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Jovens despertam para a formação profissional

João Upale | Namibe

O interesse em aprender um ofício e assim garantir um futuro tranquilo cresce entre os jovens e adolescentes do Namibe que, dia após dia, afluem às portas dos centros de formação profissional para se inscreverem nos cursos disponíveis.

Rapazes na oficina de alfaiataria do Centro de Desenvolvimento Comunitário
Fotografia: João Upale

O interesse em aprender um ofício e assim garantir um futuro tranquilo cresce entre os jovens e adolescentes do Namibe que, dia após dia, afluem às portas dos centros de formação profissional para se inscreverem nos cursos disponíveis. A reportagem do Jornal de Angola passou por alguns dos geridos pela direcção provincial da Família e Promoção da Mulher e constatou que a procura tem sido notória. 
Na povoação do Saco-Mar, 12 quilómetros a noroeste da sede do município do Namibe, fica o Centro de Desenvolvimento Comunitário. Aí aprende-se a profissão de alfaiate. 
O mestre Nluta Sebastião “Americano” conta que aprendeu o ofício no Congo Democrático, quando ainda era criança. A sua função, neste centro onde dá formação gratuita, é estimular muito cedo o interesse dos adolescentes na aprendizagem do ofício e criar neles a capacidade de se relacionarem com o primeiro emprego, quando adultos, para não mergulharem nas ondas da delinquência.
Os formandos são petizes de 12 a 15 anos. O último grupo entrou em Dezembro do ano passado e já apresenta boas noções de como trabalhar o tecido.
Mestre “Americano” diz que este é o momento dos garotos aproveitarem o saber que lhes está a ser dado, para depois se inserirem no mercado de trabalho, “contribuindo deste modo para o progresso do país. São miúdos que ainda não têm vícios. Esta é a altura certa para aprenderem algo e amanhã saberem defender-se das contrariedades que possam surgir-lhes na vida, em ambiente de trabalho”.
No Centro de Desenvolvimento Comunitário do Saco-Mar estão inscritos 27 alunos, na sua maioria rapazes. O grupo de meninas é fértil em desistências. 

Dificuldades são muitas

O mestre “Americano” ressalta que as maiores dificuldades residem na “falta de apoio das entidades”. 
“Estas quatro máquinas de costura são minhas. Entrei em Abril do ano passado nesta casa, mas encontrei-a vazia, sem nada do que seria normal. Eu próprio coloquei aqui as ferramentas, os tecidos, as linhas e tudo mais.” Além disso, mestre alfaiate diz que está a dar formação a custo zero, ou seja, sem salário, porque “pretendo contribuir para a formação dos homens de amanhã”. Mas lamenta a falta de atenção por parte da direcção da Família e Promoção da Mulher que “se limita a exigir os relatórios”.
“Eles pedem os relatórios porque estão muito ausentes, não visitam o centro”, diz. 
Mestre “Americano” admite que os pedidos para a confecção de artigos de vestuário têm sido “razoáveis”, devido ao fraco poder de compra da comunidade sacomarense, que se dedica sobretudo à agricultura de subsistência e à pesca artesanal.
Para ele o mais importante é olhar para o futuro dos rapazes e raparigas. “O interesse financeiro é secundário”, assegura. O pouco dinheiro que de quando em vez factura é direccionado para a compra de material sobressalente (tecidos, linhas, agulhas) e para reparação das máquinas. O que sobra é entregue aos miúdos “como forma de os consolar”.
Nluta Sebastião, o mestre “Americano”, confidenciou ao Jornal de Angola que cobra, para confeccionar um fato, seja de homem ou de mulher, três mil kwanzas, mas os clientes são muito raros, dada a pobreza reinante na comunidade. Enquanto conversámos não apareceu qualquer pessoa a solicitar os serviços deste alfaiate.

 Miúdos estão contentes

O mestre “Americano” pede auxílio às entidades que têm poder para o ajudar. “Peço ao Governo para dar um olhar a este centro e acompanhá-lo de perto, a fim de saber o que se está a passar aqui. Não temos bom material, faltam tecidos, linhas e máquinas. Tudo isso, essas carências todas, me dão dores de cabeça, mas eu resisto sempre, quero avançar com os miúdos”.
O material com que ensina os meninos é seu e “eles estão a gastar os meus tecidos em troca de nada. Eu só quero que eles aprendam uma profissão, para quando crescerem não precisarem de mendigar”. 
Domingos Arlindo Chiqueia, de 15 anos, vai frequentar a 8ª classe. Está na aprendizagem de alfaiataria há mais de um mês e diz gostar do que faz. Conta que foi o tio quem o incentivou a inscrever-se no centro. Grato por esta oportunidade, avança que “amanhã vou poder ensinar os outros conforme o mestre está a instruir-me”.
Justino Alberto tem 12 anos e passou para a 7ª classe. O candengue é um dos jovens que frequentam o Centro de Desenvolvimento Comunitário do mestre “Americano” e convida os demais rapazes a aderirem aos ensinamentos do seu mestre. “Os que estão na rua, para não ficarem só a lutar ou a brincar à toa, que venham para aprenderem como eu”.
Joaquim Manuel Mupolo, de 15 anos, com a 6ª classe e Albano Paulo, de 14, com a 8ª classe, corroboram a opinião de Justino. “Ter uma boa profissão é uma grande ajuda. Estamos aqui a aprender técnicas de corte e costura para amanhã podermos contribuir para o progresso do nosso país”. Albano diz que consegue conciliar os estudos e a aprendizagem da profissão. “Não tenho quaisquer problemas com o mestre ou com a direcção da minha escola. Tudo corre da melhor forma possível, tanto mais que passei para a 8ª classe, que vou frequentar este ano lectivo”.
Para Albano Paulo o trabalho na oficina “é muito divertido”, mas acrescenta que leva as coisas na brincadeira “porque é um ofício que depois nos vai orgulhar” e promete um dia abrir o seu próprio estabelecimento. “O que mais quero é abrir um dia a minha alfaiataria e revelar toda a técnica que o mestre está a ensinar-nos aqui: desenhar, alinhavar, cortar e coser calções, calças, saias, camisas, casacos e muito mais. Está muito bom e eu gosto, aliás, estamos a dar alegria ao nosso mestre”, garante o jovem, que aproveita para enviar uma mensagem aos amigos, dizendo que “fazer corte e costura é muito importante, porque nos ensina a adquirir conhecimentos sólidos sobre uma arte que leva o homem ao mundo do profissionalismo, e que também dá dinheiro”.

No centro Uwa Weya

No maior aglomerado populacional da cidade do Namibe, o bairro 5 de Abril, o Jornal de Angola conversou com Salomé Maria Elisabeth Carlos, ou simplesmente “Mamé”, responsável do centro de formação profissional “Uwa Weya”.
Também sob a alçada da direcção da Família e Promoção da Mulher, este centro é administrado pela igreja “Bom Deus” e dedica-se à formação em pastelaria, culinária, informática e decoração. De modo excepcional, dá também aulas de alfabetização e os cursos decorrem trimestralmente. “Mamé” ressalta a importância de que se reveste a formação e diz que o primeiro curso foi um sucesso. Na área de pastelaria formaram 16 jovens, 22 em informática e 24 em culinária. 
O segundo curso termina em Março, mas já se prevêem fracos resultados, por ter coincidido com as férias escolares. Alguns formandos ausentaram-se para outras províncias e outros estão mais preocupados com os exames de aptidão à escola de formação de professores.
Os que permaneceram no centro estão agora em aulas práticas. Salomé Carlos garante que os formandos estão a corresponder bem porque “têm boa memória, não estão a errar em nada e estou a gostar muito”. Segundo explica, tem havido muita gente, de ambos os sexos, a inscrever-se para os cursos. Mas alguns, por diversas razões, acabam por desistir”. Aqui, garante, o governo da província, através da direcção provincial da Família e Promoção da Mulher, tem ajudado, sobretudo na área da pastelaria. 
A falta de água no “Uwa Weya” é que tem criado dificuldades ao andamento da formação. A responsável referiu que os vândalos invadiram a conduta que a leva ao centro e agora é preciso recorrer ao Centro de Saúde, de onde é acartada, a escassos metros da instituição.
Salomé Carlos revela que, no âmbito da culinária, se aprende a teoria e depois a prática.
“Damos as receitas, explicamos como preparar um bom prato e depois os alunos praticam. Estão a sair-se muito bem. Por exemplo, há uma aluna que praticou a confecção de um frango assado no forno com batatas e depois, em sua casa, fez uma surpresa com esse prato. Ela disse que a família pediu bis”.

Variedade de pratos típicos

Nas aulas, os formandos aprendem a preparar kizaka, kidepa, feijão de óleo de palma, feijoada de vários tipos, sopas, caldo-verde, caldeirada, calulú, bife e muitos outros pratos.
“Os equipamentos para as aulas de informática pertencem a um líder da igreja “Bom Deus”, que está a ajudar muito na formação”, diz a responsável, aconselhando a população a aderir ao centro ou, no mínimo, a mandar os filhos para se formarem. Na óptica de “Mamé”, nos próximos tempos a província vai contar com vários hotéis e outros estabelecimentos de restauração e, sem a formação no ramo da culinária, será difícil conseguir um emprego. Por outro lado, acrescentou, há meninas cujos casamentos fracassam em pouco tempo porque “não sabem cozinhar nem tão pouco fazer um bom bolo de aniversário”.
“O curso é barato, a entrada é só cinco mil kwanzas, para um período de três meses”, diz, em jeito de propaganda.
Elsa Sambambungue, de 17 anos, está bastante satisfeita. “A razão por que me interessei em fazer o curso de culinária foi poder aprender mais sobre os pratos típicos da região”.
Gabriela Mota Manuel, de 26 anos, a frequentar o mesmo curso, afirma que o seu objectivo “é melhorar a culinária e estar preparada para um dia trabalhar em grandes hotéis, porque gosto muito de cozinhar”, deixando um conselho às jovens: aprendam culinária porque “é bom para elas e para o futuro das suas famílias. Uma mulher que domine a cozinha tem o lar na mão”.

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