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Camponeses têm água para regar as hortas

João Upale | Munhengo

A população do Namibe, que até há pouco tempo vivia quase exclusivamente da pastorícia, está agora virada para o cultivo da terra como forma mais eficaz de combater a fome e a pobreza.

Momento em que o soba Joaquim Munukanheva faz o ensaio do novo furo retirando do poço um volume considerável de água
Fotografia: João Upale|Namibe

A população do Namibe, que até há pouco tempo vivia quase exclusivamente da pastorícia, está agora virada para o cultivo da terra como forma mais eficaz de combater a fome e a pobreza. Os camponeses também trabalham na apicultura e na extracção de óleo mupeque para o seu sustento.
“Com a abertura de mais este furo na nossa lavra, vamos agora redobrar os esforços no cultivo de produtos hortícolas, para sustentarmos as nossas famílias,” disse o camponês António dos Santos Kolela, de Munhengo, município da Bibala, 43 anos, pai de sete filhos.
António Kolela é animador da associação de camponeses da aldeia, que tem 125 famílias filiadas. O camponês participa activamente em todos os projectos da Organização Não Governamental italiana Cooperação para o Desenvolvimento dos Países Emergentes, actividade que está ligada à promoção do trabalho do campo.
António Kolela está feliz porque se sente mais estimulado para cultivar a terra, porque com a água do furo, foi reforçada a capacidade de regadio.
A satisfação é partilhada por todos os camponeses da associação, que agora têm condições para reforçar a actividade agrícola. Mais campos de hortícolas e frutícolas foram desbravados e o processo de combate à pobreza e à fome tem mais pernas para andar.
O furo de extracção de água, que se associa a outros 35 já existentes nas diferentes comunidades, está instalado numa lavra com três hectares, que começou a ser desbravada. Sábado, a comunidade de Munhengo recebeu da ONG Cooperação para o Desenvolvimento dos Países Emergentes uma motobomba, enxadas, pás, carrinhos de mão, picaretas, ancinhos e luvas.

Acabar com a fome

O responsável da comunidade, o soba Joaquim Munukanheva, fez o ensaio do novo furo, retirando do poço um volume considerável de água, dizendo, no fim, que “estamos bem servidos e muito gratos pela oferta, agora vamos trabalhar mais para minorar os efeitos da fome e da pobreza no seio das comunidades e reduzir ao abate indiscriminado de árvores”..
Joaquim Munukanheva, o “pai grande” da comunidade de Munhengo, assegurou à nossa reportagem que antes da abertura dos furos de água as pessoas viviam do pasto e do corte de árvores para lenha e fabrico de carvão, mas desde que trabalham a terra, o abate de árvores está a diminuir e as pessoas dedicam-se mais à produção agrícola.
Para o soba Joaquim Munukanheva, iniciativas dessa natureza devem continuar e não deviam partir apenas de ONG estrangeiras, as angolanas também deviam apoiar, porque desenvolver o campo “é a melhor saída” para erradicar a fome e a pobreza.
A acção da ONG italiana insere-se no âmbito dos projectos para “diminuição da vulnerabilidade alimentar e ambiental da província do Namibe”, financiados pela União Europeia (UE) e Fundo das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO). O objectivo é o reforço da produção agrícola nas comunidades rurais de Haukulo e do Munhengo.

Irrigação permanente

“Com a irrigação permanente as colheitas vão aumentar”, disse visivelmente satisfeita Maria Amélia Kanheva, uma das dezenas de mulheres camponesas de Munhengo.
Mbayavoka Manuel acrescentou que, com a abertura de mais este poço, “acabou a dependência das chuvas para a rega das sementeiras, com a estiagem na região muitas sementes secavam e não germinavam”.
Os camponeses de Munhengo cultivam de tudo um pouco, desde milho, feijão, massango, massambala, batata, quiabo, tomate, mandioca e gindungo. A terra é também apropriada para o cultivo de couve, repolho, cebola, alho, gengibre, beringela, e muitos outros produtos hortícolas.
O representante da administração do Munhino, comuna do Kapangombe, considerou frutífero o gesto da ONG italiana Cooperação para o Desenvolvimento dos Países Emergentes, “que muito tem feito para o crescimento dos rendimentos das famílias camponesas”.
Mateus Delgado, da Direcção Provincial da Agricultura, Desenvolvimento Rural e Pescas realçou que ao longo de três anos tem vindo acompanhar as acções da Organização Não Governamental italiana no apoio directo às famílias vulneráveis e comunidades agrícolas.
Na associação de camponeses da Mupa, área recentemente visitada pelo embaixador de Itália em Angola, Giuseppe Mistretta, os que se dedicavam ao corte e fabrico de carvão são hoje grandes agricultores e até já comercializam os produtos do campo com bons lucros. “Isto é muito bom para a região”, disse Mateus Delgado.
António Miguel, da União dos Camponeses Angolanos, UNACA, as associações podem agora formar cooperativas.

Gestão da floresta

O representante da Cooperação para o Desenvolvimento dos Países Emergentes, engenheiro agrónomo Matteo Tonini, revelou que o trabalho com as comunidades da Mupa começou há um ano, e a primeira fase do projecto abrangeu toda a área florestal.
Conta que antes de tudo, foram realizadas acções de formação teórica e prática sobre como gerir a floresta, em termos de tamanhos mínimos das árvores que podem ser cortadas, a distância mínima entre uma árvore e a outra, para permitir a regeneração contínua da floresta: “Agora as populações estão a ficar cada vez mais sedentárias, mais ligadas à terra. Esta é a fase de abrir furos, instalar as motobombas, o sistema de rega e começar a produção”, realçou, sublinhando que desde o arranque do projecto, os camponeses participaram com força, manifestando um grande interesse em trabalhar a terra.
A Organização das Nações Unidas para a Agricultura apoiou as comunidades com ferramentas agrícolas, que foram compradas directamente com os fundos da FAO.
“ O nosso trabalho tem o apoio da Direcção Provincial da Agricultura e de outras instituições do Estado, estamos a ver realmente que algo está a mudar nas comunidades, que é o maior interesse em trabalhar a terra”, disse Matteo Tonini.

Aprender a ler

Matteo Tonini sustentou que “já não são apenas as mulheres a trabalharem a lavra, os homens começam a abandonar a pastorícia ou o abate de árvores e trabalham a terra”. Além do aumento da produção agrícola, “vemos que aos poucos a comunidade quer ser alfabetizada, aprender o português e a reduzir a prática da transumância, o que dá boas perspectivas no futuro, porque é muito difícil de gerir uma população transumante”.
Quanto à alfabetização, “já temos o projecto em andamento junto do Governo Provincial e através da administração local, uma vez que é notório esse interesse por parte da população”.
O projecto de alfabetização tem várias vertentes: reforçar o papel da mulher rural dentro da comunidade e sobretudo a componente da criança para a sua inserção na escola.
Matteo Tonini disse que a comunidade mucubal normalmente utiliza as crianças para pastorear o gado, “mas já estamos a ver um grande interesse por parte das crianças e jovens em aprender a ler e escrever”.

Legalizar as propriedades

As associações de camponeses têm de legalizar a terra que estão a cultivar para garantirem a sua posse: “com o apoio da administração e graças ao dinamismo da governadora Cândida Celeste da Silva, o processo de registo das propriedades está a decorrer rapidamente o que facilita as nossas acções futuras”, disse Matteo Tonini.
No Munhengo estão a funcionar viveiros de tomate, couve, repolho, cebola, melancia, melão e praticamente todos os produtos hortícolas para associar e diversificar a produção.
A maioria dos produtos cultivados é para consumo directo. O tomate, como tem saída no mercado, é destinado à venda. Com o dinheiro os camponeses compram combustíveis para as motobombas e isso permite uma grande sustentabilidade nas acções para o desenvolvimento das comunidades.
Cada motobomba tem a capacidade para regar até quatro hectares. No projecto do Munhengo está a ser aberto outro furo, que fica pronto no final do mês e a capacidade de rega passa para oito hectares.
O engenheiro agrónomo Matteo Tonini disse que a terra na Bibala é fértil, o que dispensa o uso de adubos. Quando houver necessidade, vai ser aplicado estrume porque as comunidades locais têm muitos bois: e não vale a pena gastar dinheiro em produtos químicos   porque além de serem muito caros, têm efeitos negativos sobre o meio ambiente.

Plantas vitaminadas

Para juntar o útil ao agradável, arrancou no Munhengo o programa de reflorestação através de frutíferas, para aumentar o consumo de vitaminas nas comunidades locais, através de mamão, laranja, limão, manga e goiaba. Os pomares estão a ser plantados.
A associação do Munhengo tem 45 famílias. Começou o mês passado com 38, mas algumas famílias que viviam nos quimbos mais distantes vieram trabalhar as novas lavras, uma vez que já tinham a garantia da água.
A região tem 34 associações apoiadas pela ONG italiana. Estão nos vales dos rios Bentiaba, Bero, Giraúl e na sede municipal, Bibala, e desde a comuna de Capangombe até Caitó. Também está em constituição uma associação de camponeses na comuna da Lola, outrora um dos maiores centros de cultivo de tabaco em Angola.
Para o gado, estão a ser reactivadas as chimpacas para captação e conservação da água que está a cair neste tempo da chuva.
O número de beneficiários do projecto é de 3.400 famílias no município da Bibala. E abrangem produtores de mel, agricultores e produção e repovoamento florestal. O projecto permitiu a redução da vulnerabilidade alimentar e ambiental na província do Namibe.

O óleo mupeque

 Matteo Tonini disse à nossa reportagem que a apicultura exige um trabalho bastante cuidadoso, por isso, “foram seleccionadas as comunidades pouco tradicionais para os trabalhos da apicultura. Mais de 100 colmeias foram colocadas nas áreas da Makala, do Progresso, do rio Bero e nos arredores da sede da Bibala, no Chimuko, na Mwunda, e algumas no Caitó.
A extracção de óleo mupeque arrancou no Munhengo com autorização da administração municipal. Neste momento a sua  venda é assegurada por vendedores ambulantes, mas à medida que a produção aumentar, os coordenadores do projecto vão  abastecer os maiores mercados formais.

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