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Prenda de aniversário para os namibenses

Vladimir Prata |

A reabertura do Caminho-de-Ferro de Moçâmedes, prevista para este mês de Agosto, está a encher de alegria os habitantes da província do Namibe, de onde parte o comboio para a província do Kuando-Kubango, no Leste do país, passando pela província da Huíla.

Fotografia: Afonso Costa


A reabertura do Caminho-de-Ferro de Moçâmedes, prevista para este mês de Agosto, está a encher de alegria os habitantes da província do Namibe, de onde parte o comboio para a província do Kuando-Kubango, no Leste do país, passando pela província da Huíla.
O traçado completamente remodelado graças a um investimento do Estado angolano tem cerca de 746 quilómetros, desde a cidade do Namibe ao Menongue, passsando por 56 estações, distribuídas em especiais, primeira, segunda e terceira classes, algumas das quais reabilitadas, outras construídas de raiz. Várias medidas foram tomadas no sentido de garantir o funcionamento eficaz deste importante meio de transporte para o desenvolvimento da região.
No final do ano passado, por exemplo, procedeu-se à realização de uma viagem experimental no troço que vai do município da Matala, na Huíla, ao Menongue, no Kuando-Kubango. Em Junho deste ano fez-se o mesmo no troço Namibe/Lubango, que era considerado o percurso mais complicado e cujas obras levaram mais tempo.
O Ministério dos Transportes tem estado agora a inaugurar as várias estações existentes ao longo do caminho-de-ferro. No passado dia 25 de Julho, o ministro Augusto Tomás inaugurou 17 estações de segunda e terceira classes, 15 das quais na província da Huíla e duas no Kuando- Kubango. Dia 10 deste mês foi a vez das estações das mesmas classes do troço Namibe/Lubango. Na passada quinta-feira foram inauguradas a estação de primeira classe do Namibe e a especial do Saco-Mar, e logo a seguir as da Huila e Kuando-Kubango da mesma categoria.
Neste preciso momento astá a ser estudado o plano de viagens e a tabela de preços a serem praticados pela empresa após o arranque do comboio, para servir a população das demais localidades. Entretanto, enquanto isso não acontece, os habitantes do Namibe, em particular, esfregam as mãos de contentes pela certeza de que muito em breve terão mais uma opção de viagem para as províncias da Huíla e do Kuando-Kubango, onde muitos têm negócios. Tal foi manifestado na viagem experimental de 30 de Junho, que contou com a presença, a bordo da locomotiva, do ministro Augusto Tomás, e dos governadores do Namibe e da Huíla, respectivamente Cândida Celeste da Silva e Isaac dos Anjos. Entre lágrimas e risos, muitos angolanos que nasceram ou se fixaram nesta região acolheram com emoção o ressoar do apito do comboio, depois de longos anos sem o terem ouvido. Muitos quiseram estar dentro dele, mas não houve lugar para todos. Afinal, no comboio só havia espaço para 300 pessoas.
No exterior, uma multidão de pessoas ficou a acenar, despedindo os que partiam na primeira viagem, ainda que experimental, do Namibe ao Lubango. Ao longo da via, vendedores ambulantes interrompem a sua zunga para admirar, mulheres que lavam roupa à margem dos rios, lagos e lagoas páram para olhar e lavradores descansam as suas enxadas e catanas para contemplar, sorrindo, a máquina de ferro que num futuro muito breve poderá levar os seus produtos do campo para outros pontos da região. No interior, a nostalgia tomou conta dos viajantes. Histórias são contadas e testemunhos são dados de um tempo aúreo, em que o comboio trilhava este caminho-de-ferro hoje totalmente reabilitado e modernizado. Maria Kiala, de 25 anos de idade, nunca tinha estado no interior de um comboio. Apesar disso, vivia momentos de grande ansiedade, afirmando que o sentimento era o de muita alegria.
Delfina Kaquene, funcionária do Caminho-de-Ferro de Moçâmedes há doze anos, onde trabalha no gabinete do secretariado e serviços gerais, nunca teve a oportunidade de fazer uma viagem de comboio. “Estava à espera deste momento. Sabia que tarde ou cedo eu havia de testemunhar este benefício para o povo angolano. Hoje me sinto muito orgulhosa”, disse.
Por seu lado, o soba do bairro Calipto, Pascoal Likeke, conta que o seu maior sonho é retornar a sua terra natal, no Kuvango, Kuando-Kubango, através do comboio do CFM, o mesmo que há trinta anos o trouxe às terras da Welwitshia Mirabilis.
“Faz muito tempo que estamos sem o comboio. Por isso é para nós uma grande satisfação ver que o comboio já pode voltar a viajar do Namibe ao Lubango, e em breve para o Menongue”.

O comboio da paz

O ministro Augusto Tomás fez questão de recordar que este é o comboio da paz, do perdão e do desenvolvimento do país, garantindo que antes mesmo das eleições gerais de 31 de Agosto, o Caminho-de-Ferro de Moçâmedes vai ser reinaugurado.
O governante disse que o cronograma de execução da reabilitação e modernização dos Caminhos-de-Ferro de Moçamedes foi cumprido na íntegra, o que garante a retomada da circulação regular do comboio neste mês, assegurando que os técnicos vão continuar a consolidar a linha para que o transporte de pessoas e mercadorias comece a ser processado dentro dos parâmetros internacionalmente aceites.
Referiu que a retomada da circulação do comboio regular do Caminho-de-Ferro de Moçamedes, depois dos caminhos-de-ferro de Luanda e Benguela, está inserida na estratégia do Governo angolano, no quadro da sua integração no mercado africano e do mundo. Informou, por outro lado, que um dos objectivos destes caminhos-de-ferro é levar às zonas rurais um sopro para o desenvolvimento.
“Significa levar o desenvolvimento, emprego, coesão social e territorial, diminuindo as assimetrias regionais e equilibrando o país do ponto de vista da distribuição da riqueza nacional”, disse.

Empresários satisfeitos

Os empresários da província do Namíbe estão confiantes de que com a reabertura do caminho-de-ferro as oportunidades e intensificação dos negócios vão aumentar. Carlos Salgueiras, empreendedor, disse que a circulação do comboio é uma mais-valia para o desenvolvimento da região em particular, já que vai ligar três províncias.
“Antes os custos eram mais elevados, porque nós como importadores usamos meios aéreos e terrestres. Com o comboio os custos serão menos”, considerou.
A empresária Zezinha Carvalho, que vende diversos produtos, disse que o comboio do Caminho-de-Ferro de Moçâmedes vai trazer grandes benefícios para a população. “Com o comboio podemos transportar os produtos do campo para a cidade. Vamos criar estratégias para que os nossos produtos cheguem também ao Kuando-Kubango na hora certa e a custo baixo”, adiantou.
Já para a empresária Teresa Baptista, a expectativa de ver o comboio regular a circular na região é boa. “Sabemos que isso é uma mais-valia para as províncias do Namíbe, Huíla e Kuando-Kubango, porque é uma forma de poder escoar os produtos de forma mais barata, em grande quantidade e é uma forma de preservar a estrada entre Namibe e Lubango, porque têm circulado camiões carregados com pedras de granito que caem pela estrada e estragam o asfalto”, indicou.
O comboio vai permitir também que a transportação de combustível para a Huíla e para o Kuando-Kubango, a partir do Namibe, seja feita com maior segurança, em maior quantidade e a preços mais baratos. A composição é puxada por uma locomotiva de origem indiana e conta com nove carruagens novas e fabricadas na China, sendo duas carruagens de primeira classe, três de segunda, uma de terceira, um restaurante, um power car (para fornecimento de luz eléctrica) e um furgão.

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