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Mar e Paz é uma arma de combate à pobreza

João Upale| Namibe

Depois do longo período de guerra civil, centenas de antigos militares no Namibe têm agora, em tempo de paz, uma outra batalha para vencer: a de acabarem de uma vez por todas com a miséria que grassa nas suas famílias.

Governadora do Namibe Cândida Celeste está empenhada no combate à pobreza e apoia os antigos militares
Fotografia: Afonso Costa | Namibe

Depois do longo período de guerra civil, centenas de antigos militares no Namibe têm agora, em tempo de paz, uma outra batalha para vencer: a de acabarem de uma vez por todas com a miséria que grassa nas suas famílias. Nesse confronto, a arma usada é a formação profissional e as munições os instrumentos de trabalho. Com determinação e alguma ajuda esta batalha vai ser facilmente ganha. Aqui, a miséria tem os dias contados.
Para além da vontade própria, os ex-militares contam, neste combate, com o apoio institucional do Executivo e do governo da província. Recentemente, a governadora do Namibe deslocou-se à cooperativa Mar e Paz, localizada na povoação do Saco-Mar, nos arredores da sede da província, onde entregou instrumentos de trabalho de carpintaria, serralharia, mecânica e electricidade. A cooperativa de ex-militares é acompanhada pelo Instituto de Reintegração Socioprofissional dos Ex-Militares (IRSEM).
Como contributo para a criação de um fundo sustentável para a estabilidade dos projectos da cooperativa, Cândida Celeste entregou ainda um cheque no valor de 1,1 milhões de kwanzas.
Entre os instrumentos e ferramentas entregues encontram-se geradores eléctricos, máquinas de soldadura, tornos de bancada, serrotes, martelos, fatos de trabalho, entre outros. Os 21 associados da cooperativa Mar e Paz e as suas famílias manifestaram grande satisfação e prometeram arregaçar as mangas. Nas trincheiras do trabalho vão procurar pôr em prática os objectivos que nortearam a criação da cooperativa.
Balbina Mateus, 34 anos e mãe de dois filhos, é uma das beneficiárias. Anteriormente percorria a cidade do Namibe de lés a lés, vendendo peixe fresco. Contou à reportagem do Jornal de Angola que aquele negócio não lhe dava quaisquer lucros, apenas uns trocos para alimentar a sua família de modo precário. A vida estava estagnada. Acabou por decidir aliar-se à cooperativa.
De repente, Balbina mudou completamente de vida. Quem a vê dificilmente reconhece nela a antiga zungueira que vendia peixe de porta em porta. Fez o curso e agora é electricista. Muito satisfeita, confessou ao Jornal de Angola que com os instrumentos de trabalho que recebeu vai depositar todas as suas energias na nova profissão e convidou outras mulheres a trilharem o mesmo caminho, porque, segundo disse, “ter uma profissão é sempre uma grande vantagem, dado que o negócio muitas vezes pode falir e complicar a vida”.
A nova electricista defende que a uma pessoa tudo pode ser tirado, menos a formação adquirida nos bancos da escola. “Agradeci muito à nossa governadora Cândida Celeste. Ofereceram-me muitas coisas e daqui para a frente vou procurar melhorar a minha vida e trabalhar para os meus filhos estudarem condignamente”, prometeu.
 
A intenção é reduzir a pobreza
 
A governadora Cândida Celeste frisou que o governo da província começa a dar grandes passos para minorar os problemas dos ex-militares e que a entrega destes meios “visa, fundamentalmente, reduzir a pobreza, combater a fome e empregar mais militares numa actividade útil”, ajudando-os não só a eles, mas também às pessoas que os rodeiam.
“Estou ciente de que com este material vamos, em breve, ter portas para as nossas casas, ter a oportunidade de reparar um carro, enfim, isso já é muito bom e vai ajudar-nos bastante”, referiu Cândida Celeste.
A governadora aproveitou a ocasião para exortar a cooperativa Mar e Paz no sentido de juntar mais ex-militares para um trabalho útil, não só nas especialidades de mecânica, serralharia, electricidade e alvenaria, mas também no exercício da agricultura, com a criação de uma grande associação de camponeses. A cooperativa foi igualmente instada a criar salas de alfabetização, de modo a trazer para o mundo das letras e dos números os seus membros que, por motivos vários ainda não estão incluídos.
 
Resolver os problemas
 
O presidente da cooperativa Mar e Paz, José Fernando Chitômwa, disse que gestos como o da governadora ajudam imenso a resolver os problemas dos associados na cooperativa, em particular, e da população, em geral. “Todos os associados se sentem honrados e felizes e aproveitam a oportunidade para agradecer à direcção-geral do Instituto de Reintegração Socioprofissional dos Ex-Militares e ao governo da província pela entrega dos meios de trabalho à população do Saco-Mar”.
José Chitômwa, incapaz de esconder a sua satisfação, foi mais longe nas palavras. “Com a nossa firmeza e vontade de cuidar desses meios e da oficina que nos foi entregue, vamos todos trabalhar como filhos unidos de um só pai e uma só mãe”.  Reiterou ainda a necessidade do governo provincial continuar a trabalhar no sentido da melhorar as condições de vida das populações em geral, e dos desmobilizados em particular.
 
Valor do projecto
 
O chefe dos serviços provinciais do Instituto de Reintegração Socioprofissional dos Ex-Militares, António Tiago, disse ao Jornal de Angola que os instrumentos de trabalho das diversas especialidades foram adquiridos com base num projecto do governo para o reforço da reintegração dos ex-militares.
António Tiago lembrou que este programa foi aprovado pelo Executivo de Angola, na sessão do Conselho de Ministros de 26 de Julho de 2007, com vista a contemplar os ex-militares desempregados com kits, meios e equipamentos diversos, de forma a inseri-los no mercado de trabalho.
Mas isso, segundo António Tiago, é feito “respeitando obviamente o perfil e as vocações dentro do grupo alvo, permitindo, deste modo, a criação de rendimento com vista a minimizar as suas condições sociais e as dos seus dependentes”.
Revelou ainda que o projecto ora executado, isto é, os meios de trabalho entregues aos membros da cooperativa Mar e Paz, ficou orçado em 3,91 milhões de kwanzas. Este valor não inclui os meios adquiridos para a construção das instalações oficinais, onde os beneficiários vão exercer a sua actividade laboral. 
António Tiago realçou que o fundo de maneio “não reembolsável” – entregue pela governadora da província – vai possibilitar aos beneficiários adquirirem matérias-primas consumíveis e facilitar o arranque das actividades no âmbito do projecto. O responsável pelos desmobilizados no Namibe sustentou que o Executivo angolano pretende “desenvolver de forma ampla as acções relativas ao processo de reintegração dos desmobilizados, que por várias razões não tiveram acesso a oportunidades de reintegração socio-económica e profissional na vida civil”.
Para que o projecto contribua, de facto, para uma reintegração sólida e responsável, António Tiago defendeu a necessidade de se conjugarem esforços, desempenho e dedicação dos beneficiários, para permitir a criação de rendimentos, tendo em conta a oportunidade oferecida.
Garantiu ainda que o IRSEM no Namibe vai desenvolver uma ampla actividade de sensibilização no seio do grupo alvo e fazer a monitorização e avaliação periódica de todas as acções a desenvolver pela cooperativa Mar e Paz. Sublinhou também que as acções de reintegração vão ser sentidas em todo o território da província, absorvendo os desmobilizados que se encontram em situação de vulnerabilidade.

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