: Afonso Costa | Namibe

A Educação na província do Namibe registou, em 2010, ganhos consideráveis no capítulo das infra-estruturas, com a construção e reabilitação de várias escolas na sede da província, municípios, comunas, vilas e aldeias e a colocação de um número considerável de docentes. Como resultado, reduziu drasticamente o número de crianças fora do sistema de ensino.
A procura pela escola continua grande, sobretudo nos centros urbanos, em função da pressão do mercado de emprego, que a cada ano que passa exige profissionais muito bem formados. Noutra vertente, as famílias apostam na educação dos filhos como forma de a médio ou longo prazo poderem subir um ou mais degraus na escala social. Em suma, a educação é o elemento chave para a mobilidade social e consequentemente para o desenvolvimento do país.
Os professores estão, por isso, submetidos a uma enorme pressão e avaliação públicas. Na província do Namibe, a classe dos professores tem vindo a adaptar-se aos novos tempos. O aumento paulatino da maturidade profissional e competência da maioria dos elementos da classe dos professores contribuiu, no ano lectivo que se encontra na recta final, para a melhoria da qualidade de ensino.
“Mas também é um facto que ainda existem professores que apenas se preocupam com o salário no fim do mês, situação que preocupa bastante o sector”, de acordo com o director provincial da Educação do Namibe, Francisco Pacheco, em declarações ao Jornal de Angola.
“Hoje fala-se na questão de ser educador e estar na educação. O nosso maior problema é justamente este. Temos colegas envolvidos na educação totalmente despreocupados e interessados apenas em receber salário no fim do mês”, desabafou o director Francisco Pacheco. “É lógico que ao nos comportarmos assim, o sector não estará bem, o que tem reflexos negativos na sociedade, pois significa que as crianças estão entregues a pessoas sem responsabilidade”, acrescentou.
Segundo Francisco Pacheco, a reforma educativa, iniciada em 2004 e “contestada por alguns contrários às mudanças, querendo ou não, veio para ficar e todos os educadores devem fazer os possíveis para se curvarem perante ela”.
O responsável máximo da Educação no Namibe deu a conhecer que no próximo ano lectivo o processo de reforma estará generalizado a todo o sistema de ensino, estando agendada para 2012 a avaliação dos seus pontos fortes e fracos. 
“A situação não é fácil para ninguém, mas não devemos desistir. Acreditamos que o primeiro passo para a mudança e o sucesso é a força de vontade para mudar, a cada dia, a nossa prática na sala de aulas”, afirmou.

Modelos de referência

Pacheco Francisco questionou: “não podemos esquecer que ainda nos dias actuais somos modelos de referência para os nossos alunos. E se não mostrarmos interesse e segurança no que fazemos, como poderemos incutir isto nos nossos alunos?”
O responsável considerou que o requisito mínimo para avaliar um bom educador é ter o domínio do conteúdo. Mas isso, na sua óptica, é relativamente fácil. “O mais difícil é saber lidar com as pessoas, crianças, jovens e adultos totalmente diferentes de nós”, sublinhou.
O director provincial da Educação insistiu na questão do zelo profissional, que para si é fundamental no exercício do professorado. “Algumas mães não aguentam os seus filhos. Agora imaginem os professores que têm de cuidar destas crianças. Não é tarefa para qualquer um, tem que se gostar daquilo que se faz, ser educador é exercer a mais refinada profissão, é um profissional em melhorar o ser humano, é um formador do desenvolvimento da consciência”.
Francisco Pacheco enfatizou que o professor “deve estar comprometido com as pessoas, não somente com conhecimentos mas sobretudo com o uso destes conhecimentos”.

Tendências de evolução
 
Para Benedito Sahichica, responsável provincial da Associação dos Professores de Angola (APA), as tendências expressas na evolução do sector da educação na província do Namibe têm sido acompanhadas pelo novo perfil do professor, que surge investido de novas funções, com destaque para a orientação das actividades docentes no sentido de ser um facilitador da aprendizagem e da sua participação como animador da actividade.  “A maior parte dos países tem vindo a reconhecer a importância de uma sólida educação como condição de desenvolvimento e de progresso social. A escola continua a ser um parceiro central na educação, o que pressupõe uma reflexão sistemática e aprofundada por parte de todos os que constituem o processo educativo na província”, afirmou Benedito Sahichica.
O responsável associativo defendeu que o professor, como elemento central do processo educativo, tem de possuir ideias claras sobre a escola, compreender a sua posição face às necessidades dos alunos e a função social do trabalho pedagógico. É sua opinião, igualmente, que o docente deve saber o que está a fazer, de forma a tornar as suas tarefas o mais eficazes possíveis.  
“Valorizar o papel do educador significa desempenhar com eficácia e eficiência a sua função, sem preconceito, ser amante da profissão e responsável pelos problemas dos seus educandos, apostando de modo permanente na sua superação e formação e ser honesto na tomada das decisões”, referiu. “Só assim construiremos uma sociedade sã e um homem novo e multifacético”, rematou.

Educação ontem e hoje

Para Oliveira Pitra, director da escola secundária do primeiro ciclo Gabriel Kwanhama, os educadores devem reflectir sobre aquilo que foi feito no ano que está a terminar e perspectivar o próximo ano lectivo no sentido de se atingir a meta do ensino de qualidade.
Questionado sobre a qualidade do ensino nos dias de hoje em relação à de oito anos atrás, Oliveira Pitra disse que a diferença é enorme. “Os contextos são diferentes, mas há muita diferença. Hoje temos muita coisa nova, há mais exigência, antigamente as questões pessoais estavam à frente, só depois é que vinham as laborais. Hoje já não se faz isso”.
Oliveira Pitra considera que o ensino actual é o possível. “Ainda existem muitas dificuldades, a começar pela logística pedagógica, a falta de manuais, a existência de professores sem perfil de entrada, a falta de acompanhamento dos alunos por parte dos pais e encarregados de educação e o facto de alguns alunos entrarem para as classes sem saber ler nem escrever”. 
Adália Jeremias, professora de educação física, também é de opinião que no sector da educação, nos últimos anos, a província do Namibe tem conseguido grandes avanços.
“O número de escolas aumentou, há menos alunos fora do sistema de ensino, os educadores têm uma grande preocupação com a sua formação, a direcção da educação também está preocupada com a actualização constante dos docentes, realizando seminários de capacitação e concedendo bolsas de estudo, o que, de certa forma, eleva a qualidade do ensino na nossa província”.
A inclusão plena dos filhos dos criadores de gado no sistema de ensino continua a merecer uma atenção especial do sector da Educação. A edificação de escolas com qualidade nas zonas longínquas, a construção de um internato no município do Virei, bem como a sensibilização dos pais no sentido de registarem as crianças para poderem ter acesso aos estudos, são algumas das tarefas que as autoridades provinciais se propõem alcançar no próximo ano. 

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